“Yellow Cake”, longa pernambucano estrelado por Rejane Faria e Tânia Maria, abre o festival Olhar de Cinema
Foto: Tânia Maria em cena de “Yellow Cake”, de Tiago Melo
Por Maria do Rosário Caetano
Tânia Maria, a quase octogenária artesã potiguar que ganhou fama ao encarnar a irreverente Dona Sebastiana em “O Agente Secreto”, vai dividir, com a atriz mineira Rejane Faria, a carinhosa mãe de “Marte Um”, os aplausos da noite inaugural da décima-quinta edição do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba.
O evento, que começa na próxima quinta-feira, dia santificado de Corpus Christi, escolheu outro filme pernambucano – “Yellow Cake”, de Tiago “Azougue Nazaré” Melo – que mobilizou Dona Tânia Maria para seu elenco.
O longa registra as consequências de experimento conduzido por cientistas estrangeiros, preocupados em erradicar o mosquito Aedes aegypti. Para atingir seu objetivo, os tais cientistas utilizam urânio como arma de combate. Quando o experimento falha, uma pesquisadora brasileira, com a ajuda de garimpeiros locais, tentará conter o desastre antes que seja tarde demais.
A exibição de “Yellow Cake” deverá lotar os 1.500 lugares da Ópera de Arame, cartão postal de Curitiba e sede, pela quinta vez, da abertura do Olhar de Cinema. Para tanto, o espaço receberá tela especial de mais de 400 polegadas, montada especialmente para a sessão. Dona Tânia Maria deverá estranhar o frio da Ópera de Arame, complexo cultural cercado de mata e água. Afinal, ela vive imersa no calor tropical do povoado de Santo Antônio da Cobra, em Parelhas, pequena cidade situada no sertão do Seridó potiguar. Sebastiana Maria de Medeiros Filha fará 80 anos em janeiro de 2027. Com muito gás, humor e disposição para novos filmes e comerciais publicitários.
Entre a sessão inaugural, com “Yellow Cake”, e a sessão da noite de premiação, que apresentará o longa “Salvação”, vindo da Turquia, o Olhar de Cinema exibirá mais de 70 filmes, brasileiros e internacionais, de autores jovens e em início de carreira (como Janaina Marques, Mariana Lacerda, Rafhael Barbosa, William Biagioli e Marcus Curvelo), sem esquecer diretores já reconhecidos como Affonso Uchôa, João Dumans, Pedro Diógenes, Anita Leandro, Davi Pretto e Rodrigo Grota. E realizadores experientes como o chileno Ignacio Agüeros (“Cartas a meus Pais Mortos”) e o brasileiro Jom Tob Azulay (“Flora e Ayrton: O Som Revolucionário”).
Haverá, também, espaço nobre para mestres que partiram em anos recentes, no segmento Clássicos, como os estadunidenses Frederick Wiseman (“High School”) e David Lynch (“Veludo Azul”), o húngaro Béla Taar (“As Harmonias de Werckmeister”) e o francês Jean-Luc Godard (“Aqui e em Qualquer Lugar”, parceria com Anne-Marie Miéville).
A Turquia, pátria do escritor Orhan Pamuk e dos cineastas Yilmaz “Yol” Güney e Nuri Bilge Ceylan, será representada no Olhar de Cinema por “Kurtulos” (“Salvação”). Convidado de honra da noite de encerramento, este longa, felizmente com estreia garantida no Brasil pela Pandora, apresenta um raro (e novo) nome para descoberta dos cinéfilos brasileiros, Emin Alter.
Historiador e cineasta de 52 anos, com obra consistente e numerosa, Ater realizou seu novo longa-metragem com coprodução internacional (França, Países Baixos, Grécia e Suécia). E escolheu o festival curitibano para sua estreia brasileira.
A trama de “Salvação”, que dura 120 minutos, situa-se em aldeia remota no alto das montanhas turcas. Clã exilado do lugar empreende sua volta. O regresso, porém, causará grande incômodo e reacenderá antiga disputa de terras. Ressentimentos adormecidos ressurgirão e Mesut, irmão do líder local, se verá acometido por visões perturbadoras. Que – ele acredita – “são avisos divinos”. Refletir sobre “convicções religiosas, luta pelo poder e tensões cada vez mais expostas” é a intenção do realizador turco. E tais reflexões levarão o espectador a se perguntar: “eles caminham para a tragédia ou para a salvação?”
A décima-quinta edição do Olhar de Cinema compõe-se com dez mostras: as competitivas Brasileira e Internacional (de longas e curtas), a Novos Olhares, a Mirada Paranaense Sanepar, Exibições Especiais, Olhares Clássicos, Olhar Retrospectivo e Pequenos Olhares (esta para a criançada).
Os filmes serão mostrados nas duas salas do charmoso Cine Passeio, o point da cinefilia local, no Auditório Poty Lazarotto do MON (Museu Oscar Niemeyer), espaço que também esbanja charme e beleza (e imensa cafeteria), a Sala da Cinemateca do Museu Guido Viaro e o Teatro da Vila.
Oito longas brasileiros disputarão o Troféu Olhar em categorias artísticas e técnicas: “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota, “Telúrica, a Íntima Utopia”, de Mariana Lacerda, “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha”, de Janaína Marques, “Maxita”, de Mariana Machado e Ana Maria Machado, “A Noite e os Dias de Miguel Burnier”, de João Dumans, “Adulto/Homem”, de Pedro Diógenes, “Olhe para Mim”, de Rafhael Barbosa, e “Reparação”, de Marcus Curvelo.

“Quase Inverno”, de Rodrigo Grota, radicado em Londrina, representa seu estado na competição brasileira. Já na Mostra Novos Olhares, Curitiba se faz representar por “O Mez da Grippe”, de William Biagiolli, que buscou numa das forças literárias do estado, o multiartista Valêncio Xavier (1933-2008), sua fonte inspiradora. Na mostra Mirada Paranaense Sanepar, composta com um longa-metragem e sete curtas, o documentário “A Holandesinha”, de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi, completará (junto com “Rita Moreira”), o quarteto de produções de longa duração que escolheram o Olhar de Cinema como primeira vitrine.
“Quase Inverno” é o oitavo longa-metragem de Rodrigo Grota, de 46 anos. Trata-se de narrativa ficcional inspirada na peça “As Três Irmãs” (1901), do russo Anton Tchecov. Para participar do festival curitibano, Grota interrompeu, momentaneamente, a feitura de seu nono longa-metragem, o documentário “Preciso Contar Tudo que Vi”, sobre o escritor João Antônio (1937-1996), de “Malagueta, Perus e Bacanaço”.
O cineasta londrinense contou à Revista de CINEMA que “Quase Inverno” é “uma trama totalmente original, embora inspirada em Tchecov, e ambientada na Londrina da década de 1970, após a geada histórica de 1975, que gerou crise na região dedicada à cultura do café”. Ele queria “investigar o universo interno de três irmãs que nunca foram próximas, mas que passam a se relacionar de forma muito intensa (do ponto de vista emocional) durante o período em que permanecem juntas”.
“Descrevi aquele momento histórico do Brasil” – pontua – “mais pelas emoções das personagens do que por fatos históricos. A ditadura militar, por exemplo, é importante para o filme, mas aparece como pano de fundo, e o que tentei destacar foram as consequências emocionais que ela trouxe para algumas famílias”.
O filme parte de abordagem realista, mas “aos poucos vai se deslocando para uma estética não naturalista, sobretudo no que se refere ao trabalho dos atores”. No elenco destacam-se Ondina Clais, Simone Iliescu, Luiza Quinteiro e Guilherme Kirchheim. E, em participações especiais, estão Esther Góes, Sabrina Greve, Erom Cordeiro Fernando Alves Pinto e José Maschio.
O cineasta, que nasceu no interior de São Paulo, fez de Londrina sua cidade adotiva. Dividido entre a ficção e o documentário, ele já realizou filmes como “Leste Oeste” (2018), “Isto (Não) É um Assalto”, sobre a frustrada tentativa de roubo ao Banestado (2018), e “Noite e Dia – Lima Barreto, Vida & Obra” (2023). E uma dezena de curtas-metragens (destaque para “Satori Uso” e “Booker Pittman”). E seis séries de TV.
“Quase Inverno” motivou Grota, que é, também, escritor, produtor cultural e programador de cinema, a dialogar “com a literatura e o teatro”.
“Há alguns monólogos no filme” – detalha –, “pois a ideia era criar lógica narrativa pela qual a personagem começasse a expressar algo que desconhecia de si mesma”. De forma que, “ao construir o roteiro, quis que cada palavra tivesse uma importância muito grande, quase como se fosse uma imagem”. Enquanto que, “do ponto de vista visual e sonoro, minha ideia era criar uma espécie de atmosfera onírica, irreal e atemporal, como se o tempo não existisse mais dentro dessa narrativa”.
“No processo da escrita de ‘Quase Inverno’” – confessa o cineasta – “escrevi o roteiro inspirado, além de Tchecov, em Ingmar Bergman”. Mas, “na hora de filmar e depois montar, fui tentando me afastar dessas afinidades estéticas, quis sentir o que filme pedia”.
Ele exemplifica: “no meu primeiro longa ficcional (‘Leste Oeste’, de 2016), eu apresentava o filme com uma frase de David Foster Wallace – ‘toda história de amor é uma história de fantasmas’. Em ‘Quase Inverno’, meu segundo longa de ficção voltado ao público adulto, me lembrei de uma frase de Albert Camus: ‘Não há amor pela vida sem desespero pela vida.’ Para arrematar “’Quase Inverno’ é um retrato desse desespero”.
William Biagioli, que nesse momento exibe, no Canal Brasil, a série “Caravelle 114”, sobre sequestro de avião da Cruzeiro do Sul por militantes da VAR-Palmares, apresentará seu primeiro longa-metragem, “Mez da Grippe”, no segmento do Olhar de Cinema dedicado “a filmes brasileiros e internacionais, ousados, que flertam com o risco, a invenção e caminhos desconhecidos em seu uso da linguagem cinematográfica, optando pela radicalidade e desprendimento das convenções do cinema”.
Aos 38 anos, o paulista de Araraquara (orgulhoso conterrâneo de José Celso Martinez Corrêa) radicou-se em Curitiba, depois de ter realizado seus estudos universitários em São Paulo. Ao escolher a capital paranaense como cidade adotiva, fez curso de cinema na Faculdade de Artes do Paraná, e dedicou-se à curadoria cinematográfica, organizando mostras de Kubrick, Tati, Melville e Person. Dedicou-se, também, à produção de obras de terceiros, à escritura de roteiros (para seus filmes e os de seus colegas de geração) e à filmagem de seus primeiros curtas (“Curitiba, a Maior e Melhor Cidade do Mundo” e “O Estacionamento”).
Para estrear no longa-metragem, Biagioli escolheu a obra de um paranaense da gema (embora nascido em São Paulo), o inquieto Valêncio Xavier Nicuitcheff. Um cidadão que fez de Curitiba (onde viveu dos 21 até sua morte, aos 75 anos de idade) a plataforma de suas múltiplas atividades: escritor experimental, cineasta, roteirista, diretor de TV e agitador cultural. Para ser fiel à sua matriz, só poderia trilhar os caminhos do filme-ensaio.
“Antes do nosso filme” – conta Biagioli – “houve outra versão cinematográfica do ‘Mez da Grippe’ – a de Pedro Merege e Beto Carminatti, realizada em 2008”.
“Nossa equipe” – rememora – “rodou, em setembro de 2022, algumas imagens em 16 milímetros”. Depois “digitalizamos imagens de um filme centenário chamado ‘Pelo Paraná Maior’, que havia sido guardado na Cinemateca de Curitiba justamente por Valêncio Xavier, autor de ‘O Mez da Grippe’, Prêmio Jabuti em 1999″.
No processo que fertilizou a nova versão fílmica do livro experimental do escritor-cineasta, Biagioli percebeu que “o longa acabou tornando-se uma adaptação, também na forma, de como Valêncio Xavier criou seu livro, com muitas colagens, sons e músicas das mais variadas origens”. “Um filme-ensaio” – arremata –, “um retrato sobre a cidade, sobre o cinema, sobre a memória, no final das contas”.
Boa parte da equipe criativa de “Mez da Grippe” trabalhou com Biagioli na série “Caravelle 114”. A nova trama se passa na capital paranaense, onde um professor universitário inicia pesquisa sobre a gripe espanhola. À medida que ele reúne fotografias, relatos e fragmentos de memória, a investigação começa a escapar do controle”. Surgem “vozes de imigrantes, imagens de arquivo e ecos de uma cidade assombrada, o passado retorna como um enigma que insiste em permanecer vivo”. Os atores Edson Bueno, Raquel Rizzo, Daniel Felice e Nazha Chiah participam da trama que “está mais para a ficção, que para o documental”.
Mais dois filmes – “Segunda Pele”, de Dea Ferraz, e “A Paixão Segundo GHB”, de Gustavo Vinagre e Vinícius Couto – completam a representação brasileira na Mostra Novos Olhares. Os outros quatro títulos são produções internacionais.
O terceiro longa-metragem do estado anfitrião presente na programação do Olhar de Cinema – “A Holandesinha”, de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi – integra a mostra Mirada Paranaense Sanespar. Trata-se de documentário que, ao longo de 90 minutos, acompanha Luiza Godoi Acosta, jovem portadora de Síndrome de Down. Ela sonha em ser cineasta e prepara a realização de seu primeiro curta-metragem, “Lágrimas de um Pierrot”.
O documentário de Kowalski, codirigido por Luiza, percorre todas as etapas do processo criativo da jovem, revelando sua visão de mundo, os desafios enfrentados e as superações diante do capacitismo. O filme vem do interior do Paraná e celebra a inclusão. Sua equipe criativa e técnica reafirma “o cinema como espaço de possibilidades, pertencimento e perseverança”.
É, também, uma produção paranaense, o longa “Rita Moreira: Crônicas, Memória e Videotape”, de Sérgio Barroso Santos. O filme parte da ideia de que “a memória é uma ilha de edição”, para revisitar a trajetória da cineasta lésbica Rita Moreira através de seus filmes. Ela viveu a década de 1970, em Nova York, onde se autoexilou durante a ditadura militar brasileira.
O filme avança no tempo e apresenta também realizações mais recentes (dos anos 2010) da cineasta, escritora e jornalista nascida em 1944, em São Paulo. Nos tempos novaiorquinos, Rita colaborou com o jornal Opinião, de Fernando Gasparian. Colaborou, também, com publicações como a revista Realidade e Nova, ambas da Editora Abril.
Há um curioso filme “paranaense” na programação do Olhar de Cinema, “Hollywood Studios”, de Arthur Rogge (18996-1994), reconhecido junto com Annibal Requião e João Baptista Groff, como dos pilares da trinca de pioneiros do cinema do estado sulista. Trata-se de média-metragem (46 minutos) realizado durante estada de Rogge nos Estados Unidos, ocorrida nos anos de 1927 e 1928.
As imagens mostram percurso por ruas de Hollywood, na cinematográfica Los Angeles. A intenção do “cinegrafista” consistia em revelar ao público brasileiro as estruturas dos grandes estúdios, os atores e atrizes famosos, a cultura e as curiosidades locais.
“Com gosto de atualidade cinematográfica” – registra a curadoria do Olhar de Cinema –, “este quase centenário filme ‘paranaense’ demonstra (por detrás de suas cartelas informativas e retratos peculiares) o interesse do empresário tornado cineasta, Arthur Rogge, pelo desenvolvimento de uma indústria cinematográfica em sua região de origem”.
A competição internacional de longas do festival curitibano reúne sete produções que narram histórias chilenas (“Cartas a meus Pais Mortos”), venezuelanas (“Um Calendário Incompleto”), argentinas (“A Noite Já Está Partindo”), moçambicanas (“O Profeta”), marroquinas (“Bouchra”), e do Leste Europeu (“Se Pombos Virassem Ouro” e “Não me Deixe Morrer”).
Há que se destacar a presença do chileno Ignacio Agüero, de 74 anos, no Olhar de Cinema. Afinal, ele tem em sua estante um Troféu Olhar, pelo belo “O Vento Sabe que Volto para Casa” (2016). E fez por merecer uma pequena (mas substantiva) retrospectiva no festival curitibano. Que ele acompanhou junto com o público.
Agüero é, junto com Patrício Guzman, nome da linha de frente do documentário chileno. Autor de filmes de grande importância, como “Cien Niños Esperando un Tren”, vencedor do Festival de Havana 1988, “Como me Dá la Gana”, “Nunca Subi el Província” e “O Diário de Agustin”, corajoso mergulho na história do proprietário (Agustín Edwards Eastman) do mais importante jornal do Chile, o El Mercurio.
O diretor de “O Vento Sabe que Volto para Casa” participa da competição internacional do Olhar, este ano, com “Cartas a mis Padres Muertos” (Cartas a meus Pais Mortos). O filme, que dura 124 minutos, evoca provocantes concepções, de tom surrealista ou metafísico, de Raúl Ruiz (1941-2011), outro grande nome do cinema chileno.
O diretor de “Três Tristes Tigres”, “As Três Coroas do Marinheiro” e “Mistérios de Lisboa”, que dividiu sua trajetória entre o Chile e a França, ponderou, em texto revelador (“Para um Cinema Xamânico”), que “embora muitos filósofos tenham considerado os conceitos de Sonho e Memória contraditórios […] se misturarmos esses dois termos, não deve nos surpreender que a pessoa com quem estamos falando esteja morta há anos”. E mais: “nem devemos nos chocar com o espanto do morto ao descobrir que estamos vivos”. A partir dessas reflexões, Agüero construiu seu novo longa-metragem, um dos mais aguardados do Olhar de Cinema.

A Argentina marcará presença na competição do Olhar com “La Noche Está Marchándose Ya” (A Noite Já Está Partindo), de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas. O filme tem o universo do cinema como fonte inspiradora e aglutinadora. Pelu, na casa dos trinta anos, é o humilde projecionista de modesto cineclube municipal. Diante da crise, ele necessitará tornar-se o vigia noturno do cinema. Com o tempo, o local acabará por transformar-se em seu novo lar. Pouco a pouco, uma pequena comunidade começará a se formar dentro do cinema após o horário de fechamento. Esta comunidade será composta por um grupo de “laranjinhas” (flanelinhas) que dormem ali e, eventualmente, tornam-se os amigos mais próximos de Pelu. Entre eles, está Vale, uma ex-colega de escola, que usa o espaço para gravar vídeos para o Only Fans.
“Um Calendário Incompleto” (An Incomplete Calendar) resultou dos esforços de uma verdadeira ONU cinematográfica. Dirigido por Sanaz Sohrabi, o filme uniu Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu e Venezuela. E o fez a partir de ação cultural de uma nação petrolífera, a rica e conturbada Venezuela, grande produtora do combustível, a sua matriz originária.
Em sintéticos 70 minutos, a narrativa recorre a um disco pouco conhecido – “Rhymes and Songs for OPEC” (Rimas e Canções para a OPEP) – como ponto de partida. Esse elepê foi gravado, em 1980, pelo Coro da Universidade Central da Venezuela para comemorar o vigésimo aniversário da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo; em inglês, OPEC – Organization of the Petroleum Exporting Countries). Combinando canções e arquivos raramente vistos, “o filme redefine o petróleo não como uma mercadoria, mas como alavanca política para as lutas de libertação na Palestina e a construção da solidariedade pan-árabe entre os anos 1960 e 1970”.
O Olhar de Cinema, aliás, selecionou para sua programação, outros títulos que destacam a história passada e o presente da Palestina, hoje vítima de guerra genocida. Caso do curta-metragem “Eles Não Existem”, de Mustafa Abu Ali, produção de 1974, filmada em condições extraordinárias pelo responsável pela criação da Divisão de Cinema da OLP (Organização para a Libertação da Palestina). O filme aborda as precárias condições dos campos de refugiados no Líbano, os efeitos dos bombardeios israelenses, e a vida dos guerrilheiros em campos de treinamento.
No campo dos curtas e médias-metragens brasileiros, além do trabalho de Affonso Uchôa, que dirigiu o premiado “Arábia” (com João Dumans), vale prestar atenção em “Um Filme para Lembrar da Utopia”, do professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Reinaldo Cardenuto, doutor em cinema com a tese-livro “O Cinema Político de Leon Hirszman”.
Ao longo de 20 minutos, Cardenuto apresenta registros cinematográficos do alagoano-carioca Esdras Baptista (1923-1988), guardados por décadas em sua residência, com a intenção de “sentir o fervor daqueles que acreditaram em um novo amanhã”. O material originário, filmado no Brasil do início da década de 1960, “no calor de uma política libertária em movimento”, traz imagens captadas pelo quase desconhecido cineasta, que “materializam a incandescência dos desejos coletivos no instante de sua eclosão. A utopia, mesmo inalcançável, nunca é vista como mera abstração”. Mas sim – como faz questão de dizer o politizado Cardenuto – “como força que mobiliza ações e sentimentos, para constituir-se como ímpeto necessário à existência”.
“Disciplina”, de Affonso Uchôa, chama atenção desde o nome irônico, sintético e provocador. Ao longo de 45 minutos, o diretor de “A Vizinhança do Tigre” ambienta, numa escola pública, o confronto entre Kelly, jovem professora de Português, em início de carreira, e um estudante. Durante uma aula, ela discute com Nicolas. Os dois terão que resolver o conflito diante do diretor da escola. A discussão ensinará à professora que, “na periferia do Brasil, a exceção é a regra”. E Nicolas aprenderá que é necessário reconstruir o presente para ver o futuro.
MOSTRA NOVOS OLHARES
. “Passado Futuro Contínuo”, de Firouzeh Khosrovani e Morteza Ahmadvand (Irã, Noruega e Itália)
. “Como Todo Mortal”, de Maria Molina Peiro (Espanha e Países Baixos)
. “Gato na Cabeça”, de Laila Pakalnina (Letônia)
. “Joy Boy: Um Tributo a Julius Eastman”, de Walking Backwards Collective (Bélgica, República Democrática do Congo e França)
. “Segunda Pele”, de Dea Ferraz (Brasil)
. “A Paixão Segundo GHB”, de Gustavo Vinagre e Vinicius Couto (Brasil)
. “O Mez da Grippe”, de William Biagioli (Brasil)
MIRADA PARANAENSE SANEPAR
. “A Holandesinha”, de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi (longa)
. “Enluarada”, de Pedro Nascimento (curta)
. “Estrelas Terrestres”, de Rafael Neri M. Ferreira (curta)
. “Imunidade”, de Milla Jung e Candida Monte (curta)
. “Las Vegas, Cuba”, de Felipe Eugênio Lovo (curta)
. “O Caçador”, de Lucas Mancini (curta)
. “Reza para Baobabs: Um Ebó de Palavras para Ayami e Zola”, de Bea Gerolin (curta)
. “Tornar-se Ciborgue no Interior”, de Louisa Savignon (curta)
. “Yvyra’ijá há Jate’í Reheguá – Os Quatro Guerreiros e o Jatei”, do Coletivo Ava Guarani de Cinema (curta)
COMPETITIVA INTERNACIONAL (LONGAS)
. “Não me Deixe Morrer”, de Andrei Epure (Romênia, Bulgária e França)
. “O Profeta”, de Ique Langa (Moçambique e África do Sul)
. “Se Pombos Virassem Ouro”, de Pepa Lubojacki (República Tcheca e Eslováquia)
. “Bouchra”, de Orian Barki e Meriem Bennani (Itália, Marrocos, EUA)
. “Um Calendário Incompleto”, de Sanaz Sohrabi (Canadá, Irã, Turquia, Vanuatu, Venezuela)
. “Cartas a meus Pais Mortos”, de Ignacio Agüero (Chile)
. “A Noite Já Está Partindo”, de Ramiro Sonzini e Ezequiel Salinas (Argentina)
COMPETITIVA INTERNACIONAL (CURTAS)
. “Outra Terra”, de Ben Russell (França)
. “Desencaixar”, de Danielle Kaganov (França)
. “Má Sorte”, de Jan Eilhardt (Alemanha)
. “Dragão”, de Yashira Jordán (Bolívia e México)
. “Cada Época Sonha com a Próxima”, de Johannes Gierlinger (Áustria e Albânia)
. “O Inimigo”, de Andrej Chinappi (Itália)
. “NanGinen”, de Feguenson Hermogène (Cuba)
. “Sussuros de um Perfume Ardente”, de Mo Harawe (Somália, Áustria e Alemanha)
COMPETITIVA NACIONAL (CURTAS)
. “Disciplina”, de Affonso Uchôa
. “Um Filme para Lembrar da Utopia”, de Reinaldo Cardenuto
. “Cerimônia”, de Fabio Ramalho, André Antonio e Chico Lacerda
. “Duwid Tuminkiz – Makunaima é Duwid?”, de Gustavo Caboco Wapichana
. “Marimbã Está Acontecendo”, de Maryn Marynho
. “O Segredo Sagrado”, de Everlane Moraes
. “Pinguim de Doce de Leite”, de Ana Vitória Miotto Tahan
. “Pirexia”, de Nico da Costa
MOSTRA EXIBIÇÕES ESPECIAIS
. “Anistia 79”, de Anita Leandro (Brasil)
. “Barbara Para Sempre”, de Brydie O’Connor (EUA)
. “Flora & Airto: O Som Revolucionário”, de Jom Tob Azulay (Brasil)
. “Futuro Futuro”, de Davi Pretto (Brasil)
. “Histórias de um Bom Vale”, de José Luis Guerin (Espanha e França)
. “Rita Moreira: Crônicas, Memórias e Videotape”, de Sérgio Santos Barroso (Brasil)
OLHARES CLÁSSICOS CINE PASSEIO
. “As Aventuras do Príncipe Achmed”, de Lotte Reiniger (Alemanha, uma raridade de 1926)
. “Aqui e em Qualquer Lugar”, de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville (França)
. “High School”, de Frederick Wiseman (EUA)
. “Veludo Azul”, de David Lynch (EUA)
. “As Harmonias de Werckmeister”, de Béla Tarr e Ágnes Hranitzky (Hungria)
. “Hollywood Studios”, de Arthur Rogge (Brasil, 1930)
. “Vento Norte”, de Salomão Scliar (Brasil, 1951)
. “Beirute Fantasma”, de Ghassan Salhab (Líbano e França)
. “Corações Desertos”, de Donna Deitch (EUA)
. “Eles Não Existem”, de Mustafa Abu Ali (Palestina)
MOSTRA PEQUENOS OLHARES
. “Papaya”, de Priscilla Kellen (longa-metragem, Brasil)
. “Canção de Peixes e Pássaros”, de Anny Uribe e Juan José Arévalo (curta, Espanha)
. “Nosso Tempero”, direção coletiva de alunos da Escola Municipal João Victor Lagoa Nova-RN e Equipe Animazul, de Vitória-ES (curta, Brasil)
. “A Menina que Queria ser Pedra”, de Jackson Abacatu (curta, Brasil)
. “Aterro Zeitgeist”, de Kapel Furman (curta, Brasil)
. “Ecos do Amanhã”, de Antônio Eder (curta, Brasil)
. “Kika Não Foi Convidada”, de Juraci Júnior (curta, Brasil)
. “O Jardim Mágico”, de Carlon Hardt e Naira Carneiro (curta, Brasil)
. “Theo”, de Monica Palazzo e Jo Galvv (curta, Brasil)
