“Oscar italiano” esnoba Sorrentino, consagra o drama etílico “A Última Rodada” e documentário sobre Roberto Rossellini
Foto: “A Última Rodada”, de Francesco Sossai
Por Maria do Rosário Caetano
O Prêmio David di Donatello, o “Oscar italiano”, esnobou, pelo segundo ano consecutivo, um filme do badalado Paolo Sorrentino (“A Graça”), para consagrar “A Última Rodada”, drama etílico de baixo orçamento, capaz de converter em troféus oito de suas 16 indicações. Incluindo as principais categorias (melhor filme, direção, ator, roteiro e fotografia).
Sorrentino, que disputava 14 categorias, incluindo melhor filme e melhor intérprete (para seu ator-fetiche Toni Servillo), saiu de mãos abanando. Como no ano passado (com “Parthenope – Os Amores de Nápoles”, 16 indicações).
Injustiça? De forma alguma. “A Última Rodada”, nome brasileiro de “Le Città di Piannura” (A Cidade da Planície), segundo longa de Francesco Sossai, é uma pequena joia, um filme realista, temperado com intervenções onirivo-surrealistas.
A Revista de CINEMA, que assistiu aos principais concorrentes aos David di Donatello, registrou em matéria publicada em 28/04/2026: “Para triunfar, ‘A Graça’, de Sorrentino, terá que derrotar o detentor do maior número de indicações, ‘A Última Rodada’, não por concorrer a duas estatuetas a mais, mas sim por “sua estranha originalidade e por injetar sangue novo no cinema italiano”.
O longa de Sossai, registramos, “lembra, em certa medida, um clássico do cinema italiano – ‘Il Sorpasso’ (‘Aquele que Sabe Viver’, Dino Risi, 1962). Neste filme, um bon-vivant (Vittorio Gassman) sai, pelas estradas italianas, na companhia de um jovem inexperiente (Jean-Louis Tritgnant), em busca dos prazeres da vida. Em ‘La Città di Pianura’, vemos dois estróinas, calibrados por infinitas doses etílicas e em buca, sem trégua, da ‘última rodada’. Acabarão envolvendo um jovem recém-formado em Arquitetura na louca peregrinação de bar em bar. Ou de qualquer festa onde encontrem algum tipo de bebida. Desde que contenha boa dosagem de álcool. Os dois ‘bebuns’ – interpretados brilhantemente por Pierpaolo Capovilla e Sergio Romano – são candidatos a melhor ator. Terão, porém, que derrotar o detentor da Copa Volpi Toni “Il Divo” Servillo”.
Nessa edição, a de número 71 (o David é o terceiro prêmio mais antigo do Ocidente), os integrantes da Academia Italiana de Cinema resolveram apostar no novo, no risco, no baixo orçamento. Daí a consagração de “A Última Rodada”. No influente diário Corriere della Sera, o repórter Valerio Cappelli abriu seu balanco da premiação com uma pergunta “Sossai quem?” E explicou a razão de sua indagação:
“No David di Donatello, o outsider Francesco Sossai foi o grande vencedor: 8 prêmios”. Prosseguiu esclarecendo que o jovem veneziano de 37 anos, aquele que deixara Sorrentino e Luca Guadanigno (com “Queer”) de mãos vazias, “chamou atenção com curtas e obras de baixo orçamento (situadas) entre o realismo e a ironia surreal”. E destacou trecho do discurso de agradecimento do ‘outsider’:
“O cinema é o espelho do país. Seria triste abrir mão dele. Obrigado à minha esposa, que pagou o aluguel enquanto eu escrevia o filme. Foram dez anos de luta para realizá-lo”. E Valerio Cappelli resumiu a trama laureada: “dois falidos obcecados em beber o último copo no interior rural do Vêneto (o fazem) entre a crise de 2008 e a perda de identidade.
A cerimonia dos David di Donatello aconteceu no Teatro 23, da Cinecittà, e foi marcada por protestos contra “todas as guerras” e por rebelião laboral dos técnicos, postados no sereno (portanto fora do ambiente glamouroso) com cartazes e palavras de ordem, todos preocupados com as dificuldades de encontrar novas oportunidades de trabalho e boa remuneração.
A atriz Matilda De Angelis, de “Fuori” (“Fora” ou “À Margem”), que conquistou o único prêmio atribuído ao filme de Mario Martone (melhor intérprete coadjuvante), demonstrou solidariedade aos trabalhadores do cinema, fazendo eco ao que se passava “lá fora”.
“A categoria está humilhada” – bradou –, “a Itália está culturalmente empobrecida. Não entendo por que a cultura não está no centro do país. Temos a responsabilidade de fazer o cinema voltar a ser transparente, político e social”. Um detalhe: em “Fuori”, Matilda interpreta uma das amigas de Goliarda Sapienza, escritora marginal, que viveu encarcerada e relatou suas vivências em “L’Università di Rebibbia”, livro publicado em 1983.
Lino Musella, melhor ator coadjuvante por “Nonostante”, filme detentor de rarefeitas indicações, proferiu, com síntese e potência, o mais contundente dos brados antibélicos: “O cinema é uma ameaça para os autocratas. Dedico o prêmio à Flotilha. Palestina Livre!”. Registre-se que o ativista brasileiro Thiago Ávila está encarcerado em Israel, já que a embarcação que o tinha como passageiro e levava ajuda humanitária a Gaza, foi interceptada (por forças israelenses) em águas internacionais”.

O Brasil disputava duas indicações na cerimônia dos David di Donatello. Uma, a de melhor filme internacional (com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles). O vencedor foi “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson.
A outra, de melhor canção, com “Vaster than Empires”, composta por Trent Reznor e Articus Ross e interpretada por Caetano Veloso. A vencedora foi “Ti”, de Krano, da trilha de “A Última Rodada”.
No terreno do longa documental, o David coube ao obrigatório “Rossellini – Mais que Uma Vida”, maravilha que os brasileiros poderão assistir no streaming (Belas Artes à la Carte). O filme, dirigido por quatro jovens pensinsulares, mostra momento crucial na vida do criador de “Roma, Cidade Aberta”. Rossellini estava se separando de Ingrid Bergman (deusa sueca que por ele se apaixonara e o disputara com a vulcânica Anna Magnani). Mas, ainda casado com a diva hollywoodiana, ele resolveu filmar um longa documental na Índia. E lá se apaixonou pela atriz Sonali Senroy Das Gupta, também casada. A imprensa italiana enlouqueceu com o furdunço amoroso intercontinental. O filme conta essa história de forma apaixonante, inebriante.
Três filmes ficcionais, dois de realizadores estreantes, ganharam reconhecimento na noite romana: “Verão na Sicília” (“Gioia Mia”), de Margherita Spampinato, que fez jus aos troféus de melhor diretora estreante e melhor atriz (Aurora Quattrocchi); “Primavera”, de Damiano Michieletto, diretor de ópera, destacado em sua estreia cinematográfica (melhor trilha sonora, direção de arte, cabelos e som), e o veterano Silvio Soldini, com “As Provadoras de Hitler” (melhor roteiro adaptado, maquiagem e o David Giovani – Prêmio da Juventude).
O espírito de transgressão estava tão presente na noite dos David – esta marcada pelo “flash mob” dos técnicos – que três figuras estelares do cinema italiano saíram de mãos abanando – as atrizes Valeria Bruni Tedeschi, Valeria Golino e Barbara Ronchi. Cada uma delas recebera duas indicações (como protagonistas e atrizes secundárias). Mas – registre-se – foram preteridas não por uma jovem (como o diretor Sossai, de 37 anos), mas pela veteraníssima Aurora Quattrochi (de 83 anos).
No Corriere della Sera, Vicenzo Lauricella, do Sindicato dos Técnicos, explicou a razão do protesto laboral: “Estamos aqui representando a invisibilidade de quem constitui os alicerces do cinema italiano, mas também sua vulnerabilidade. Levantar a cabeça nesse setor significa arriscar o emprego”.
Os trabalhadores, que se mostraram “dispostos a fazer greve”, lembraram que “o acordo coletivo está parado desde 1999 (portanto há 27 anos) e que os fundos de fomento ao cinema peninsular foram reduzidos e, por isso, comprometeram a produção”. Eles entendem que, por trás de tal realidade, está o desejo de punir o “cinema vermelho” (ou seja, ligado aos segmentos progressistas).
Três trofeus especiais foram entregues, na Noite dos David di Donatello, ao cineasta Gianni Amelio, de 81 anos (trajetória), ao fotógrafo Vittorio Storaro, de 86 (Prêmio Cinecittà) e a Bruno Bozzetto, de 88, criador de curtas de animação, em maioria narrativas de tom político-satírico.
Confira os vencedores:
. “A Última Rodada” (“Le Città di Piannura”) – melhor filme, diretor (Francesco Sossai), ator (Sergio Romano), roteiro original (Francesco Sossai e Adriano Candiago), produção (Marta Donzelli e Gregorio Paonessa), fotografia (Paolo Carnera), canção original (“Ti”, de Krano), casting (Adriano Candiano), montagem (Paolo Cottingnola)
. “Roberto Rossellini – Mais que uma Vida”, de Ilaria de Laurentiis, Raffaele Brunetti e Andrea Paolo Massara – melhor longa documental
. “Verão na Sicília” (“Gioia Mia”), de Margherita Spampinato – melhor filme de diretora estreante, melhor atriz (Aurora Quattrocchi)
. “Primavera”, de Damiano Michieletto – melhor trilha sonora (Fabio Massimo Capogrosso), direção de arte (Gaia Calderone e Rita Barbera), cabelos (Marta Iacoponi), som (Scarlata, Paone, Quadrolli e Favargiotti)
. “As Provadoras de Hitler”, de Silvio Soldini – melhor roteiro adaptado (Doriana Leondeff, Silvio Soldini, Lucio Ricca, Cristina Comencini, Giulia Calenda, Ilaria Macchia), David Giovani (Prêmio da Juventude), melhor maquiagem (Esmé Sciaroni)
. “Fuori”, de Mário Martone – melhor atriz coaduvante (Matilda De Angelis)
. “Nonostante”, de Valerio Mastandrea – melhor ator coadjuvante (Lino Musella)
. “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson (EUA) – melhor filme internacional
. “A Cidade Esquecida” – melhor cenografia (Andrea Castorina e Marco Martucci), efeitos visuais (Stefano Leoni e Andrea Lo Priori)
. “Buen Camino”, de Gennaro Nunziante – David de Donatello do Público (o filme vendeu 9,5 milhões de ingressos)
. “Todos os Dias em Gaza”, de Omar Rammal – melhor curta-metragem
