Prêmios Goya destacam “Los Domingos”, reduzem “Sirât” a prêmios técnicos e preferem “Belén” ao brasileiro “Manas”

Foto: “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa

Por Maria do Rosário Caetano

O drama espanhol “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa, travou verdadeiro duelo, na Noite dos Prêmios Goya, com o filme espanhol de maior repercussão da temporada, “Sirât”, de Olivier Laxe. O primeiro alcançou grande repercussão em solo da Espanha (venceu a Concha de Ouro, prêmio máximo do Festival de San Sebastián, no País Basco), enquanto o segundo brilhou em Cannes (Prêmio do Júri) e recebeu duas indicações ao Oscar, melhor filme internacional e melhor som).

“Los Domingos” levou a melhor ao converter cinco de suas 13 indicações em troféus, três deles, os mais disputados da noite (melhor filme, direção e atriz protagonista). Para “Sirât” (11 indicações) restaram seis prêmios técnicos. Como acontecera recentemente, na cerimônia berlinense do Prêmio Europeu de Cinema.

Esse resultado já era esperado. E fôra sinalizado com a não-indicação de Sergí Lopes, o protagonista de “Sirât” a melhor ator. Um absurdo inacreditável. Para complicar, este filme, que se constrói como um pesadelo civilizacional, de tons apocalípticos, é muito disruptivo. É incômodo. Do tipo “ame-o ou deixe-o”.

Parte da crítica e do público rejeitou “Sirât”. Coproduzido pelos irmãos Agustin e Pedro Almodóvar, da El Deseo, ele foi visto por 450 mil espectadores no mercado espanhol (contra 600 mil de “Los Domingos”). Este longa se apresentou como uma produção independente e de alma feminina. Em contrapartida, “Sirât” seria visto como uma superprodução rodada em desertos da África magrebiana e de “essência masculina”.

E, afinal de contas, o que vem fazendo de “Los Domingos” esse fenômeno em seu país de origem?

Antes de responder a essa indagação, vale destacar trechos de artigo (“El ‘Milagro’ del Cine Español”) da escritora Berna González Harbour, publicado no jornal madrilenho El País (no dia da entrega dos Goya). Diz a articulista: “Essa ‘desrazão’ (do mundo) se apresenta nesse ‘momento milagre’ do cinema espanhol. Há novas coisas para contar e (elas) estão sendo contadas extraordinariamente, muitas delas por mulheres”. Nesse “dia dos Goya, podemos recapitular e darmos conta de que, nessa temporada, não há um, nem dois, e sim uma larga lista de filmes inteligentes, duros e originais que não contam o de sempre”. E quando “contam o de sempre, o fazem de outra maneira”.

A escritora, laureada como o Prêmio Dashiell Hammett de romance noir, passa, então, a analisar alguns dos filmes em competição (menos “Sirât”, que afirma “não ter visto”): “Los Domingos é muitas coisas. E uma delas, a se destacar, é sua capacidade de conectar com o desassossego de muitos jovens em um mundo de ruídos e manipulação quando os adultos não ajudam”. A romancista prossegue com sintéticas opiniões sobre “Surda” e “Romeria”, de Carla Simón, elogia o protagonista homoafetivo de “Maspalomas” e o filme “Tigres”, sobre mergulhadores de Huelva.

A Revista de CINEMA assistiu à maioria dos filmes premiados pelo Goya número 40: “Los Domingos”, “Sirât”, “Surda”, “Maspalomas”, o belíssimo documentário “Tardes de Soledad” (este no Olhar de Cinema), o poderoso “Cidade sem Sonhos” (na Mostra Internacional de São Paulo), “O Cativo Cervantes”, disponível na Netflix, o norueguês “Valor Sentimental” (melhor filme europeu”) e o argentino “Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (melhor longa ibero-americano), disponível no Prime Video.

“Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi

O filme da festejada atriz portenha, a bela Dolores Fonzi, derrotou o pernambucano “Manas”, de Marianna Brennand. O que nos leva a perguntar: se a Academia Brasileira tivesse escolhido “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, nossas chances seriam maiores? Ano passado, o Goya elegeu “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, na mesma categoria ibero-americana.

Esta pergunta nos leva a mais uma digressão-constatação, antes de regressar ao duelo entre “Los Domingos” e “Sirât”: os espanhóis estão aborrecidos com os brasileiros. Em especial com a turma que, nas redes sociais, ajudou a destruir a carreira, que se anunciava gloriosa, da atriz espanhola Karla Sofía Gascón, protagonista de “Emilia Perez”. A declaração de Oliver Laxe de que “brasileiro é nacionalista e vota até em um sapato, se este for indicado a prêmio” aconteceu num programa humorístico. E depois ele se desculpou. Mas traz um fundo de verdade. Importantes colunistas cinematográficos do El País costumam lamentar o que se passou com Karla Sofía. Daí, deduzimos, não se verificou grande interesse pelo brasileiro “Manas”. O drama rodado na Ilha do Marajó foi colocado em posição distante nas avaliações prévias da disputa do Goya. À frente dele estavam “Belén”, sempre favorito, o colombiano “Un Poeta” e o chileno “O Olhar Misterioso do Flamingo”.

É chegada, pois, a hora de avaliar o triunfo de “Los Domingos”, filme – repito – que, por enquanto, constitui-se como “fenômeno espanhol”, ao contrário de “Sirât” e de “Tardes de Soledad”, de Albert Serra, fenômenos internacionais. Este último encapou a revista Cahiers du Cinéma e se fez acompanhar de oito sólidas páginas internas (e consagradoras). Um documentário polêmico, por mostrar o embate sangrento de um toureiro (o belo Andrés Roca Rey) com diversos touros. Homem e feras sangram na tela. Daí o milagre do filme ter sido eleito o melhor longa documental do Goya, quando o favorito parecia ser “Flores para Antônio”. Sinal de que, apesar da condenação contemporânea às touradas, no fundo da alma castelhana, elas (ainda) são vistas como patrimônio nacional. E não há como negar a ousadia estética de Albert Serra, que fez um filme sensorial e de beleza arrebatadora.

“Los Domingos”, ambientado no País Basco, conta a história de Ainara, uma adolescente (a estreante Blanca Soroa), que deseja entrar para um convento, daqueles que enclausuram noviças e monjas. O clima familiar se altera, pois sua tia, Maite (Goya de melhor atriz para Patricia López Arnais) é ateia e não entende a opção (e disposição à renúncia) da sobrinha. Com quem mantém relação bem próxima, já que o pai da jovem, viúvo, está mais interessado nos negócios e na nova namorada.

O conflito vai se impor quando Ainara, depois de passar por retiro espiritual que a aproxima de carismática madre superiora, revela sua intenção de tornar-se monja. A tia, gestora cultural e mulher progressista, tenta convencer a sobrinha a viver novas experiências antes do enclausuramento. Pede que ela reflita bastante sobre sua inesperada vocação religiosa.

A trama é complexa e bem desenvolvida. O filme causou sensação na Espanha, país católico, de devoção acentuada. O crítico Gregório Belinchón (do El País), lembrou que “Los Domingos” transformou-se, realmente, num “fenômeno espanhol, capaz de transcender as telas cinematográficas”, pois chegou “às conversas de bar, aos encontros familiares e, até, às portas de igrejas”.

Alauda Ruiz de Azúa, cineasta basca de 47 anos, fez questão de lembrar que realizou “um filme inclusivo, adulto e reflexivo”. Está certa. Porém, há que se ponderar, o filme basco não tem a potência do franco-galego “Sirât”. Este conseguiu colocar o cinema espanhol no centro de polêmica viva e mobilizadora, em vários cantos do mundo. Um longa-metragem em fina sintonia com seu tempo histórico (o que “Los Domingos” também consegue, mas em menor medida e com menor risco).

Os acadêmicos da Espanha optaram por um filme independente, que levou 600 mil espectadores aos cinemas e mobilizou equipe majoritariamente feminina. Ao agradecer o Goya de melhor diretora, Alauda fez questão de lembrar que, em 40 anos de história, a Academia só atribuíra tal láurea a três outras cineastas (Isabel Coixet, por duas vezes, Pilar Miró e Icíar Bollain). Placar de 35 a 5.

O galã Oliver Laxe, de 43 anos, com seus belos e longos cabelos, vestido como um dândi (vistoso terno de veludo vinho), deve causar certa espécie entre seus pares. Afinal, embora tenha origem galega, ele vive na França. Com os poderosos Irmãos Almodóvar na retaguarda, parece estar cacifado para vôos bem mais ambiciosos (tanto que cravou duas indicações no Oscar). E, detalhe de grande relevância, Laxe mobiliou equipe majoritariamente masculina. Ou seja, “Sirât” não estaria em sintonia fina com o momento atual da Academia.

Gregório Belinchon, do El País, definiu a cerimônia do Goya como “feminina e feminista”. E recorreu aos números para constatar que foram premiados 22 profissionais, sendo onze nomes femininos (portanto, deu empate, onze a onze, caso raro).

Sensação mesmo, na trupe sirâtiana, causou a trinca de mulheres que assina o som do filme e concorre (por total merecimento) ao Oscar. Las “chicas” Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas empalmaram o “Goya sonoro” e aparecem unidas em seguidas fotos no mesmo e influente El País madrilenho.

Os três prêmios atribuídos a “Surda” foram merecidos. Um deles – atriz revelação, para Miriam Garlo – deu o destaque devido ao talento da jovem estreante, que nasceu com deficiência auditiva.

O terceiro filme mais premiado da Noite dos Goya trata do relacionamento entre Angela, que não ouve, e seu companheiro Hector, que ouve. Quando ela engravida, a tensão começa: a criança nascerá surda? Quando a bebê nasce, a situação se torna ainda mais tensa. “Surda” abordará essa tensão com sobriedade e delicadeza. E sem nenhum paternalismo. Ou melhor, “maternalismo”, já que o longa foi dirigido por Eva Libertad, irmã da atriz-protagonista. Eva, aliás, fez jus ao Goya de melhor diretora estreante.

Outro prêmio notável foi o atribuído a Antonio “Toni” Fernández Gabarre (ator revelação), adolescente de origem cigana, que protagoniza o drama social “Ciudad sin Sueño”. Um filme sobre moradores pobres da favela de Cañada Real, plantada nos arredores de Madri. Seu diretor, Guilermo Galoe, construiu sua narrativa com duro realismo. Daqueles capazes de tocar fundo o coração de, por exemplo, Ken Loach.

O jovem cigano vive com sua família de catadores de sucata, adora o avô e não se separa de seu cão. Porém, as ordens de demolicão das precárias moradias de Cañada Real chegam sem que haja alternativa à vista. O avô de Toni insiste em permanecer ali. O garoto terá que decidir que rumo tomará.

Um comentário digno de registro: os acadêmicos espanhóis parecem mesmo avessos ao cinema da realizadora catalã Carla Simón. Ela concorreu, poucos anos atrás, a uma dezena de categorias com o arrebatador “Alcarràs”, vencedor do Urso de Ouro em Berlim. Saiu da cerimônia dos Goya de mãos abanando. Agora, com “Romería” disputou seis troféus. De novo, saiu com mãos abanando.

E, uma pergunta derradeira: a eleição de “Valor Sentimental” como melhor filme europeu significa que os votantes espanhóis do Goya estão fechados com o filme norueguês?

Em parte, sim. Mas não de todo, já que temos que levar em conta que “O Agente Secreto” não foi escolhido para representar o Brasil na competição.

Outro detalhe a se notar: mais uma vez, o iraniano (que concorreu sob bandeira francesa) “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, acabou ignorado. Isto, no trágico dia em que Donald Trump e Netanyahu, que se arvoram o papel de “polícia do mundo”, mataram mais de 200 iranianos (incluindo o Aiatolá Ali Khamenei, seus familiares e dezenas e dezenas de crianças) e deixaram 747 feridos (em quatro províncias do país persa). Uma tragédia imperialista.

Confira os vencedores do Goya:

. “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa (13 indicações, 5 troféus) – melhor filme, direção, roteiro original (Alauda Ruiz de Azúa), atriz protagonista (Patricia López Arnaiz) e atriz coadjuvante (Nagore Aramburu)
. “Sirât”, de Oliver Laxe (11 indicações, seis troféus) – melhor fotografia (Mauro Herce), montagem (Cristóbal Fernandez), música original (Kangding Ray), som (Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas), direção de arte (Laia Ateca Font) e direção de produção (Oriol Maymó)
. “Sorda” (Surda), de Eva Libertad (6 indicações, 3 prêmios) – melhor diretora estreante, ator coadjuvante (Álvaro Cervantes) e atriz revelação (Miriam Garlo)
. “Tardes de Soledad” (Tardes de Solidão), de Albert Serra – melhor longa documental
. “Decorado”, de Alberto Vázquez – melhor longa de animação
. “Valor Sentimental”, de Joaquim Trier (Noruega) – melhor filme europeu
. “Belén: Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (Argentina) – melhor filme ibero-americano
. “Maspalomas”, de José Mari Goenaga e Aitor Arregi (9 indicações, um prêmio) – melhor ator protagonista para José Ramón Soroiz
. “La Cena”, de Manuel Gómez Pereira (8 indicações, 2 prêmios) – melhor roteiro adaptado (Joaquín Oristrell, Manuel Gómez Pereira e Yolanda García) e melhor figurino (Helena Sanchis)
. “Cidade sem Sonhos”, de Guillermo Galoe – ator revelação (Antonio “Toni” Fernández Gabarre)
. “Flores para Antônio”, de Isaki Lacuesta e Elena Molina – melhor canção original (“Flores para Antonio”, de Alba Flores e Sílvia Pérez Cruz)
. “O Cativo”, de Alejandro Amenábar – mellhor maquiagem-penteado (Ana López-Puigcerver, Belén López-Puigcerver e Nacho Díaz)
. “Los Tigres” – Efeitos especiais (Paula Gallifa Rubia e Ana Rubio)

Melhores curtas-metragens

. “Angulo Muerto” (ficção)
. “Gilbert” (animação)
. “El Santo” (documentário)

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