Streaming lança “Armand”, filme premiado do neto de Bergman, mostra remake de Kurosawa e exibe “Los Años Nuevos”, série madrilenha de Rodrigo Sorogoyen
Foto: Renate Reinsve, em cena de “Armand e os Limites das Famílias”, de Halfdan Ulmann Tøndel
Por Maria do Rosário Caetano
As plataformas de streaming acabam despejando no oceano digital os mesmos filmes, aqueles que passam pelo circuito exibidor e, em maioria, atingem grandes bilheterias.
Já os menos vistos e sem condições financeiras de bancar custosas campanhas publicitárias, acabam esquecidos. Por isso, selecionamos aqui alguns filmes e, em especial, uma série, a espanhola “Los Años Nuevos”, para que os leitores da Revista de CINEMA possam correr alguns riscos. E, quem sabe, descobrir títulos que passaram quase incógnitos pelo circuito de arte.
A indicação mais empolgante vem da Noruega — o longa-metragem “Armand e os Limites das Famílias”, de Halfdan Ulmann Tøndel. Trata-se do longa de estreia de um jovem de 34 anos, neto de dois astros do cinema nórdico, Liv Ulmann e Ingmar Bergman. O filme tem um trunfo “da hora”, sua protagonista absoluta, a talentosíssima Renate Reinsve.
Sim, a atriz indicada ao Oscar por seu trabalho em “Valor Sentimental”. E que encantou os cinéfilos brasileiros com “A Pior Pessoa do Mundo”. Ela interpreta Elizabeth, uma atriz linda, perturbada, fascinante e chique. Prestem atenção na capa fashion, de cor vinho, que ela usa no início desse formidável drama contemporâneo. Renate, de 38 anos, vem fazendo por merecer todo o reconhecimento que tem recebido.
Como o filme de Tøndel foi realizado em 2023 e chegou a Cannes em 2024, ele não copiou “Valor Sentimental” quando a escalou para a mesma profissão — uma atriz em crise. A diferença é que o filme de Trier, de alma bergmaniana, a levou à condição de finalista ao Oscar. Mas o filme do neto de Liv e Ingmar teve boa carreira. Começou com ótima arrancada em Cannes, festival no qual ganhou o troféu Camera d’Or. Trata-se de prêmio para a melhor “opera prima” (filme de diretor estreante), esteja ele em que competição cannoise estiver. “Armand” não chegou, claro, a desfrutar da poderosa vitrine da estatueta hollywoodiana (“Valor Sentimental” soma impressionantes nove indicações ao Oscar).
Entre os destaques dessa resumida seleção de programas alternativos oferecidos pelas plataformas de streaming está o remake que Spike Lee ousou fazer de mais um filme asiático, “Céu e Inferno”, um Kurosawa de 1963. O título dado pelo nova-iorquino derivou do original japonês (Céu e Inferno como metáfora de Alto e Baixo – “High and Low”). Lee cravou “Higshet 2 Lowest”. E o responsável pelo título brasileiro, em lampejo marxista, optou pelo supreendente “Luta de Classes”. Provocação poderosa em tempos despolitizados. Ou politizados rumo à (extrema) direita. Será que Spike Lee soube da engajadíssima tradução? Gostou?
Há, nas escolhas abaixo listadas, títulos hispano-americanos. A Argentina se faz representar por três filmes. Nos três, Ricardo Darín, que acaba de completar 69 anos, reina absoluto. Em consonância com seu talento e carisma. Quem, também, brilha nos três filmes é Fabián Bielinsky (1959-2006), diretor e roteirista que partiu muito cedo. O México também tem sua hora e sua vez, com “As Loucuras”.
A lista conta com filme italiano de nome doidão (“Munch: Amor, Fantasmas e Vampiras), brasileiros (a animação “Eu e meu Avô Nihonjin”, o documentário “O Brasil que Não Houve – As Aventuras do Barão de Itararé no Reino de Getúlio Vargas”, sim, com H, e a série “Pssica”), estadunidenses (duas obras recentes de Kelly Reichardt) e uma animação espanhola de alma norte-americana (“Meu Amigo Robô”).
Vamos pois aos filmes e séries escolhidos:
NETO DE BERGMAN E LIV ULMANN — “Armand e os Limites das Famílias” (2025, 118 minutos, na Apple TV)
O jovem Halfdan Ulmann Tøndel fez sua estreia no longa-metragem com um filme ousado, de nome sintético: “Armand”. No Brasil, desde que foi lançado pela Apple TV, o filme ganhou nome mais esclarecedor. Tudo começa num início de verão na nórdica Noruega, num colégio de elite, imenso, decorado com bom gosto e seguidor dos cânones da tradição. Uma criança de seis anos, o Armand do título, é acusada de falha grave. Sua mãe, a atriz Elisabeth (Renate Reinsve), é convocada para reunião com a equipe do colégio e com os pais de outra criança, da mesma idade, que teria sido assediada. Viúva recente, atrevida, fora dos padrões tradicionais, Elizabeth vai enfrentar a situação com a garra de um bicho acuado disposto a tudo para defender sua cria. Na melhor tradição brechtiana, Tøndel vai recorrer a momentos de formidável distanciamento crítico. E Renate Reinsve provará, em longa sequência em que é tomada por frouxo de riso, porque é a atriz da hora. O que a alemã Sandra Huller viveu dois anos atrás, a nórdica vive agora. E o filme vai revelando, em suas muitas camadas, os “limites das famílias”. A parte final, que dialoga com o cinema fantástico (ou de horror) pode desagradar a alguns. Mesmo assim, o filme é irresistível. O neto de Liv e Bergman saiu aos seus. Tem talento.
“LOS AÑOS NUEVOS” – “Os Anos Novos” (2025, 10 episódios com média de 50 minutos cada, na MuBi)
O cineasta Rodrigo Sorogoyen, de filmes aliciantes (e reflexivos) como “As Bestas” (confiram, também, “Madre”, nas versões curta e longa-metragem), prova seu imenso poder de criar histórias complexas, atmosféricas e apaixonantes. Em sua nova série, acompanharemos os namorados Ana (Iria del Rio) e Óscar (Francesco Carril) ao longo de dez anos. Eles se encontram sempre no Réveillon (el “Año Nuevo”). Mesmo apaixonados, acabam se desentendendo. Ele é médico e ela apaixonada por cozinha. E propensa a conhecer outros países. Mas Madri acabará sendo a base geográfica dos dois. Dos encontros e desencontros. O mais grave deles acontecerá na Alemanha. E Lyon, na França, será muito importante na vida dela, pois lá Ana montará seu restaurante. Quatro capítulos são inesquecíveis. Um deles nos faz lembrar os dramas familiares de Mario Monicelli. São hilárias (e reveladoras) as conversas dos parentes de Ana e dos de Óscar em volta de uma mesa. Em outro, Óscar se encontra, sozinho, com um estranho rapaz, que pede dinheiro para regressar a Valência. O que acontece é de um humanismo singelo e arrebatador. Outro, passado em Lyon, permite a Ana e à sua mãe entabular irresistível diálogo. E o último capítulo, composto de uma DR áspera (e desesperadora) acabará nos seduzindo. Sorogoyen também recorre a recurso brechtiano: personagens rompem a quarta parede, aparecem em plano médio (como se posassem para uma foto) e olham para o espectador. Metalinguagem sútil, portanto nada exibicionista.
HERANÇA DE FABIÁN BIELINSKY – “Nove Auras – O Legado de Bielinsky” (2025, 80 minutos, na Disney)
Em São Paulo, 20 anos atrás, num dia de trabalho, tão comum numa grande metrópole sul-americana, notícia inesperada causaria tristeza entre cinéfilos brasileiros. Tristeza amplificada entre os argentinos. Morria, naquele ano de 2006, o portenho Fabián Bielinsky, diretor de thriller que transformaria Ricardo Darín num astro (“Nove Rainhas”, 2000). Enfarte fulminante o matou num quarto de hotel paulistano. Ele estava na cidade para dirigir um comercial. Tinha apenas 47 anos e seis de imenso prestígio cinematográfico, garantido por apenas dois longas-metragens — “Nove Rainhas” (115 minutos) e “El Aura” (2005, 134 minutos). O sucesso do filme sobre dois estafadores, que tentam vender selos raríssimos a compradores mal intencionadas, foi fulminante. Seu trio de protagonistas — além de Darín, o belo Gastón Pauls e a curvilínea e sedutora Letícia Brécia — relembrará histórias das filmagens de “Nove Rainhas” no documentário “Nove Auras – O Legado de Bielinsky”, dirigido por Mariano Frigerio. A plataforma Disney presenteia o público brasileiro com esse making of póstumo do blockbuster argentino (1,5 milhão de espectadores em seu país natal e 20 prêmios nacionais e internacionais). E, por sorte, oferece “Nove Rainhas”, que também fez sucesso em nosso circuito de arte, e “El Aura”. Este segundo (e último) longa-metragem de Bielinsky passou praticamente batido entre nós. Uma pena, pois também soma muitas e sólidas qualidades. Assistir aos três filmes é reencontrar a obra de um diretor argentino que ajudou a recolocar o cinema de seu país no mapa internacional. E que soube somar roteiro engenhoso, qualidade artística e capacidade de dialogar com o grande público. É verdade que “El Aura” não conseguiu repetir o êxito de “Nove Rainhas”. Mas merece ser revisto e reavaliado. São muitas as suas qualidades. E engenhosa a sua trama. Além do mais, ver Ricardo Darín, seu onipresente protagonista, dar mais um show de composição de personagem. E contracenar com uma jovem que se transformaria numa das estrelas do cinema contemporâneo argentino, Dolores Fonzi (hoje também cineasta, diretora do longa que a Argentina indicou ao Oscar, “Belén”). Quem assistir ao documentário “Nove Auras”, decerto irá divertir-se com a origem do caminhar insinuante da personagem de Letícia Brécia. Espécie de public relation de um hotel de luxo, cenário privilegiado do filme, a irmã do personagem de Darín valoriza seu corpo curvilíneo como muitas (e escondidas) intenções.
RECRIANDO KUROSAWA – “Luta de Classes” (2025, 133 minutos, na Apple TV)
Spike Lee, aos 68 anos, faz mais uma incursão pelo cinema asiático. A primeira — “Oldboy”, realizada em 2013 — não deu muito certo. O inquieto e inventivo diretor de “Faça a Coisa Certa”, do provocador “Bamboozled – A Hora do Show” e do ótimo “O Plano Perfeito” resolveu remexer, dessa vez, numa obra-prima do mestre Akira Kurosawa, “Céu e Inferno” (1963). Aliás baseado em romance norte-americano (“King’s Ransom”, de Ed McBain). Mas de tal forma aclimatado ao Japão do pós-Guerra, que sua matriz policial resulta em mero ponto de partida, uma espécie de esqueleto narrativo. O gênio de Kurosawa ergue obra de antologia. Um filme complexo, que faz de seu título uma metáfora mais que arquitetônica (os que moram em coberturas luxuosas, no alto da pirâmide, e os que vivem em muquifos, nos baixios de uma metrópole asiática). Spike Lee, em “Luta de Classes” (EUA, 2025, 133 minutos), recria, com muitas liberdades, o romance policial e o filme kurasowiano ao colocar empresário musical (Denzel Washington) pronto para assumir o comando de uma gravadora (no original, vemos um fabricante de calçados finos). No justo momento em que deveria fechar o negócio, o dono de “ouvido musical privilegiado” recebe a informação de que seu filho foi sequestrado. E que será obrigado a pagar resgate de valor mais que robusto. Fato inesperado que iria descapitalizá-lo. Logo se saberá que o sequestrado foi o filho de seu fiel e prestativo motorista. O longa de Lee tem admiradores. A quem se dispuser a assisti-lo, um conselho: não reveja “Céu e Inferno” antes da experiência contemporânea. O colorido contagiante do cinema do afro-americano parece excessivo quando comparado ao preto-e-branco profundo e cheio de sombras do original kurasowiano. Tudo no filme do mestre oriental parece infinitamente melhor. Mais denso. Inolvidável.
MEU AVÔ JAPONÊS – “Eu e meu Avô Nihonjin” (2025, 84 minutos, no Prime Video e na Apple TV)
A animação brasileira é fruto de memórias de Célia Catunda, integrante da trupe da TV Pinguim, com grande folha de serviços prestados ao cinema brasileiro. Depois do belo “Tarsilinha” (sobre Tarsila do Amaral em tempos de menina), Catunda resolveu seduzir a garotada com história de grande apelo. Colegas de escola, na faixa dos 10 anos, recebem tarefa da professora: contar a história dos avós. Para tanto, devem conversar com eles, escutar relatos vindos de lembranças distantes. O senhor Hideo, avô de Noboru, o menino-protagonista nipo-brasileiro, é muito ranzinza. E não demonstra nenhuma paciência com o neto, que além de buliçoso, mostra evidente desinteresse pelos costumes tradicionais do Japão. Os primeiros encontros não rendem (quase) nada. Mas aos trancos e barrancos, a história vai se compondo com rememoração da longa viagem de navio, que durou penosos dois meses, o desembarque no Porto de Santos, a viuvez, um novo matrimônio, o trabalho estafante na roça etc. E, principalmente, com a presença misteriosa de um tio do qual o menino nunca ouvira falar. Curioso, ele tentará decifrar o mistério. E aí o filme, com desenhos belíssimos, enfrentará tema-tabu — a participação do Japão na Segunda Guerra Mundial, ao lado do Eixo (com os nazistas de Hitler e os fascistas de Mussolini). Mas o fará com poesia, sensibilidade e sutileza. Respeitando, pois, a idade de sua plateia. O filme foi visto por mais de 30 mil espectadores nos cinemas. Pouco perto dos blockbuster da Disney. Mas, convenhamos, um número respeitável para uma cinematografia autoral e levada ao público com minguados recursos de divulgação.
LOUCURAS QUE FASCINAM O HERDEIRO DE GABO —“As Loucuras” (2025, 121 minutos, na Netflix)
O diretor de fotografia, cineasta e produtor Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez, conseguiu comandar a transformação de “Cem Anos de Solidão”, o romance mais famoso do pai, em série de TV (disponível na Netflix). O fez na condição de produtor. Agora, em parceria com a mesma Netflix, ele apresenta seu novo filme como diretor (o décimo-segundo de sua carreira) – “As Loucuras”. Embora viva nos EUA desde 1987, Rodrigo, de 66 anos, não se desliga do México, nem da Colômbia. Aliás, foi no país de Frida e Diego que ele iniciou sua carreira cinematográfica. Primeiro como diretor de fotografia (inclusive de “Danzón”, de Maria Novaro). Depois de fotografar diversos longas-metragens nos EUA, fez sua estreia na direção com o sensível “Coisas que Você Pode Dizer Só de Olhar para Ela” (2000). Seguiu realizando filmes de orçamento modesto, incluindo “Albert Nobbs” (2011), que rendeu indicação de atriz protagonista a Glenn Close. Parte de seus filmes tem o inglês como idioma. Outros, o espanhol. Caso de “As Loucuras”, que acompanha as vidas entrelaçadas de seis mulheres. Tudo começa com Renata (Cassandra Ciangherotti), que consegue o benefício da prisão domiciliar, após sofrer um colapso mental. Outras cinco mulheres também conviverão com os limites da loucura. Elas são interpretadas por Ilse Salas (Miranda), Adriana Barraza (Irene), Naian González (Penelope) e Monica del Carmen (Rita). Teremos, ainda, mais uma chance de apreciar o talento de um astro do cinema hispano-americano, o chileno Alfredo Castro, ator-fetiche de Ricardo Larraín. Ele faz participação especial e significativa na trama.
NOVOS FILMES DE KELLY REICHARDT – “The Mastermind” (2025, 112 minutos), e “Movimentos Noturnos” (2013, 108 minutos), ambos na MuBi
A cineasta norte-americana, de 61 anos, tornou-se “cult” entre os cinéfilos brasileiros com um filme fascinante – “A Primeira Vaca da América” (2019). Título inesperado. História original banhada em desconcertante delicadeza. Recentemente, dois novos filmes dela nos foram oferecidos – o recente “The Mastermind” (2025) e “Movimentos Noturnos” (2013, portanto, anterior à “Vaca”), ambos disponibilizados pela MuBi. “The Mastermind” se passa no começo da década de 1970, quando os EUA estavam profundamente envolvidos com a Guerra do Vietnã. Mas que ninguém espere um épico. Kelly gosta de histórias pequenas, minimalistas. O protagonista desse filme é um carpinteiro interpretado por Josh O’Connor. Ele vive de bicos. Um dia resolve virar ladrão de quadros. Sem planos mirabolantes, com um quê de amador. E pratica o primeiro furto. Que ninguém espere cenas de ação à la Hollywood. Para este tipo de filme (de assaltos mirabolantes), há toneladas de outras produções disponibilizadas no streaming. O estilo de Kelly Reichardt é contido, discreto. E é por isso que seus admiradores gostam do trabalho dela. Já “Movimentos Noturnos” sustenta-se num trio conhecido dos filmes hollywoodianos – Jesse Eisenberg (Josh), Dakota Fanning (Dena) e Peter Sarsgaard (Harmon). Os três são defensores radicais do meio ambiente. O personagem de Sarsgaard é ex-fuzileiro naval. Juntos planejam o maior protesto de suas vidas: causar a explosão de uma usina hidrelétrica. Cumprida a missão, eles tentam esconder-se em suas atividades costumeiras. Josh regressa à sua fazenda de cultivos orgânicos, Dena vai trabalhar num spa. E Harmon vai cuidar de seus afazeres. Aí, ficamos sabendo que um homem teria morrido no atentado dos radicais ecológicos. E agora? Se der, antes de assistir a estes dois filmes, veja “A Primeira Vaca da América” (MuBi e Prime Video). Este filme tão inesperado constitui-se em excelente introdução no universo da sexagenária Kelly Reichardt.
“MUNCH CERCADO DE FANTASMAS E VAMPIRAS” (2022, 93 minutos, no Sesc Cinema em Casa)
Em 1974, o grande cineasta britânico Peter Watkins (1935-2025), realizou notável e originalíssimo filme sobre o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). Passados 47 anos, a italiana Michelle Mally resolveu fazer um documentário meio fora-do-esquadro sobre o atormentado artista norueguês. E banhado em referências do cinema de horror. O que não constituiu nenhum disparate, já que o grande pintor nórdico viveu existência das mais complicadas e marcadas por mortes, doenças e pesadelos. Além de construída sobre transgressões morais e políticas. Ele se envolveu com anarquistas, gente que praticava o amor livre e fugia das convenções em densas noitadas erótico-etílicas. Em sua busca pelas raízes do artista (e de sua família), a cineasta revista as tragédias que o cercaram na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Embora o mais famoso dos quadros de Munch – “O Grito” (1893) – seja, hoje, parte do repertório pictórico universal, ele não levou vida fácil. Nem como cidadão, nem como artista dos mais inventivos. No terreno amoroso, também passou por maus bocados. O pintor expressionista poderia ter desfrutado da vida burguesa de Kristânia, mas preferiu envolver-se com grupo de artistas e intelectuais anarquistas, tão bem retratado no filme do genial Watkins (quem sabe um dia “Edvard Munk” possa chegar ao cardápio do Sesc Cinema em Casa, este projeto de streaming gratuito que rema contra a corrente?). O filme britânico e o italiano se complementam.
UM CÃO E SUA AMIZADE COM ROBÔ NOVA-IORQUINO – “Meu Amigo Robô” (2023, 103 minutos, na Reserva Imovision)
“Meu Amigo Robô”, do espanhol Pablo Berger, concorreu ao Oscar de melhor longa de animação, dois anos atrás. Não ganhou, mas fez bonito. Conseguiu distribuição internacional e conquistou muitos fãs. Disponível em caprichado DVD, embalado em bela caixa, ele pode ser visto também no streaming da Reserva Cultural-Imovision, a exigente distribuidora do franco-brasileiro Jean-Thomas Bernardini. A grana que financiou “Meu Amigo Robô” é espanhola, mas o filme ergue uma ode a Nova York, cidade onde Berger estudou Cinema e viveu por longos anos. Música, ritmo de vida, personagens e arquitetura prestam tributo à cidade que Woody Allen e Martin Scorsese tanto amam e tanto retratam em seus filmes. A trama baseia-se em quadrinhos de Sara Varon e situa-se na década de 1980. Um cachorro solitário, o Dog, vive em Manhattan. Sua solidão é tão aterradora, que ele resolve comprar um robô. Nasce entre os dois imensa amizade. Um dia vão à praia. O inesperado acontece. Sem diálogos, o filme diz tudo com suas belas imagens. E há de agradar aos mais exigentes. Incluindo adultos. Para crianças pequeninas, ele pode resultar um pouco longo. O filme venceu o Prêmio Europeu de Cinema, na categoria melhor longa de animação.
A AMAZÔNIA FEBRIL DE “PSSICA!” (2025, 4 episódios com média de 50 minutos cada, na Netflix)
A série dos Meirelles (Kiko, o filho, e Fernando, o pai) não constitui novidade no streaming. Muito se escreveu sobre ela, ano passado, quando entrou na programação da Netflix. Por que retomá-la? Por tratar-se de narrativa alucinada, violenta, inquietante, que nos surpreende por estes atributos. Já vimos muitos filmes e séries ambientadas na região amazônica. Mas, “Pssica!” (gíria paraense que significa “maldição” ou “azar persistente”) traz alguns diferenciais. O primeiro é nos revelar as loucas relações do Brasil com um de seus vizinhos, a Guiana Francesa. O segundo é a natureza dos personagens. Gente sem amarras, sem limites, disposta a correr todos os riscos, como se não houvesse amanhã. Kiko Meirelles, que segurou o tranco (com relativa ajuda do pai, diretor de “Cidade de Deus” e da ópera “Os Pescadores de Pérolas” e de seu registro audiovisual), se entusiasmou com o livro “Pssica”, de Edyr Augusto, e resolveu transformá-lo em série de quatro capítulos (média de 50 minutos cada). Acompanhamos a história de três protagonistas – a adolescente Janalice (Domithila Cattete), sequestrada para servir como troféu virginal em bordel frequentado por gente de posse e desejo solto; o assaltante doidaço Preá (Lucas Galvino), que se apaixona por Janalice e não mede esforços para tê-la em seus braços; e Mariangel (Marleyda Soto), colombiana vinda da guerrilha. Detalhe da maior importância: Marleyda Soto tem apenas 49 anos, mas nos encantou (a todos que assistimos à série “Cem Anos de Solidão”) encarnada na matriarca dos Buendía. Graças aos milagres da maquiagem e ao imenso talento da atriz, fomos levados a pensar que ela era uma espécie de “Fernanda Montenegro da Colômbia”. Pela idade, está mais para Fernanda Torres. “Pssica” só é recomendada a quem tem nervos de aço. Afinal, seu cardápio temático envolve tráfico sexual, pirataria fluvial (roubos que resultam em muita adrenalina), corrupção política e empresarial etc. etc. Pauleira pura. O trio de protagonistas joga um bolão com o elenco coadjuvante, que reúne Cláudio Jaborandy, Ricardo Teodoro, Fátima Macedo, Welket Bunguê (ator de Guiné Bissau), Felipe Rocha, David Santos, Ana Luiza Rios, Andrés Castañera, colombiano como Marleyda, e – claro – muitos atores da Amazônia. Kiko e Meirelles não correram atrás de astros. Como em “Cidade de Deus”, a mais ousada experiência de “casting” do cinema brasileiro, resolveram buscar rostos novos. E, na escolha dos mais experientes, apostar em atores das diversas (múltiplas) cores faciais brasileiras.
O BARÃO DE FINO HUMOR – “O Brasil que Não Houve – As Aventuras do Barão de Itararé no Reino de Getúlio Vargas” (2025, 70 minutos, no Canal Curta! e no Prime Video)
O cineasta Renato Terra é, também, humorista. Não desses que fazem stand-up comedy. Mas daqueles que banham seus textos com a tinta da galhofa. Terra realizou esse “documentário comédia” — “O Brasil que Não Houve – As Aventuras do Barão de Itararé no Reino de Getúlio Vargas” — em parceria com Arnaldo Blanco, outro agregado às hostes do humor. E buscaram a ajuda milionária de outro grande humorista, o ator Gregorio Duvivier. Cabe a Duvivier, cultor apaixonado das palavras, da literatura (é formado em Letras), narrar as aventuras do jornalista (e humorista) gaúcho Aparício Torelly (1885-1971), que um dia se autoatribuiu título de fracassada nobreza: Barão de Itararé. Ou seja, recorreu a uma batalha que não houve, nos tempos idos da Guerra do Paraguai. A piada mais famosa do Barão foi impressa num cartazete, afixado à porta do seu escritório, onde editava jornal satírico; ENTRE SEM BATER. Comunista militante (infelizmente, o filme não dá importância à opção política de seu personagem!), o Barão foi preso e levou muita bordoada de seus algozes. Por isso, ele recorreu ao “Entre sem bater”. Queria evitar (nem que fosse no reino das palavras) novos contratempos com a polícia política. Aos dois diretores interessa destacar a verve espirituosa do Barão. E, pretenção maior, traçar quadro dos “tropeços de um Brasil entre a graça e a desgraça”. O documentário diverte e revela, às novas gerações, um personagem singular, talentoso, espirituoso, irreverente. Mas não vai muito longe. Conforma-se em ser um telefilme, sem maiores elaborações estéticas. O próprio Renato já viveu experiência bem mais rica em sua ótima parceria com Ricardo Calil, no obrigatório “Uma Noite em 1967” (2010), sobre um de nossos mais importantes festivais da canção. A louvar, o título do filme: “O Brasil que Não Houve”. Sempre disposto a roçar a língua de Luís de Camões, Duvivier deve ter adorado a flexão do verbo haver (houve, existiu). Até porque, ao ser enunciado (e não lido!), entenderemos “o Brasil que Não Ouve”. Não escuta. Faz ouvido mouco para nossas desafiadoras mazelas.



