“A Última Utopia” une Mariana Lacerda ao grupo Ueinzz e ao filósofo Peter Pál Pelbart em ação teatral que mobiliza portadores de sofrimento psíquico
Foto: Peter Pál Pelbart e Mariana Vasconcelos © Duda Dalzoto
Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)
“Telúrica, a Última Utopia”, uma produção pernambucano-paulista dirigida por Mariana Lacerda, abriu a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros da décima-quinta edição do Olhar de Cinema, o Festival Internacional de Curitiba.
No palco, para apresentar essa utopia cósmico-teatral, além da diretora, estavam integrantes da equipe artístico-técnica do filme e o filósofo Peter Pál Pelbart, brasileiro nascido na Hungria e uma das fontes de inspiração da narrativa.
Aos 70 anos, Pelbart, que é professor da PUC e ativista de novas utopias, foi discreto. Definiu-se apenas como “um dos atores do filme”. Mesmo assim, chamou bastante atenção por sua estampa de beleza singular, arrematada por fartos cabelos e longas barbas brancas.
Durante o debate que se seguiu ao filme, no Cinema do MON (Museu Oscar Niemeyer), o filósofo justificou sua presença em “Telúrica, a Última Utopia”: “há 30 anos estou ligado ao coletivo Ueinzz”. Esta companhia teatral e seus processos de criação são a razão de ser do filme de Mariana Vasconcelos, produzido por Carol Ferreira, a mesma de outro longa apresentado no Olhar de Cinema, a ficção científica “Yellow Cake”.
No cento de “Telúrica, a Última Utopia” estão pessoas em processo de sofrimento psíquico. O grupo teatral será visto, ao longo de 104 minutos, em exercícios de criação de um espetáculo sobre a extinção da Terra e a vontade humana de resistir, sobreviver, perdurar. E, aos poucos, iremos conhecendo cada um deles, suas dores, desejos, paixões. Seja por música, sequências de filmes (como “Titanic”), animais ou horóscopo.
“Durante os ensaios” — explicam os idealizadores da experiência —, “sonhos, palavras e modos de existência emergem como espécies frágeis a serem preservadas”. Enquanto atuam, os integrantes do grupo “contemplam a sobrevivência, o pertencimento e a preservação contínua de sua própria comunidade”.
A narrativa se desenvolve na Casa do Povo, espaço cênico-comunitário do Bom Retiro paulistano, onde funcionou (num subsolo) o importante TAIB (Teatro de Arte Israelense-Brasil). Com elaborada fotografia de Marcelo Lacerda, assistimos ao registro dos ensaios. De início, tudo parece excessivamente teatral. Portanto, pouco cinematográfico. Mas, à medida que vamos conhecendo os “personagens” e seus sofrimentos psíquicos, somos motivados e seduzidos pela narrativa. Acabaremos fisgados por ela, de forma mobilizadora, a ponto de desejarmos ver a performance coletiva, por eles preparadas com tanta dedicação (e dúvidas). A trilha sonora dos mineiros de O Grivo também enriquece a narrativa.
O figurino e a maquiagem dos atores somam poucos elementos. Mas todos essenciais e muito atraentes. Quando a encenação ganha sua “forma final” (pelo menos no filme), entenderemos o que cada um dos participantes, portadores de sofrimento psíquico, queria expressar durante o processo de criação da peça. Nos identificamos com o perfeccionista que, ao ensaiar um show musical, sente-se incapaz de fazer o giro perfeito. Ou a moça que resume a história de “Titanic”, que tanta a marcou. Ou o rapaz que ama os animais a ponto de defender que nenhum deles seja eliminado da face da Terra. Todos os temas e propostas parecem bem-vindos no seio do grupo. A diretora do espetáculo-processo só pede (a um dos atores) que deixe de lado a questão religiosa. Será atendida.
“Telúrica, a Última Utopia” é o segundo longa-metragem da pernambucana Mariana Lacerda. O primeiro, “Gyuri” (2020), chegou para somar-se a meia dezena de curtas e séries que ela vem realizando, em carreira que soma trabalhos nos campos editorial e das artes visuais. Entre seus curtas destacam-se “Menino-Aranha”, “A Vida Noturna das Igrejas de Olinda”, “Pausas Silenciosas” e “Baleia Magic Park”. Quem assistir ao “Telúrica” entenderá o interesse da cineasta pelas baleias, paixão compartilhada por Peter Pál Pelbart.
Quem quiser entender melhor a relação do filósofo brasileiro, de origem húngara, com a Casa do Povo e o trabalho com pessoas em sofrimento psíquico, deverá saber que ele é adepto do que chamamos de “hospital-dia”. Ou seja, de experiência terapêutica que, ao invés de internar o paciente por longos períodos, o assiste ao longo de um dia.
O Centro Cultural Casa do Povo, cenário do filme, tem como propósito “revisitar e reinventar noções de cultura, comunidade e memória”. Por isso, abriga a companhia teatral Ueinzz, que já soma três décadas de atuação como um dos grupos, movimentos e coletivos acolhidos pela Casa do Povo. Este espaço onde “o público não é o alvo, mas sim ativo”.
Afinal, move o espaço-instituição o desejo de que as pessoas mobilizadas o vejam como “um ponto de encontro, de formação e de experimentação, um monumento vivo, um lugar onde lembrar é agir”. Ali, “a cultura é vista como um campo expandido, transdisciplinar, processual e engajado”. Que entende “a arte como ferramenta crítica dentro de um processo de transformação social”.
Nesse sentido, “Telúrica, a Última Utopia” dá sua contribuição ao processo. O documentário de Mariana Lacerda — como testemunhou a equipe no debate do MON — vem multiplicando o interesse de pessoas que desconhecem a Companhia Ueinzz e seu trabalho com portadores de sofrimento psíquico. E, por extensão, com as ações desenvolvidas na Casa do Povo.
FLASHES CURITIBANOS
PELBART E ONDINA CLAIS – Curioso notar que o filósofo Peter Pál Pelbart, um dos esteios do processo de criação de “Telúrica, a Última Utopia”, participe da mostra competitiva do Olhar de Cinema na mesma edição que abriga sua companheira, a atriz paulistano-santista Ondina Clais, de 56 anos. Ela é uma das protagonistas da ficção paranaense “Quase Inverno”, de Rodrigo Grota, paulista que adotou Londrina, município terra-roxa do Paraná. O longa de Grota será exibido na próxima quinta-feira, 11 de junho, e deve abarrotar o Cinema do MON. Afinal, trata-se de obra 100% paranaense, ambientada em terras férteis do Estado, em meados da década de 1970, quando fortes geadas provocaram grave crise nas lavouras cafeeiras da região de Londrina. O filme tem “Três Irmãs”, do russo Tchecov, como fonte de diálogo.
O PROFETA DE MOÇAMBIQUE – O filme inaugural da competição de longas internacionais do Olhar de Cinema veio da África (único representante do continente). Trata-se de uma ficção (“O Profeta”) escrita e dirigida por Ique Langa, nascido em Maputo. O jovem realizador, formado na London Film School, não está em Curitiba, mas mandou um simpático vídeo para o público que foi prestigiar a sessão. O longa narra, em 88 minutos, os conflitos de um pastor evangélico com a fé cristã. Em poético preto-e-branco (fotografia de Denilson Pombo), a narrativa se construirá, pois, sobre os impasses espirituais vividos pelo pastor e pelos fiéis que buscam sua ajuda. Em especial, a cura de um enfermo.
CENTENÁRIO DE ANDRZEJ WAJDA 1 – O Olhar de Cinema ampliou uma de suas mostras mais prestigiadas, a Olhares Clássicos. A procura por filmes do passado soma-se em pé de igualdade com os filmes do presente. Este ano, além de clássicos de Godard, David Lynch, Wiseman e Béla Tarr, foi programada (em outro espaço dedicado a filmes do passado, o Olhar Retrospectiva) mostra em homenagem ao centenário de nascimento do polonês Andrzej Wajda (1926-2016), autor de obras-primas como “Kanal” e “Cinzas e Diamantes”. A curadora da homenagem, a polonesa Agnieszka Drewno, selecionou filmes menos conhecidos do conterrâneo. E deixou de sua fora sua fase “francesa”, que tem em “Danton – O Processo da Revolução” seu exemplar mais vistoso. O filme que mais curiosidade vem despertando é “Caça às Moscas”, de 1969. E por que? Por tratar-se de uma comédia, gênero no qual Wajda pouco se exercitou. Seu cinema, de natureza épica, priorizou temas políticos e sociais, alguns deles tendo a Segunda Grande Guerra Mundial como trágico cenário.
CENTENÁRIO DE ANDRZEJ WAJDA 2 – Em instigante e sintético texto curatorial, Agnieszka Drewno classifica Wajda como “O Romântico do Cinema Polonês”. Claro que ela não se refere ao sentido vulgar do romantismo, mas a uma compreensão mais elaborada. “Para o espectador” — escreve —, “o romantismo pode evocar paixão, idealismo e, muitas vezes, uma fuga da realidade”. Na “obra de Wajda, o maior mestre do cinema da Polônia” — pondera — “é preciso olhar para o Romantismo como uma força visceral, uma luta incessante entre o indivíduo e o destino, a exaltação do sacrifício e a busca pela beleza em meio a ruínas e escombros”. Os filmes selecionados são, além de “Caça às Moscas”, “As Donzelas de Wilco” (1979), “ O Maestro”, também de 79, elogiado por Ingmar Bergman, “Os Feiticeiros Inocentes” (1960), que dialoga com a Nouvelle Vague, “Terra Prometida”, épico de 1974, e “Tudo à Venda” (1968).
CENTENÁRIO DE ANDRZEJ WAJDA 3 – Agnieszka Drewno nos revela algo que há de mobilizar os cinéfilos para que assistam ao desconhecido (entre nós) “Tudo à Venda”. Este filme, realizado no emblemático ano de 1968, é definido pela curadora como “um dos mais pessoais de Wajda”. Afinal, serviu “como forma artística de lidar com a morte de Zbigniew Cybulski”(1927-1967), presente em três de seus filmes (além de “Cinzas e Diamantes”, “Geração” e “Os Feiticeiros Inocentes”). Quem viu o obrigatório “Cinzas e Diamantes” lembra-se da beleza arrebatadora do ator, uma espécie de James Dean polonês. Sua morte prematura, aos 39 anos, deixou a Polônia em estado de choque. Para exorcizar a dor da perda, o cineasta fez um longa-metragem, no qual uma equipe de filmagem está posta em processo de espera. Só que o esperado (e procurado por todos os lugares) ator Zbigniew Cybulski não aparece. Para angústia do realizador, de sua esposa e da esposa do protagonista de “Cinzas e Diamantes”, ele, o ator, segue sem dar pistas. Finalmente, “chega a notícia de que ele morreu tragicamente ao saltar de um trem em alta velocidade”.
