“Eclipse”, de Djin Sganzerla, reflete sobre comportamentos tóxicos e revela o espaço sombrio da deep web
Por Maria do Rosário Caetano
As primeiras imagens de “Eclipse”, segundo longa-metragem de Djin Sganzerla – estreia dessa quinta-feira, 7 de maio – são de imensa beleza. Elas somam registros de animais, em especial uma onça pintada, à imensidão do cosmos, fonte de estudo da astrônoma Cleo. A cineasta, atriz com longa carreira no cinema e no teatro, protagoniza a narrativa.
Seremos, depois das arrebatadoras imagens assinadas pelo documentarista Lawrence Wahba, introduzidos na vida cotidiana de Cleo. Seu dia-a-dia será impresso em imagens igualmente belas e captadas pelo diretor de fotografia André Guerreiro Lopes.
Cleo, que encontra-se em estágio de gravidez avançada, continuará trabalhando em casa, cercada de atenções e carinhos do marido, Tony (Sérgio Guizé).
A calmaria, que saberemos aparente, será abalada após contato com sua meia-irmã, Nalu (Lian Gaia), de origem indígena. A jovem contará à astrônoma que o pai (de ambas) a assediara de maneira brutal e por vários anos. Cleo será tomada pela dor, pois guardava do pai imagem imaculada.
Atenta à questão do assédio, a cientista acabará por descobrir que o marido anda frequentando a deep web. Contará para tanto com a ajuda digital da irmã. Até que os atos de Tony ganhem concretude, o filme se apresentará como narrativa íntimo-doméstica de grande força. E Djin protagonizará, com Guizé, uma das mais belas cenas de sexo do cinema contemporâneo brasileiro.
A fotografia de Guerreiro resulta calorosa e de cores fortes. Chega a lembrar, em alguns momentos, a iconografia imagética de Siron Franco, artista goiano que ele conhece muito bem. Afinal, dedicou ao pintor um substantivo longa documental (“Siron – Tempo sobre Tela”, 2021, parceria com Rodrigo Campos).
Muitos assuntos irão se somar à trama de “Eclipse” e o filme mudará de rumo. Deixará a história íntima, contaminada pela perturbadora confissão da irmã, e passará a dialogar com o suspense.
Cleo decide mergulhar fundo na vida obscura do marido. E tomar providências concretas. Deixa o conforto do lar e dirige-se à zona rural, até chegar próximo a casarão onde diversos homens se “divertem” com uma adolescente embriagada. Entre eles está Tony. Cleo pedirá, então, ajuda à polícia.
Essa opção de “Eclipse” pelo suspense não resulta tão bem resolvida quanto a parte intimista que lhe servira de prólogo. O roteiro torna-se mais explicativo do que deveria. Mas, registre-se, Djin Sganzerla, seu elenco e seus colaboradores técnico-artísticos continuam apostando na delicadeza. E a cineasta-roteirista continuará evitando diálogos retóricos. A fotografia de Guerreiro seguirá magnetizante.
O elenco de apoio, formado por estrelas cult como Helena Ignez, Luis Melo, Gilda Nomacce e Julia Katharine, brilha em suas breves participações. Clarisse Abujamra, no difícil papel da mãe doente de Tony, mostra-se convincente. Mesmo caso de Pedro Goifman, filho de um fazendeiro, vocacionados ambos a comportamentos abusivos.
Um registro deve ser feito, mesmo que o roteiro tenha sido engendrado com a melhor das intenções. Todos os personagens masculinos são tóxicos. Dos mais velhos (o fazendeiro interpretado por Luis Melo), passando por Tony, de meia-idade, e chegando ao jovem interpretado por Goifman. No dia dos festejos de seus 18 anos, o rapaz resolve presentear-se com o “direito” de possuir à força o corpo de Nalu.
Djin, que em seu primeiro filme (“Mulher Oceano”) navegara pela feminilidade das águas, segue em seu propósito de construir narrativas protagonizadas por mulheres. Ela lembra que a gênese de “Eclipse” surgiu de fato real: “uma esposa teria descoberto que o próprio marido a difamava e ameaçava de morte em fórum na internet”.
A atriz-cineasta imaginou, a partir de tal acontecimento, estruturar sua narrativa no encontro de astrônoma grávida e sua meia-irmã. Um encontro que destravaria “memórias reprimidas e exporia camadas ocultas de relações abusivas, no passado e no presente”. Desejou, também, a partir do choque entre ciência e ancestralidade, empreender “jornada marcada por intuição, investigação e transformação”.
Revelar camadas sombrias da deep web é proposta da maior relevância. Djin Sganzerla e “Eclipse” dão significativa contribuição ao tema. O filme merece ser visto, pois são inegáveis suas qualidades. Mesmo que seus múltiplos plots pareçam abrangentes demais para uma única empreitada artístico-cinematográfica.
Eclipse
Brasil, 2026, 108 minutos
Direção e produção: Djin Sganzerla
Elenco: Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez, Luís Melo, Clarisse Abujamra, Gilda Nomacce, Pedro Goifman e Julia Katharine
Roteiro: Djin Sganzerla e Vana Medeiros, com colaboração de Aleksei Abib e Marcos Azua
Fotografia: André Guerreiro Lopes
Direção de arte e figurino: João Marcos de Almeida
Montagem: Karen Akerman e Karen Black
Som: George Saldanha
Trilha sonora: Gregory Slivar
Produção: Mercúrio
Distribuição: André Sturm (Pandora)
Estreia: São Paulo, Rio, Vitória, João Pessoa, Ribeirão Preto, Florianópolis, Maceió, Curitiba, Porto Alegre e Brasília. Pré-estreias em Belo Horizonte, Salvador e Caxias do Sul
FILMOGRAFIA
Como diretora:
2026 – “Eclipse” (longa)
2020 – “Mulher Oceano” (longa)
Como atriz (destaques):
2007 – “Falsa Loura”, de Carlos Reichenbach
2007 – “Meu Nome é Dindi”, de Bruno Sáfadi
2020 – “Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha”, de Helena Ignez e Ícaro Martins
2016 – “Ralé”, de Helena Ignez
2018 – “A Moça do Calendário”, de Helena Ignez
2020 – “Mulher Oceano”, de Djin Sganzerla
2023 – “Capitu e o Capítulo”, de Julio Bressane
2026 – “Eclipse”, de Djin Sganzerla

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Que crítica sensacional e necessária para os tempos atuais, Maria! Fiquei muito tocada pela descrição da protagonista Cleo, pois enfrentar uma gestação avançada enquanto se lida com revelações tão sombrias exige um esforço emocional que só quem vive a maternidade real e exaustão consegue mensurar. É fascinante como o filme usa a ciência e o suspense para falar de intuição feminina, algo que acaba sendo essencial para o nosso resgate da autoestima materna quando precisamos proteger nosso espaço e nossa sanidade. Parabéns pelo texto que nos faz querer mergulhar nessa obra da Djin!