Orlando Senna é homenageado em mostra que reúne filmes, exposição e bate-papos

A mostra Orlando Senna – Cinema, Brasil e América Latina, dedicada à obra do cineasta, roteirista, escritor e jornalista, será realizada de 21 de abril a 10 de maio, na Caixa Cultural Rio de Janeiro, reunindo exibição de filmes, exposição, bate-papos e a edição de um catálogo digital. A iniciativa propõe revisitar o legado deste realizador do audiovisual brasileiro, cuja vida ultrapassa oito décadas de grandes contribuições à cultura nacional, à educação e à gestão pública.

Nascido no interior da Bahia, em Afrânio Peixoto, distrito de Lençóis, na Chapada Diamantina, em 1940, Orlando Senna construiu uma trajetória marcante no cinema, na literatura, no jornalismo, na formação de novas gerações de realizadores e na execução de políticas públicas para o audiovisual. Sua atuação atravessou diferentes áreas da cultura, consolidando-o como uma figura central do audiovisual brasileiro e latino-americano.

Como diretor e roteirista, Senna participou da criação de obras fundamentais do cinema brasileiro, entre elas “Iracema – Uma Transa Amazônica”, “Diamante Bruto”, “Brascuba”, “Gitirana”, “Idade da Água”, “Sol da Bahia” e “Longe do Paraíso”. Também assinou roteiros para cinema e televisão, como “O Rei da Noite”, primeiro longa de Hector Babenco, “Coronel Delmiro Gouveia”, de Geraldo Sarno, “Ópera do Malandro”, de Ruy Guerra, “Abrigo Nuclear”, de Roberto Pires, “Sabor a Mi”, de Wolney Oliveira, e “O Lado Certo da Vida Errada”, de Octávio Bezerra, entre outros.

Seus filmes foram exibidos e premiados em alguns dos mais importantes festivais internacionais de cinema, incluindo Cannes, Taormina, Pésaro, Havana, Brasília e Rio de Janeiro. Pelo caráter inovador de “Iracema – Uma Transa Amazônica”, codirigido por Jorge Bodanzky, recebeu distinções como o Prix Georges Sadoul, na França, e o Grimme Prize, na Alemanha.

Além do cinema, Orlando Senna também desenvolveu uma sólida produção literária. É autor de livros como “Xana – Violência Internacional na Ocupação da Amazônia” (1979), “Ares Nunca Antes Navegados” (1984), “Máquinas Eróticas” (1985), “Um Gosto de Eternidade” (2006) e “Os Lençóis e os Sonhos” (2009). Sua atuação artística também se estendeu ao teatro, com a direção de cerca de trinta espetáculos na Bahia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, com destaque para montagens ligadas ao Teatro de Cordel.

Ao longo de sua trajetória institucional, Senna também ocupou posições estratégicas no desenvolvimento do audiovisual latino-americano. Foi diretor da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños (EICTV), em Cuba — instituição da qual é um dos fundadores ao lado de Gabriel García Márquez e Fernando Birri –, e Diretor do Centro de Dramaturgia do Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza. Orlando foi também Secretário Nacional do Audiovisual e criador e diretor geral da TV Brasil, na gestão Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Foi presidente da TAL – Televisión América Latina, diretor de programação do canal CineBrasilTV, além de integrar o conselho da Fundación del Nuevo Cine Latinoamericano e da Spcine.

Filmagem de “Iracema – Uma Transa Amazônica”

Na virada dos anos 1950 para os 1960, o Brasil e, especialmente a Bahia, viveu uma intensa efervescência cultural. É nesse ambiente de invenção e liberdade criativa que Orlando Senna se integra a uma geração extraordinária de artistas e intelectuais. Entre amigos e contemporâneos estavam nomes decisivos da cultura brasileira, como Glauber Rocha, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Pitanga, entre outros protagonistas de uma revolução cultural que ajudou a redefinir os caminhos do cinema, da música, da literatura e do pensamento no Brasil.

Orlando acompanhou de perto o surgimento do Cinema Novo, um dos movimentos mais importantes da história do cinema latino-americano. Cinema feito com poucos recursos, mas com grande força política e estética.

A atuação de Orlando Senna, antes mesmo de dirigir filmes, como jornalista e crítico, escrevendo sobre cinema, política e cultura, influenciou profundamente sua maneira de pensar o audiovisual. E, mais do que cineasta, ele ajudou a formar diversas gerações de profissionais do audiovisual brasileiro e latino-americano nas experiências inovadoras da EICTV, em Cuba, e do Instituto Dragão do Mar, no Ceará. Por 20 anos, ministrou a Oficina de Roteiro Orlando Senna na sua cidade natal de Lençóis, na Bahia, formando mais de 200 alunos.

Seu filme de maior repercussão internacional, “Iracema – Uma Transa Amazônica” (1975), foi proibido pela ditadura militar brasileira. A obra mistura ficção e documentário para retratar a realidade da Amazônia durante a construção da rodovia Transamazônica. Por mostrar exploração social, prostituição, devastação ambiental e contradições do chamado “milagre econômico”, o filme foi considerado incômodo para o regime militar e acabou sendo censurado no Brasil por vários anos. Muitas cenas foram filmadas de forma quase documental, com personagens reais e situações espontâneas nas estradas da Amazônia, algo bastante inovador para a época. Apesar da proibição, a obra circulou no exterior e recebeu grande reconhecimento em festivais internacionais, tornando-se um clássico do cinema político latino-americano.

Orlando e Conceição Senna

A mostra Orlando Senna – Cinema, Brasil e América Latina vai estender uma homenagem à sua eterna companheira, Conceição Senna, falecida em 2020, com quem realizou muitas criações. Conceição, sua parceira de vida, além de ter atuado nas obras de Orlando, teve carreira solo como atriz, tendo trabalhado em mais de 20 filmes, com destaque para “Abrigo Nuclear”, de Roberto Pires, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha, e “Iracema – Uma Transa Amazônica”, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz coadjuvante no Festival de Cinema de Brasília, além de ter atuado como documentarista realizando os filmes “Anjos de Ipanema”, “Brilhante” e “Memória do Sangue”, que serão exibidos na programação da mostra.

A retrospectiva cinematográfica de Orlando inclui também longas-metragens de direção própria e de outros cineastas a partir de seus roteiros, entre ficções, documentários e o curta-metragem “Cinema Novo”, que realizou a partir de uma entrevista com Glauber Rocha, abarcando ainda filmes produzidos pelo ICAIC, dirigidos em parceria com o mestre do documentário cubano Santiago Alvarez.

Em todos os sábados da mostra, após a sessão de 15h, haverá bate-papos com convidados, amigos e convivas de Orlando, que trarão aspectos destacados de seu legado para a cultura brasileira. A programação inclui ainda uma exposição afetiva sobre a trajetória de Orlando e Conceição, com muitas fotos de diferentes épocas, materiais iconográficos, a máquina de escrever que acompanhou Orlando por muitos anos, além de uma instalação audiovisual interativa. Seus livros também estarão disponíveis para conhecimento e leitura durante o evento.

A partir do dia da abertura do evento, estará disponível, no site da Caixa Cultural, o catálogo virtual, com textos inéditos, materiais sobre os filmes e sobre a vida e legado de Senna, com acesso gratuito ao público.

A idealização e produção da mostra são da cineasta Diana Iliescu, que assina também a curadoria ao lado de Sol Moraes, que produziu o filme mais recente de Orlando, “Longe do Paraíso”, e prepara o próximo, “Nós por Exemplo”, sobre o mítico show realizado em 1962, em Salvador.

A programação completa da mostra pode ser conferida em www.caixacultural.gov.br.

 

Mostra Orlando Senna – Cinema, Brasil e América Latina
Data: 21 de abril a 10 de maio
Local: Caixa Cultural RJ – Unidade Passeio – Rua do Passeio, 38, Centro, Rio de Janeiro/RJ
Ingressos: gratuitos, com retirada de ingressos na bilheteria do cinema 30 minutos antes de cada sessão
Horários da bilheteria: terça a sábado, 13h às 19h, e domingos e feriados, 13h às 18h

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