“Babaçu Love”, filme piauiense, coloca “estética do exagero” na sudestina vitrine do Festival de Vitória

Por Maria do Rosário Caetano, de Vitória (ES)

Baixou um ovni, ou seja, um corpo estranho, na trigésima-terceira edição Festival de Cinema de Vitória — o longa piauiense “Babaçu Love”, de Cícero Filho, maranhense que fez de Teresina, capital do estado vizinho, sua cidade adotiva.

Quem frequenta festivais não costuma assistir a comédias similares a esta que presta tributo ao babaçu, ao “forró de plástico”, à breguice, às belezas verdejantes do Piauí interiorano e aos prédios tipo “farialimer” de Teresina.

“Babaçu Love” nasceu, 13 anos atrás, como projeto de comédia romântica embalada por ritmos forrozeiros e bregas. O diretor sonhava realizar um filme filiado à “estética do exagero” cômico. Ele mesmo construiu — durante o debate do filme, “aqui no Sudeste” — metáfora para seu primeiro longa profissional: “eu coloquei um pavão com o rabo aberto no meio da sala”. Ou seja, Cícero Filho dirigiu um filme marcado pelo excesso e disposto a despertar atenção como se fosse “um pavão”, que a todos seduz com sua cauda-resplendor.

O realizador maranhense-piauiense contou, inclusive, que sonhava colocar um pavão expondo sua beleza em cena, como Fellini fizera em “Amarcord” (genial comédia memorialística, na qual um pavão abre sua cauda em leque sob flocos de neve).

“Só que” — contou, com tristeza — “o único pavão que estava ao nosso alcance, foi abatido antes das filmagens, pois vinha causando problemas na vizinhança. Fiquei sem poder citar umas das cenas fellinianas que mais amo”.

Que a citação de Federico Fellini não induza o leitor a acreditar que Cícero Filho seja um cineasta cabeçudo. De forma alguma. Ele vem do cinema bagaceira, do faça como puder, diz que está “aprendendo a fazer fazendo”, que Vitória foi o único festival do Sul-Sudeste-Centro-Oeste a aceitar um filme dele. Que está muito agradecido, “feliz demais” em poder participar de um debate e mostrar “Babaçu Love” fora do eixo Piauí-Maranhão.

Cícero Filho e equipe do filme, na apresentação do filme no Festival de Vitória © Melina Furlan/Vikki Dessaune/Acervo Galpão IBCA

E, afinal, quem é Cícero Filho?

Um maranhense de Poção das Pedras, que cresceu sob a influência do pai, responsável pela TV Comunitária do município de apenas 17 mil habitantes. Ainda pré-adolescente começou a usar os equipamentos do pai para ensaiar suas primeiras produções. Na juventude, mudou-se para Teresina, onde formou-se em Jornalismo e contou com o apoio da Faculdade Santo Agostinho para gerar seus primeiros filmes. Tomou como modelo a Nollywood nigeriana. Ou seja, produções artesanais, sem orçamento, vendidas como DVDs piratas em feiras livres de pequenas cidades.
Em 2006, Cícero assinou “Entre o Amor e a Razão”. Seguiram-se “Ai que Vida” (2007, com 38 milhões de visualizações no YouTube) e “Flor de Abril” (2011, 3 milhões de visualizações). O cineasta e roteirista sentia-se capaz de assumir empreitada mais ambiciosa. Mas antes do grande passo, transformou-se em personagem do longa documental “Passarinho Lá de Nova Iorque” (2014), de Murilo Salles. Ou seja, saiu do “detrás da câmara” para o “à frente da mesma”, sob o comando do grande diretor de fotografia (“Eu te Amo”, “Tabu”) e cineasta carioca (“Com Nascem os Anjos”).

O documentário acompanha a batalha travada por Cícero Filho em busca de recursos para regravar a última cena de “Flor de Abril”, então seu último filme, cujo final não saíra a contento.

O maranhense idealizara, a partir dos três primeiros filmes e da experiência com Murilo Salles, realizar um longa-metragem escorado em orçamento digno, atores e técnicos profissionais, cenários elaborados, enfim, uma produção que estivesse mais para Bollywood, que para Nollywood. Esboçou, então, o primeiro roteiro de “Babaçu Love”. Isso, 13 anos atrás.

Encontraria, pelo caminho, muitas dificuldades de financiamento. Enquanto a grana não aparecia, ele ia mexendo no roteiro. De comédia romântica, sustentada nas venturas e desventuras da ambiciosa Diloura (a morena Amanda Odillon) e do sonhador Araújo (Alisson Emanoel), o filme transformou-se em comédia melodramática sobre a relação de Diloura com sua mãe Dona Paraibana (Gisele Vasconcelos), uma quebradeira de côco (do babaçu), engajada na lista das “Juradas de Morte” . Estas mulheres, de existência real, são tema de ensaio fotográfico de Márcio Vasconcelos, irmão da atriz que interpreta a sofrida Paraibana, perseguida, junto com suas companheiras, pelos proprietários de terras onde abundam os babaçuais.

“Fiz um filme com orçamento de R$1,8 milhão, cenários maranhenses e piauienses e 45 personagens” — contou Cícero Filho, ao lado de suas três principais atrizes (as protagonistas Amanda Odillon e Gisele Vasconcelos e a coadjuvante Dayse Bernardo, a Jerusa Peitão) e do ator Alisson Emanoel. Os cinco representantes de “Babaçu Love” eram só alegria e reconhecimento ao comando do festival capixaba, que ousara selecionar “um filme tão fora da curva”.

“Este será, sabemos disso, nosso primeiro e único festival no Sul-Sudeste”, concordou, em uníssono, o quinteto nordestino (Amanda é pernambucana, Gisele, piauiense, Dayse, maranhense de São Luís, Alisson, cearense, assim como Lailtinho Brega, o pai de Diloura, folgado e vocacionado para a jogatina). E há uma estrela da internet no filme, o comediante Whindersson Nunes, parça de Neymar, que fidelizou 44 milhões de seguidores no YouTube. Cabe a ele interpretar “o vértice do mal”, Ransquelson Ruschel, que dificulta a concretização do amor entre Diloura e Araújo.
O que mais causou espécie aos jornalistas, antes de assistir a “Babaçu Love”, foi sua duração: 2h05.
Como assim? Onde já se viu comédia brasileira construída com duração de épico? Conseguiria o desconhecido cineasta maranhense-piauiense manter o pique histriônico por longuíssimos 125 minutos?

O que levara Cícero Filho a optar por narrativa tão dilatada, dessas que quebram a grade de programação das salas de cinema, acostumadas a filmes de 90 ou 100 minutos?

Como é que um longa-metragem do Piauí vai conseguir distribuidor e exibidores dispostos a programar narrativa tão longa, com diretor e atores pouco (ou nada) conhecidos (exceção para Whindersson Nunes)?

Esta série de perguntas foi dirigida a Cícero Filho e equipe. Ele respondeu, com franqueza, mostrando-se aberto a qualquer questionamento. Sempre lembrando que estava aprendendo, nessa que foi a maior coletiva de imprensa (ou debate público) de sua vida.

“Não tenho distribuidora”, admitiu. “Procurei distribuidores por todo país. Estudei o caminho das pedras com o pessoal de “Muleque Té Doido”, fenômeno de bilheteria na nossa região. Recebi tantos nãos, que resolvi transformar minha produtora também em distribuidora. Como assim?, me perguntaram. Você não entende nada de distribuição!!! Pois agora vou entender, retruquei. Até que consegui com a Cinépolis, rede mexicana que possui um belo circuito no Brasil, 45 salas nos estados do Piauí e Maranhão. Nossa estreia está agendada para o dia três de dezembro. Depois, quem sabe, consigamos chegar ao Sudeste, Centro-Oeste e Sul do país. Esse é nosso sonho, pois queremos mostrar que o Piauí não é sinônimo de seca e pobreza. E que se orgulha de seus artistas e de suas histórias”.

Aí entra outra característica do filme: funcionar como cartão postal das belezas rurais e urbanas do estado nordestino, tido como um dos mais pobres do Brasil. O filme tem sequências que mostram a organização (em cooperativa) das quebradeiras de côco apoiadas pelo Estado, a importância do EJA (Educação de Jovens e Adultos-MEC) e até propaganda de Banco.

Cícero, mais uma vez, foi sincero: “Ou aceitávamos apoios institucionais ou não faríamos o filme”. Mas “vejam que não aceitamos apoio de Bets. Uma delas nos ofereceu R$1 milhão. Mesmo assim, recusamos. Contamos, sim, com apoio do Governo do Estado (Partido Trabalhadores), mas que não exigiu nada em troca em termos de roteiro. O filme que mostramos contém o que queríamos mostrar. Tanto que no primeiro dia de aula no EJA, frequentado por Diloura, Paraibana e colegas, há uma explosão que fere até a professora. Sim fizemos um merchandising de Banco, que nos ajudou muito. Sem essa ajuda não viabilizaríamos o filme”.

Sendo nordestino, Cícero avisa: “jamais mostrarei o Nordeste como sinônimo de seca e miséria. Não nego que há pobreza em nossa região. Assim como há muita beleza, riquezas culturais e paisagísticas, importantes centros urbanos. Por isso, mostro Teresina (903 mil habitantes) como uma metrópole. Mas é na capital do Estado que Diloura vai comer o pão que o diabo amassou, vai lavar privadas”.

A sequência mais incômoda do filme, a mais escatológica, tem justamente uma privada transbordante como foco visual. Tal apelação era mesmo necessária?

Para Cícero, sim. “Como sou praticante da ‘estética do exagero’, que reforça as camadas de humor do filme, eu quis apresentar essa sequência para mostrar as agruras de Diloura nos anos que ela passou em Teresina, tentando firmar-se como cantora. Gastamos muitos esforços naquela sequência. Claro que a merda que transborda era cenográfica, feita de chocolate, mas causou náuseas na Diloura”.

A atriz pernambucana Amanda Odillon, pândega por natureza (Cícero e seu produtor a encontraram em esquetes cômicos na internet, nos tempos de pandemia), reforçou o argumento do diretor. “Senti nojo do que saiu da privada, que eu estava limpando, mas suportei tudo, pois fui avisada que seria take único. Fizemos um filme de mais de duas horas, em muitas locações, com menos de R$2 milhões”.

Amanda esbanjou sua verve cômica. Contou que foi reprovada no teste, depois de deixar sua cidadezinha pernambucana e rumar para o eixo Piauí-Maranhão. “Na hora do teste, esqueci tudo que devia dizer, me deu branco total. Me pediram para chorar, não consegui. Me descartaram. Houve um segundo teste, mas também me saí muito mal. Resolvi ir embora para minha terra. Mas Cícero insistiu que eu ficasse”.

O diretor assegurou que, apesar dos testes desastrados, ele tinha firme intuição que Amanda Odillon era sua Diloura, loura falsa, oxigenada, que quebrava côco vestida de oncinha e toda maquiada. E andava de salto alto no meio das pedras.

“Por isso”, agregou o cineasta, “pedi ao preparador de elenco que cuidasse dela. O que ele fez por 15 dias, sem descanso. O resultado está nas telas e me agradou muito”. Já Dayse Bernardo, a Jerusa Peitão, vinha de papel de protagonista em “Flor de Abril”, que lhe valera o prêmio de melhor atriz, no Festival dos Sertões, em Floriano, no Piauí. Já Gisele Vasconcelos é atriz experiente e professora de teatro. E tinha muito a colaborar com o filme. Pertence a ela, aliás, a personagem mais consistente da longa narrativa de “Babaçu Love”.

A sorte está lançada. E ficam no ar mais duas perguntas: conseguirá o filme piauiense romper as fronteiras nordestinas?

E Cícero Filho, como seu colega cearense, Halder Gomes, conseguirá tornar-se um nome nacional (como o do diretor de “Cine Holliúdy”, filme que virou até série na Rede Globo)? Só o tempo dirá.

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