Camila Morgado recebe homenagem do Festival de Vitória em intervalo das filmagens de drama sobre exploração infantil na fronteira Oiapoque-Caiena
Foto: Vera Holtz e Camila Morgado © Melina Furlan/Sérgio Cardoso/Vikki Dessaune
Por Maria do Rosário Caetano, de Vitória (ES)
A atriz Camila Morgado usou seu dia de folga nas filmagens de “O Passeio de Dendiara”, novo longa-metragem da mineira Elza Cataldo, para receber, do Festival de Cinema de Vitória, tributo por sua trajetória no cinema, na TV e no teatro.
A cerimônia de entrega do Troféu Vitória, do Caderno da Homenageada e de joia exclusiva desenhada pela designer Carla Buaiz, aconteceu no palco do Cine-Teatro Sesc Glória, em clima dos mais descontraídos. Afinal, a dupla de apresentadores Fabrício Boliveira e Silvero Pereira estava inspirada e recebeu a homenageada com alegria e saudável irreverência.
Silvero até reencenou, com voz forte, frase cinematográfica que tornou-se emblemática na carreira da atriz — “Eu estou grávida de Luiz Carlos Prestes!!!”. Camila Morgado entrou no clima e, também no palco, embalada por atrevido (e decotado) terninho preto, repetiu a frase grandiloquente enfatizada pelo cineasta Jaime Monjardim no blockbuster “Olga” (2004).
Nunca é demais lembrar que Monjardim exerceu papel fundamental na carreira da jovem atriz petropolitana. Primeiro com a minissérie “A Casa das Sete Mulheres”, que a revelou e, depois, com sua adaptação cinematográfica do livro de Fernando Morais. Um best-seller dedicado à militante comunista Olga Benário, judia-alemã, entregue aos nazistas pelo Governo Vargas. A frase relembrada por Silvero e pela própria Camila foi parar até num famoso comercial do Canal Brasil.
A pegada festiva e bem-humorada da noite vitoriana prosseguiu com a entrada em cena da atriz escolhida para entregar o Troféu a Camila Morgado, a paulista (de Tatuí) Vera Holtz. A comédia ganhou escala e fez a alegria do público que lotava o Teatro Glória. Vera pediu licença para narrar a fábula do “Príncipe e da Sapa”.
Com sua verve histriônica, a atriz contou a história de um príncipe mimado que encontrou uma “sapa” em seu caminho. Depois de uma série de contratempos, ele foi obrigado a dar um beijo na batráquia. Que transmutou-se — no final feliz da fábula — na linda e talentosa Camila Morgado!
Num só dia em Vitória, pois regressaria a Belo Horizonte, base do filme “O Passeio de Dendiara” e escala para Caiena, na Guiana Francesa, Camila cumpriu agenda sem descanso, neste que deveria ser seu dia de folga. Atendeu, um por um, a diversos jornalistas, esteve no centro de coletiva de imprensa ao lado de Paulo Góis Bastos e Leonardo Vais, autores do Caderno da Homenageada, e arrumou-se, emoldurada por seus longos cabelos ruivos e olhos escandalosamente azuis, para a cerimônia de premiação.
Aos 51 anos, a atriz vive momento especial. Nem pôde participar das três coletivas (na Serra Gaúcha, no Rio de Janeiro e em São Paulo) do Festival de Cinema de Gramado, do qual é uma das curadoras. Mas, ponderou, “me ausentei por razão muito especial”: “Estou trabalhando, exercendo meu ofício, a coisa que mais gosto de fazer na vida”.
Além de “O Passeio de Dendiara”, adaptação de livro homônimo de Ana Beltrame para o cinema, Camila tem mais dois filmes (estes já concluídos) para mostrar — “Nova Éden”, thriller com tintas de horror, de Aly Muritiba, que se passa, cem anos atrás, numa vila de imigrantes no Sul do país, e “Sedução”, de Zelito Vianna e Marcos Palmeira. Neste, ela interpreta a atriz Sara Teixeira, companheira de Paulo, personagem do codiretor Marcos Palmeira.
“O Passeio de Dendiara” baseia-se em história real, ambientada no submundo do garimpo e da prostituição infantil. Camila interpreta Isabel Valoni, cônsul-geral do Brasil na Guiana Francesa. A diplomata irá se deparar com o caso de uma menina de 11 anos, que está grávida e foi encontrada no Oiapoque, em zona fronteiriça, entre a nossa Amazônia e a Guiana.
Na conversa com a imprensa e com o público, realizada no Hotel Sesc Ilha do Boi, Camila Morgado mostrou-se uma atriz muito preparada, dotada de senso de humor e com muita história para contar.
A Revista de CINEMA pediu a ela que avaliasse três de seus filmes (o argentino “Vergel”, de Kris Niklison, e os brasileiros “Domingo”, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa, e “O Animal Cordial”, de Gabriela Amaral Almeida). E que revelasse o que sentira ao assistir, pela primeira vez, ao anúncio do Canal Brasil, no qual a atriz Fabiula Nascimento a imitava (em “Olga”) com a frase “Eu estou grávida de Luiz Carlos Prestes!!!!”
“Adorei o anúncio do Canal Brasil, me diverti muito!”, contou, bem-humorada. E acrescentou: “Fabiula é uma grande atriz, eu ri muito todas as vezes em que pude assistir ao anúncio”.
Camila lembrou, com emoção, três dos 14 filmes em que atuou, desde sua estreia (cinematográfica) em “Olga” (2004). Primeiro, a jovem petropolitana estreou no teatro. Depois, na TV, em “A Casa das Sete Mulheres” (2003). “Praticamente emendei a série no filme, saí das gravações, no Rio Grande do Sul, para os estúdios onde filmamos ‘Olga’”.
Vergel (2017) — “Um roteiro lindo, escrito pela diretora Kris Niklison, uma cineasta argentina muito talentosa. Tudo começa quando uma mulher sem nome, minha personagem, perde o marido em Buenos Aires. Eles estavam ali desfrutando de viagem a dois. De repente, ela se vê obrigada a liberar o corpo morto do marido, em meio a múltiplos entraves burocráticos. O filme, então, registra os estágios do luto. A morte, todos sabemos, é um tabu. Morte, finitude… isso nos perturba muito. Vivemos como se aquilo não fosse acontecer. ‘Vergel’ foi o maior B.O. (filme de baixo orçamento) da minha carreira. Não havia dinheiro para nada. Filmamos no apartamento da Kris. Um apartamento pequeno. E ela queria que eu dormisse lá. Ponderei que era melhor arrumar um hotel. Eu ia desse hotel para o set de filmagem (o apartamento da diretora) de bicicleta. Esse filme, do qual gosto muito, me tirou da zona de conforto. Nós, atores, somos vaidosos. Por isso, é bom lembrarmos de onde viemos. Eu vim do interior do Rio, de Petrópolis, ‘cidade imperial’. Mas a minha Petrópolis nada tinha de imperial. Meu pai era comerciante e minha mãe dona de casa. Fiz trabalhos comuns (como distribuir panfletos de filme em locais movimentados, montei pratos em restaurantes) até me firmar na carreira. Voltando ao ‘Vergel’. Não foi fácil, muita coisa dava errado, o elevador quebrava. Mas compensava fazer aquele filme, pela delicadeza feminina, por tratar de uma mulher jovem que perde o amor da sua vida. Que tem que viver o luto num país que não é o dela. Eu não falava espanhol. No máximo um portunhol. O filme me trouxe humanidade. Na hora mais dolorosa da perda, a gente se confunde com o morto. Mas tem que voltar a viver, se reconectar com a vida. No caso dela, que estava num apartamento com muitas plantas, ela começa a regar os vasos, a redescobrir a vida. Foi muito bom fazer esse filme”.
O Animal Cordial (2017) – “A Gabriela (Amaral Almeida) é uma diretora muito inteligente. E que gosta do ator. Sim, tem diretor que não gosta! Uns gostam, outros não. Ela ama. E tem ideias ousadas, maravilhosas. Gabriela preparou o elenco junto com René Guerra. O processo foi muito rico. Um processo que nos modificou. O que vivemos nos bastidores foi muito diferente de tudo que eu vivera até então”.
Domingo (2019) – “Esse filme me trouxe muitas alegrias. Filmamos em Pelotas, no mesmo lugar onde fizéramos ‘A Casa das Sete Mulheres’, uns 15 anos antes. Encontrei moças e rapazes que vi pequenos, quando gravávamos a série da TV Globo. Filmamos o longa em 2017. Nosso roteiro, escrito pelo Lucas Paraizo, situa-se no dia anterior à posse do Lula na presidência da República (janeiro de 2003). E traz a visão classista de uma família burguesa do interior do Rio Grande do Sul. Seus integrantes se reúnem em uma velha mansão campestre para um churrasco, enquanto o país aguarda a posse do presidente. Um presidente vindo da classe trabalhadora, que não é bem visto pelos integrantes daquela família. Nem ele, nem os trabalhadores em geral. Minha personagem, Bete, parece uma estrangeira naquele lugar. Ela se uniu à família, mas nem gaúcha era. Causava desconforto com suas atitudes transgressoras, com seu humor ácido, com sua coragem de falar o que lhe viesse à cabeça, por mais inconveniente que fosse. E gostava de sexo, de beber, de usar droga. O Lucas Paraizo, que escreveu o roteiro a partir de memórias da infância, me ajudou a encontrar a essência da personagem. Quando o filme ficou pronto, Lula estava preso. Eu, que assistira “Olga” com ele e Dona Marisa, no Cineminha do Alvorada, uns 15 anos antes, queria muito que ele visse ‘Domingo’. Quem nos levou, a equipe de ‘Olga’, ao Palácio da Alvorada foi o escritor Fernando Morais, autor do livro. Caco Ciocler (intérprete de Luiz Carlos Prestes) e eu assistimos ao filme ao lado de Lula e Dona Marisa. Depois jantamos com eles. Saiu até matéria no Jornal Nacional. Com aquela bela lembrança guardada, liguei para Papito (apelido que ela deu a Fernando Morais) e disse que queria muito que Lula assistisse ao nosso novo filme. Providenciamos uma cópia em vídeo, que Fernando levou junto com uma cartinha escrita por mim (ao ex-presidente) dizendo que queria muito que ele visse nosso novo trabalho. Ele viu e me respondeu: ‘Minha filha, o filme de vocês fala muito do nosso país, venha me visitar quando puder’. Quando ele saiu da prisão, pude vê-lo, e ele falou: ‘Camilinha, gostei muito do filme de vocês’”.
No encontro com os jornalistas, Camila Morgado defendeu “a função social da arte”. E lembrou que “O Passeio de Dendiara” aborda tema doloroso, mas muito relevante. “O livro e o filme mostram dura realidade vista no Norte de nosso país, mas não só lá. Uma criança de 11 anos, grávida e explorada. Mulheres que são avós aos 30 anos, pois engravidaram muito novas e o mesmo acontece com suas filhas. A exploração infantil é algo horroroso, mas acontece. Temos que falar e refletir sobre isso”.
