Olhar de Cinema causa impacto com documentário tcheco sobre viciados em álcool e abre espaço nobre para o cinema nordestino
Foto: “Se Pombos Virassem Ouro”, da tcheca Pepa Lubojacki
Por Maria do Rosário Caetano, de Curitiba (PR)
O Leste Europeu enviou dois filmes à mostra competitiva de longas-metragens internacionais do Olhar de Cinema; o documentário “Se Pombos Virassem Ouro”, da tcheca Pepa Lubojacki, e “Não me Deixe Morrer”, do romeno Andrei Epure.
O primeiro longa causou profundo impacto na plateia, ao apresentar duríssimo retrato da vida de viciados em álcool, que deixam seus lares para viver em ruas ou muquifos de Praga. O segundo, um filme de ficção, constrói-se como afiliado ao gênero terror. Sem sangue, sem vísceras ou sustos. Afinal, trata-se de sútil exemplar do que podemos chamar de horror minimalista. Mesmo que oriundo da terra do Conde Drácula.
“Se os Pombos Virassem Ouro” chegou ao Festival Internacional de Curitiba recomendado por dois prêmios. Um, importantíssimo, atribuído por júri oficial do Festival de Berlim, que o elegeu como o melhor documentário de todos os segmentos da competição germânica. E de júri paralelo, que o laureou com o Prêmio Caligari. Referência, claro, a um dos mais importantes filmes do Expressionismo Alemão.
O impacto do filme de Pepa Lubojacki é mesmo avassalador. De pele muito clara e imensos olhos azuis, ela cresceu na capital tcheca, Praga, ao lado do irmão, também louro e de grandes olhos azuis, semelhantes aos dela. Só que, depois de vibrante juventude dedicada ao skate e a outras práticas esportivas e recreativas, ele vai, como fizera o pai, mergulhar no álcool. E o fará com tal intensidade, que abandonará a casa materna para “alimentar-se” de doses industriais de vodka e outros aditivos alcoólicos. A mãe e a irmã — a cineasta que veremos como personagem importante na trama — tudo farão para que ele abandone o vício. O espectador acompanhará essa saga ao longo de angustiantes 110 minutos.
Além do irmão, a documentarista acompanhará outros alcoólatras que vivem pelas ruas (ou prédios abandonados e insalubres) de Praga, a bela cidade natal de Franz Kafka. Mas o foco estará sempre concentrado no irmão, que ela acompanhou ao longo de sete anos.
As filmagens se dão sob questionamentos éticos, que Pepa Lubojacki coloca para si mesma e para o espectador. Deveria estar filmando o irmão? É válido explorar a luta geracional de sua família contra o alcoolismo de forma (perspectiva) tão pessoal?
A documentarista concluirá que sim. Até porque contará, sempre, com a cumplicidade do irmão. Mesmo que, às vezes, os dois travem embates muito duros. Mas em nenhum momento ele pedirá que ela interrompa as filmagens. Assegurará, convicto, que não quer ser internado em clínica de reabilitação, tem diálogo tenso com a mãe (de quem só ouviremos a voz, em breve momento, nunca a imagem). E não manterá apartamento alugado pelos familiares, para que ele viva em boas condições sanitário-higiênicas e com mais conforto. Mãe e irmã se comprometem a pagar os primeiros aluguéis até ele arrumar emprego e poder arcar com os custos. Ele tenta uma vez, assume a nova residência, mas volta a afogar-se no álcool.
Para construir esse poderoso “Se Pombos Virassem Ouro”, Pepa somou às imagens captadas por ela (ou pelo fotógrafo Tomás Stastry) fotos fixas, de crianças, adolescentes e adultos (dela e do irmão) e recorreu à Inteligência Artificial.
São muitos os usos da questionada IA. Fotos fixas serão animadas e “falarão”. Em ritmo vertiginoso, seremos estimulados por uma miríade de recursos digitais. Mas as cenas de maior impacto serão mesmo as que registraram o irmão de Pepa, já quarentão, por ruas, muquifos ou abrigos, quando a temperatura em Praga cai para 10 graus negativos. E árvores, prédios, a cidade, enfim, coberta por densas camadas de neve.
A documentarista tcheca realizou poderosa radiografia dos impactos do vício na vida pessoal e familiar daqueles que resolvem trocar suas residências pela vertigem das ruas. Às vezes solitários, às vezes na precária companhia de outros adictos. Aqueles que tomaram o mesmo caminho.
Pepa Lubojacki não está em Curitiba, mas mandou da República Tcheca substantivo depoimento sobre seu filme. Ela, que dirigiu, roteirizou, montou e aparece como personagem em “Se Pombos Virassem Ouro” fez questão de prevenir o público do festival paranaense: “vocês verão um filme ao qual dediquei sete anos de trabalho. Trata-se de registro sobre o vício que marca homens de uma mesma família (ela deixou para o espectador a descoberta de que família se tratava). Se vocês se incomodarem, sintam-se livres para deixar a sala”. Ninguém saiu. Todos permanceram no Cinema do MON (Museu Oscar Niemeyer), até o último instante.

Quem aprecia o novo cinema romeno, aquele que consagrou Cristian Mungiu, Corneliu Porumboi, Cristi Puiu e Radu Jude, deve anotar o nome de Andrei Epure na lista das boas promessas vindas do Leste Europeu. Depois de formar-se na Universidade Nacional de Teatro e Cinema de Bucareste, o cineasta foi selecionado para a Semana da Crítica, em Cannes, com o curta “Interfon 15”. O novíssimo “Não me Deixe Morrer”, selecionado pelo Olhar de Cinema, é seu primeiro longa-metragem.
O longa começa com a chegada de uma mulher, já de idade, a um prédio sem luxos. Faz muito frio e ela não conseguirá entrar. Morrerá ali mesmo, no pátio. A jovem Maria (Cosmina Stratan, premiada em Cannes por “Além das Montanhas”, de Mungiu) descobrirá o corpo e dirá aos policiais tratar-se de uma vizinha, faxineira do prédio. Que nele residia. Em apartamento próximo ao dela. E que sabe algo sobre a morta. Não muito. Ela seria mãe de um filho adulto, sempre ausente.
A morte da senhora passará a assombrar a vida de Maria. Suas noites, cada vez mais longas, serão perturbadas. Mesmo assim, a moça enfrentará a imensa burocracia romena para dar enterro digno à morta. E assumirá, cada vez com maior dedicação, os cachorros da falecida.
Com imensa economia de recursos, registro implacável dos tentáculos da burocracia e humor de imensa sutileza, Andrei construirá um filme denso e subliminar. Daqueles que acreditam que menos é mais. Acreditam, também, na inteligência do espectador. A narrativa, lacunar, nos induz a prestar atenção no desenvolvimento da carreira desse jovem realizador romeno.

A morte deu substância ao filme europeu “Não me Deixe Morrer” e, também, ao primeiro longa solo, “Reparação”, do baiano Marcus Curvelo. O cineasta fez da perda sua força impulsionadora. No caso, a morte, primeiro do pai (o Sr. Joel Curvelo) e, depois, da mãe (Dona Sônia Gentil Curvelo).
O filme começa no dia em que o realizador soteropolitano faz 35 anos. Em companhia da mãe, ele busca, no mar, o espaço ideal para que as cinzas paternas sejam lançadas.
A primeira perda familiar, a do Sr. Joel, ajudara o jovem Marcus a iniciar processo de “exploração das transformações da matéria, da memória e da própria vida” em um filme muito pessoal. O processo que será ampliado com a perda materna.
O filme é definido por seu realizador como “um documentário de investigação autoficcional”. Ele mesmo dá as pistas de seu processo criativo, ao registrar que pratica “um cinema híbrido, de autoficção, em busca de uma antropologia visual”. Em síntese, “um documentário criativo”.
Quem se acostumou aos irreverentes curtas de Curvelo, protagonizados por seu alterego, Joder, vai notar a diferença de registro. O cineasta continua fazendo autoficção, mas o tom, dessa vez, é de réquiem. Afinal, depois de perder o pai, ele vai acompanhar, com sua câmera, os dias em que a mãe passa internada num hospital.
Calma e compreensiva, Dona Sonia conversará com o filho e se deixará filmar. Mas a morte virá e deixará Curvelo órfão pela segunda vez. O filme se construíra com imagens captadas ao longo de quatros anos (hoje ele soma 39), ora em Salvador, ora no Rio de Janeiro, ora no Ceará.
O cineasta prefere definir seu filme como um exercício “de melancolia”. Não como um réquiem. E deixará subentendido que não abandonou o humor de suas primeiras realizações. Apenas o depurou. Haverá humor sútil na tentativa da mãe de lançar as cinzas do marido ao mar. Vento insistente perturbará seu intento. Aliás, a força do vento é um dos elementos (junto a árvores e grandes ondas que quebram na praia) essenciais à composição do visual de “Reparação”.
E aos espaços imensos da Natureza serão somadas questões da esfera privada. Bem domésticas. O poder corrosivo da maresia, alimentado pelo salitre, será o mais recorrente deles. Destruirá a lataria do carro e muitos objetos metálicos que habitam a casa soteropolitana dos Curvelo. A ponto do cineasta associar o ar salino “à deterioração de sua própria vida”.
O filme, um “diário filmado”, foi produzido com parcos recursos. Tem bons momentos e outros nem tanto. Mas Marcus Curvelo segue como instigante força criativa na qual se deve apostar. Aguardemos, pois, trabalhos realizados com estrutura profissional, com recursos que permitam a mobilização de equipes artísticas e técnicas, capazes de agregar valor a seu processo criativo. Mesmo que ele siga, convicto, pela vereda da autoficção.
Ator de seus próprios filmes (e em obras alheias como “Morte e Vida Madalena”, longa de Guto Parente), roteirista, montador, diretor de fotografia (nesse caso em parceria com Danilo Umbelino), diretor de arte (com Luísa Maciel) e produtor, o cineasta encaixa-se no importante segmento do “faça você mesmo”.
Depois de defender sua dissertação de mestrado, também em consonância com seu momento existencial (“Filmando para que Você Não Morra: A Criatividade de Chantal Akerman e Jonas Mekas”), o irreverente Curvelo seguiu depurando sua sensibilidade. E trabalhando, sem descanso, em projetos de curtas e longas alheios, nas mais diversas funções. Aguardemos, pois, seu próximo longa-metragem.

Se a Bahia se fez representar por “Reparação”, o Ceará marcou presença com “Adulto/Homem”, do experiente Pedro Diógenes, formado nas lides criativas do coletivo Alumbramento, de Fortaleza. Depois de dois longas que obtiveram boa recepção crítica (“A Filha do Palhaço” e “Centro Ilusão”, ambos com a magnética presença do ator Demick Lopes), ele se viu desprovido de grana de editais. E “muito angustiado” por não estar filmando.
Resolveu, então, convocar 20 atores dispostos a submeter-se a teste de escolha de elenco para um possível filme. Contou, em seu intento, com a luxuosa colaboração do fotógrafo Ivo Lopes Araújo. Juntos engendraram o dispositivo central da narrativa: um plano-sequência, milimetricamente calculado, que deveria durar 70 minutos (a exata duração de “Adulto/Homem”).
O que se ouve dos “homens adultos testados” é cativante. Eles falam da dureza dos testes, em maioria finalizados de forma negativa, da angústia de não poder sustentar-se com o ofício que escolheram (a arte da interpretação), da recorrência a bicos capazes de garantir modesta sobrevivência (por exemplo, um anódino trabalho em call center, quando se desejava estar num palco ou num set de filmagem).
O que se ouve, no filme, não tem relação direta com a imagem. Só indireta. Ivo Lopes captará, com perícia aliciante, rostos marcados por poucos gestos. A luz, que irradia beleza e cores contrastadas, imantará nossa atenção.
Como definir esse “ovni cearense”? Vimos um documentário? Uma ficção? Os atores expressam suas angústias interiores? Ou interpretam possíveis dores para comover o “testador” de seus recursos dramáticos?
Nos créditos do “elenco” há nomes conhecidos do teatro e cinema cearenses, como Yuri Yamamoto (“Inferninho”), Davi Santos (“Quando Eu me Encontrar”, “Motel Destino”, “Pssica”) e o já lembrado Demick Lopes. Os fãs desse versátil ator cearense hão de lamentar sua não-aparição em cena. Só sua voz será ouvida. A dele e a de mais três atores, totalizando 24 no cômputo final).
No debate que se seguiu à exibição do filme, no Cinema do MON, Pedro Diógenes justificou a ausência da imagem de Demick:
— Realizamos o filme num único dia. Quem pôde estar conosco, esteve. Mas outros, como Demick Lopes, tinham compromisso naquele dia. Como faríamos um plano sequência milimetricamente cronometrado, a presença física de cada ator era obrigatória. No entanto, para não deixar o ator, grande parceiro e amigo, de fora, gravamos pelo menos a voz dele. E de mais três atores, o que garantiu, nesse filme feito com pouquíssimos recursos e movido por nossa paixão pelo cinema, a mobilização de 24 nomes de grande relevância. Tanto nos palcos quanto nos sets de filmagens de nossa cidade.
