“Homo Argentum”, “A Mulher da Fila”, “Belén” e “Gatilheiro” garantem presença do cinema argentino em telas brasileiras

Foto: “Homo Argentum”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

Por Maria do Rosário Caetano

O cinema argentino, que, graças aos Darín movie, já ocupou espaço significativo no nosso circuito de arte, anda meio sumido. São raros, em nossas telas, os lançamentos de produções vindas do país vizinho.

O mais chamativo da safra atual, “Homo Argentum”, da badalada dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat, passou praticamente batido. Se na Argentina esta comédia transformou-se num “tanque” (arrasa-quarteirão ou blockbuster), aproximando-se dos dois milhões de ingressos, por aqui ficou estacionado nos 20 mil espectadores. E olha que Cohn e Duprat são festejadíssimos realizadores de filmes como “O Cidadão Ilustre” e das séries “Meu Querido Zelador” e “O Faz Nada”, esta com participação especial do astro Robert De Niro.

Por sorte, “Homo Argentum” ganha uma segunda chance no streaming (Disney). E soma-se, assim, a “Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (Prime Video), “A Mulher da Fila”, de Benjamin Ávila (Netflix), e “Gatilheiro”, de Cristian Tapia Marchiori (HBO Max).

A situação do cinema platino não é a mesma das últimas décadas. Com o triunfo do ultraliberal Javier Milei, o quadro apresentou-se preocupante e desanimador. Dados fornecidos pelo INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual da Argentina) mostram que a produção não caiu (foram lançados 239 filmes nos cinemas do país). Porém, 70% deles não ultrapassaram a casa dos mil espectadores.

Para não dizermos que a poderosa cinematografia argentina, que compõe com a brasileira e a mexicana a trinca master da América Latina, está em situação  desesperadora, faz-se necessário destacar dois fatores.

Primeiro: 74 dos lançamentos mobilizaram plateias modestas, mas capazes de demonstrar que nem tudo está perdido. Quatro dos cinco campeões de bilheteria de 2025 – “Mazel Tov”, de Adrián Suar (368 mil ingressos), “Belén” (148 mil), “El Novio de Mamá”, de Nicolás Silbert e Leandro Mark (79 mil) e “Una Muerte Silenciosa”, de Sebastián Schindel (48 mil) – servem de exemplo. Comprovam que num país de 47 milhões de habitantes, sobram sólidos vestígios da era dourada da ‘Nueva Ola’, que teve (tem) em Ricardo Darín seu maior símbolo.

Segundo: com o formidável desempenho de “Homo Argentum”, o cinema argentino apresentou significativo crescimento de seu market share (taxa de ocupação do próprio mercado). Subiu de 2,2% do primeiro ano de Milei (2024) para 9%. O jornal Página 12, de Buenos Aires, porém, alerta: “a árvore não deve esconder o bosque”. Ou seja, se não fossem os quase dois milhões de ingressos do filme da descolada dupla Cohn e Duprat, a situação seria tão desoladora quanto a de 2024.

Sabe-se que Javier Milei assistiu a “Homo Argentum” e gostou, por entender que ele “deixa evidente a agenda woke”, tão execrada por ele e seus seguidores, e tão “defendida pelos progressistas”. Quem viu o filme nos cinemas brasileiros (ou na Disney), talvez não concorde com a avaliação do espalhafatoso Milei, ligado à extrema direita, amigo e protegido de Donald Trump. Até porque, durante a campanha eleitoral que o elegeu, ele prometeu exterminar o INCAA. Ainda não o fez. Mas prometeu privatizar a plataforma Cine Argentino Play e ordenou, além de corte de funcionários no INCAA, a diminuição de recursos investidos na indústria cinematográfica. A mesma que rendeu dois Oscar ao país, os primeiros da América do Sul – com “História Oficial” (1995), de Luiz Puenzo, e “O Segredo dos seus Olhos” (2008), de Juan José Campanella.

A Revista de CINEMA destaca quatro filmes argentinos recentes que despertaram atenção dos festivais, da crítica ou do público. Que foram pré-indicados (ou indicados) a prêmios internacionais (como “Belén”, finalista ao Goya espanhol e aos Prêmios Platino) e um, o eletrizante “Gatilheiro”, de Cristian Tapia Marchiori, que passou pelo Bafici, por Huelva e pelo Fantaspoa. E vem transformando-se em “cult” entre o público jovem.

HOMO ARGENTUM, de Mariano Cohn, 50 anos, e Gastón Duprat, 56, traz a grifada assinatura da dupla mais festejada do cinema argentino contemporâneo. Neste novo filme, lançado no circuito comercial brasileiro, eles quase repetiram o megassucesso de “Relatos Selvagens” (2014) em seu país natal. Mas o mesmo não aconteceu no mercado externo. No Brasil, “Argentum”estacionou na casa dos 20 mil ingressos. Quase nada perto do 1,8 milhão de espectadores mobilizados em seu país de origem. O longa é protagonizado pelo astro supremo da comédia argentina, Guillermo Francella, um baixinho de 71 anos (completados nesse 14 de fevereiro), ao qual falta a “beleza rústica” de Darín. Mas ele tem talento e carisma similares ao do protagonista de “Nove Rainhas”, “O Segredo dos seus Olhos” e “Argentina 1985”.

Depois de causar furor na pele do porteiro atrevido e ardiloso de “Meu Querido Zelador”, Francella fez jus a presente especial de Cohn e Duprat: um filme que soma 16 histórias, todas protagonizados por ele. Algumas são formidáveis. Destaque para a do financista cafona, que conduz, em carro da hora, um garoto até a favela onde este reside. O faz bancando o bom samaritano. Noutra trama, vemos brasileiros, que adoram praticar o turismo de compras em Buenos Aires. Eles serão presa fácil de anfitrião presepeiro e bom de papo incorporado por Francella. Famílias inteiras hão de ficar consternadas com o caráter interesseiro de três filhos que querem arrancar, precocemente, a herança paterna. Ítalo-brasileiros dificilmente resistirão à trama ambientada numa cidadezinha da Sicília.

O episódio que, decerto, agradou a Milei é aquele que mostra jovem de beleza estonteante, num elevador, com um alto-dirigente esportivo. Mais não se dirá, para não estragar a surpresa da sintética trama. Ninguém pense, porém, que Cohn e Duprat fizeram um filme de tendência direitista. Fizeram o que sempre fazem. Urdiram tramas que satirizam personagens dos mais diversos extratos sociais. Milei pode ter pego carona no sucesso do filme. Afinal, ele é movido por tudo que é espetaculoso e ‘instagramável’. Guia-se pela busca desenfreada de cliques nas redes sociais (Disney, 99 minutos).

“Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi

BELÉN, UMA HISTÓRIA DE INJUSTIÇA, de Dolores Fonzi. A atriz e diretora, nascida em Buenos Aires há 47 anos, é uma estrela em seu país. Depois de atuar numa série de filmes (alguns deles com Ricardo Darín – “El Aura”, “A Cordilheira”, “Truman” e “Neve Negra”) e de badalado casamento com o ator mexicano Gael García Bernal (do matrimônio, já desfeito, nasceu Lazaro Bernal), Dolores resolveu estrear na direção. O fez com o maluquinho “Blondi” (2023), protagonizado por ela. Agora, divide o protagonismo com Camila Plaate, que interpreta Julieta, jovem que chega sangrando a um hospital, sofre um aborto e é acusada de ter atentado contra a vida do filho. Sai, portanto, da coloridíssima comédia “Blondi” para drama social inspirado em fatos reais. Fatos que aconteceram em Tucumán, terra natal da cantora Mercedes Sosa (1935-2009). Aliás, a cantora será evocada na trilha sonora do filme.

Julieta, moça pobre, será presa, acusada de prática ilegal de aborto. Encontrará, para defendê-la, a advogada Soledad Deza (Fonzi). As duas vão penar nas mãos de uma Justiça hostil e insensível. Mas encontrarão a solidariedade de centenas, depois de milhares, de mulheres, tocadas pela injustiça a que a jovem é submetida. E, mostrará o filme com imagens documentais, as mulheres argentinas que lutarão convictas e unidas pelo direito ao aborto. E, com seus lenços verdes, triunfarão.

“Belén”, que figurou na short list (15 semifinalistas) do Oscar internacional desse ano, é forte concorrente ao Goya de melhor filme ibero-americano (desde que derrote o brasileiro “Manas”, de Marianna Brennand, e o colombiano “Un Poeta”, de Simón Mesa Soto). O segundo longa-metragem da diretora recebeu importantes pré-indicações aos Prêmios Platino, dedicado ao cinema da Península Ibérica e América Latina (Prime Video, 108 minutos).

“A Mulher da Fila”, de Benjamin Ávila

A MULHER DA FILA – O novo longa-metragem de Benjamin Ávila, o drama penitenciário “A Mulher da Fila”, tem dois pontos em comum com seu filme mais famoso, “Infância Clandestina” (2011): sua protagonista Natália Oreiro e a parceria com o brasileiro Marcelo Müller, coautor do roteiro. Os dois se conheceram na Escuela Internacional de Cine y TV de San Antonio de los Baños, em Cuba. Ávila, hoje com 54 anos, encantou a todos que assistiram à sua história ambientada durante a ditadura militar argentina, que obriga um garoto a viver clandestinamente, pois seus pais são militantes políticos (Montoneros). No elenco, mais duas presenças brasileiras, a da atriz paraibana Mayana Neiva e de Douglas Simon). O diretor argentino realizou outros filmes (incluindo “Gilda – Não me Arrependo desse Amor”, também com Natália Oreiro) e séries. Mas nenhum alcançou o reconhecimento de “Infância Clandestina”.

Quem deparou-se com a qualificação “drama penitenciário” não deve alarmar-se. Afinal, a protagonista Andrea – a onipresente Natalia Oreiro, que interpretou glamourosa Evita Perón em série das mais badaladas e fez jus a Kikito de Cristal, em Gramado – viverá uma história mais próxima do drama familiar, que da aspereza de cárceres do Terceiro Mundo. Perto do que vemos em documentários brasileiros, a prisão argentina é bem menos aterradora.

Andrea vive uma vida tranquila, com seus três filhos, numa casa de classe média. O mais velho tem 18 anos e os mais novos, um menino e uma menina, estão na faixa dos dez anos. Um dia, a polícia invade sua residência e prende o filho mais velho. A mãe, que perdera o marido precocemente, terá que enfrentar sozinha o novo desafio. A avó do rapaz e dos meninos, uma senhora também de classe média, prefere não se meter nas filas e galerias de uma cadeia. O martírio de Andrea começará justo na imensa fila de mulheres, mães de filhos encarcerados em aguardados dias de visita. E prosseguirá com o desconhecimento das regras daquele mundo em que abnegadas senhoras não medem esforços para levar alimentos, roupas, cigarros e algum dinheiro para os filhos.

Na primeira parte do filme, a protagonista parece uma personagem sem noção, que confia cegamente no filho. Ela nem pergunta a ele o que o teria levado ao encarceramento? Depois, o roteiro se aprumará e, em camadas, revelará o que se passou. Revelará, também, o processo de aprendizagem de Andrea, que se unirá às “mulheres da fila” em busca de direitos para os aprisionados. O filme não tem as mesmas qualidades de “Infância Clandestina”, mas resulta em drama humanista e merecedor do tempo do espectador. Pelo menos daqueles que se interessam pelo cinema latino-americano (Netflix, 105 minutos).

“Gatilheiro”, de Cristian Tapia Marchiori

GATILHEIRO, de Cristian Tapia Marchiori. A HBO Max preferiu traduzir, ao pé da letra, o título argentino — “Gatillero” (aquele que aperta o gatilho). Nós, brasileiros, seríamos mais explícitos na qualificação do personagem: pistoleiro ou exímio atirador. Afinal, esta é a principal característica do presidiário recém-libertado, Pablo, apelidado El Galgo (referência àqueles cães muito velozes). Ele é bom de gatilho e correria. Ágil no uso da mão armada e na fuga de quem o persegue. Vivido com força documental por Sergio Podeley, El Galgo receberá missão que parece simples: dar um susto num comerciante, desafeto de “La Marina” (Julieta Díaz). Só que as coisas vão se complicando cada vez mais. E haja pontaria e pernas para correr ao longo de 80 minutos, filmados em plano-sequência, numa periferia bonaerense (Isla Maciel), onde o tráfico de drogas viceja.

O filme, exibido em diversos festivais e pré-finalista aos Prêmios Platino, soma ação desenfreada a temas sociais recorrentes (egressos do sistema penitenciário aos quais não restam saídas, cozinhas comunitárias que tentam ajudar na medida do possível, violência urbana e tráfico de drogas). Os que fetichizam o plano-sequência vão deleitar-se. Afinal, seu uso imprime urgência e dinamismo ao filme. Mas a trama, que se quer realista, muitas vezes não consegue esconder os artifícios de seu roteiro (do próprio diretor, em parceria com Clara Ambrosini). O elenco é notável e rende bem por inteiro. A fotografia de Martín Sapia é eficiente e capaz de envolver o espectador interessado mais em sentir, que em refletir sobre o que vê (HBO Max, 80 minutos).

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