Curso online promovido pelo CineSesc debate a estética da violência e das periferias no cinema nacional

O cinema brasileiro sempre teve um pacto complexo com a realidade das ruas. Da poética do Cinema Novo dos anos 1960 e 1970, ao retratar a realidade social do Brasil como metáfora, à crueza da Retomada nos anos 1990 e 2000, que passou a utilizar técnicas de documentário e narrativa ágil, o eixo pobreza, violência e crime deixou de ser apenas um tema para se tornar elemento estético importante. Para entender como essa “matéria-prima” é representada nas telas, o antropólogo e pesquisador Leandro Oliveira (USP) ministra o curso online “O Real Como Dispositivo – Pobreza, Violência e Crime no Cinema Brasileiro”.

A formação, voltada para estudantes e professores de audiovisual, ciências sociais e cinéfilos em geral, propõe um mergulho na forma como o cinema produz “efeitos de verdade”. O curso questiona: como a câmera explora o limite entre o que é registro documental e o que é encenação para criar um diagnóstico social do Brasil?

A jornada de 8 horas de carga horária é dividida em quatro encontros que funcionam como uma genealogia da nossa imagem urbana. Em Genealogias do Caos, o ponto de partida resgata clássicos como “Rio 40 Graus” e “Assalto ao Trem Pagador”, analisando a gênese urbana da periferia no imaginário nacional antes mesmo da redemocratização. A Virada da Retomada foca quando o “crime” se torna o operador central para explicar a democracia brasileira, analisando o impacto de obras como “Notícias de uma Guerra Particular” e o icônico videoclipe “Diário de um Detento”, dos Racionais MC’s.

O fenômeno “Cidade de Deus” e a sensibilidade de “Linha de Passe” entram em pauta para discutir o uso de atores não profissionais, o ritmo da montagem e a ascensão do evangelicalismo como atmosfera social nas telas, na aula O Realismo Performativo. O encerramento Estado de Exceção aborda a “curadoria da violência” pelo Estado, confrontando o sucesso de público de “Tropa de Elite” com a inventividade política de “Branco Sai, Preto Fica”.

Mais do que uma análise de roteiros, a proposta é uma leitura do debate público sobre crime e periferia, além das perspectivas jurídica e midiática. O curso examina a forma como a violência é representada no cinema brasileiro para estimular reflexão crítica sobre essa roupagem de “verdade” que se repete nas telas, quando se fala de periferia, marginalidade, pobreza e violência.

Leandro Oliveira é antropólogo, com trânsito entre música, poesia e cinema. Autor de “Real e de Viés” (2013) e com passagem pelo Conservatório de Tatuí, foi Professor Visitante no Programa de Antropologia da Unicamp (2023), e atualmente realiza pós-doutorado em Antropologia na USP e integra o GRAVI/FFLCH, onde pesquisa as interseções entre cinema e etnografia, com ênfase na obra de Eduardo Coutinho.

As inscrições para o curso podem ser realizadas via aplicativo credencial Sesc SP. O curso é gratuito e as vagas são limitadas.

A programação completa e demais informações podem ser conferidas em sescsp.org.br/cinesesc.

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