Di Marco e Picoli mostram “Pequeno London” no Festival de Vitória e vão a Veneza com o longa queer “London”

Foto: “London” © Ma Villa Real

Por Maria do Rosário Caetano, de Vitoria (ES)

A dupla gaúcha Victor Di Marco e Márcio Picoli mostra, nessa segunda-feira, 20 de julho, no Festival de Cinema de Vitória, o curta “Pequeno London”, selecionado para a principal competição do evento capixaba.

Daqui a sete semanas, no dia 6 de setembro, os dois diretores estarão na Itália, para participar do Festival de Veneza, o mais antigo do mundo, e apresentar o longa queer “London”, na Semana da Crítica.

O jovem Victor Di Marco, que é portador de deficiência, vem chamando atenção nos festivais brasileiros pela ousadia e inventividade de seus filmes. Além de diretor, ele é ator e protagonista de suas narrativas. É, também, roteirista.

O sucesso da dupla portoalegrense — do primeiro curta (“Zagêro”, 2025) até a seleção pela Bienalle veneziana — foi impressionante. No prazo de quatro anos, Di Marco e Picoli realizaram quatro curtas (“Pequeno London” é o quarto) e um longa-metragem. E receberam o Troféu Iecine Inovação.

“Zagêro” foi exibido no Cine PE, no Recife, na mesma edição vencida pelo longa “Memórias de um Esclerosado”, de outro portador de deficiência (o quadrinista gaúcho Rafael Corrêa). Ambos causaram merecido frisson. A trajetória da dupla gaúcha prosseguiria, de forma vertiginosa, com os curtas “O que Pode um Corpo?” e “Possa Poder”, e chamaram atenção nas cerimônias do Prêmio Grande Otelo, atribuído pela Academia Brasileira de Cinema. A sessão de gala de “London” acontecerá no dia seis de setembro.

Filmado em Porto Alegre, o longa mostra seu protagonista, jovem performer, portador de deficiência (o London do título), que busca a chance de descobrir origem e destino de sua deficiência. O fará através de exames médicos.

O rapaz ganha a vida fazendo performances eróticas em casa de fetiches. Depois do acesso aos referidos exames, ele terá que decidir se sua vida será guiada por um diagnóstico ou por seus sonhos.

A sinopse do filme detalha: “Ao deparar-se com um mundo míope e distorcido à sua presença, o protagonista terá que reinventar forças para se libertar e descobrir quem realmente é”. E mais: “apesar dos tabus e das crenças que cercam corpos situados para além da lógica binária e funcional (sustentada pela estrutura capacitista), o longa traz corpos que vibram, que desejam, que vivem e se retiram de toda patologização que a sociedade impõe, questionando discursos normativos que historicamente os reduzem à inadequação”.

Além do protagonista Victor Di Marco, o elenco reúne Carla Cassapo, Jéssica Teixeira, Pedro Bertoldi, Priscilla Colombi, Emilio Farias e Manu Thedy. A direção de arte é de Valeria Verba. O craque Bruno Polidoro assina a fotografia.

Os diretores Di Marco e Picoli contam que “a realização do filme foi atravessada por inúmeros desafios, como enchente catastrófica às vésperas das filmagens, durante a qual recursos de produção, de grande importância, foram perdidos”.

No material de divulgação de “London”, destaca-se a opinião de Beatrice Florentino, diretora da Settimana Della Critica. Ela destacou “a segurança, precisão e maturidade emocional” do filme. E acrescentou: “London é uma celebração da vida, da delicadeza, do desejo e do amor. Um filme que abraça a sexualidade como uma força vital, recusa rótulos e nos lembra que o maior ato de coragem é simplesmente habitar o presente”.

“Pequeno London”

No catálogo do Festival de Vitória, que hoje exibirá “Pequeno London”, conhecemos a premissa que serve de base ao curta gaúcho: “Crescer ouvindo que nenhum pai ou mãe desejaria ter um filho com deficiência constitui a memória íntima e dolorosa do diretor Victor Di Marco”.

Por isso, em seu quarto curta-metragem, realizado em parceria com Márcio Picoli, ele aborda “a deficiência como forma singular de inteligência corporal e tensiona a lógica eugenista ainda presente na sociedade”.

Por isso, os diretores propõem mudança de perspectiva sobre a deficiência, afastando-se da lógica negativa.

“A deficiência, historicamente, costuma ser vista por lógica negativa: como falha, fracasso ou prejuízo. No entanto, entendemos a deficiência como uma forma singular de inteligência corporal, uma característica própria daquele corpo e de sua maneira de existir no mundo”.

O filme ganha ainda mais atualidade diante dos debates recentes sobre aborto de crianças com deficiência:

“‘Pequeno London’ torna-se ainda mais atual ao tensionar questão que já estava presente desde a concepção do filme: o quanto nossa sociedade ainda opera sob uma lógica profundamente eugenista, na qual a ciência e a medicina frequentemente são direcionadas para a ideia de correção e cura, em vez do cuidado, da autonomia e da valorização das vidas com deficiência.”

A produção do filme, por sua vez, destaca o processo de realização do curta gaúcho:

“Foi um processo bonito e coletivo, mas também desafiador, especialmente por ser a primeira vez que os diretores trabalhavam com crianças e um protagonista infantil. Isso exigiu escuta diferente, mais tempo de construção e uma dinâmica de set bastante específica.

E mais: “A escolha do ator para o papel de protagonista tornou-se um reflexo simbólico do próprio filme. Durante a seleção, os diretores depararam-se com surpresa adversa. Ao lerem a história, muitos pais de crianças com deficiência não autorizavam a participação dos filhos, justamente por discordarem do tema ou da forma como o filme tensionava determinadas questões. Esse obstáculo terminou por evidenciar a tensão dramática que move o filme”.

Di Marco e Picoli destacam, no mesmo catálogo do Festival de Vitória, que “‘Pequeno London’ é um filme bastante diferente do que costumamos fazer”. Mesmo assim, “acreditamos muito no seu potencial de conexão com o público”, por tratar-se de “obra sutil e sensível” e, por isso, “capaz de provocar reflexões profundas e diálogos importantes”.

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