U.S. Film & TV Production Coalition: os Estados Unidos se mobilizam. E o Brasil?
Por Steve Solot
A criação da nova U.S. Film & TV Production Coalition envia uma mensagem inequívoca ao mercado audiovisual internacional: os Estados Unidos decidiram intensificar a disputa global por produções, investimentos e empregos.
Criada em 2026, a coalizão reúne algumas das mais importantes organizações da indústria audiovisual americana, representando produtores, diretores, roteiristas, atores, técnicos, músicos, sindicatos e fornecedores em torno de um objetivo comum: estabelecer um incentivo federal à produção cinematográfica e televisiva realizada nos Estados Unidos.

O fato é particularmente significativo porque os EUA já contam com robustos incentivos estaduais. Mesmo assim, a maior indústria audiovisual do mundo considera necessário criar também um mecanismo federal para enfrentar a crescente competição internacional.
Uma mobilização nacional
A nova coalizão transforma a questão dos incentivos em uma ampla mobilização da indústria americana. Um personagem teve papel importante na aceleração desse movimento: Jon Voight, ator vencedor do Oscar e nomeado por Trump Embaixador Especial para Hollywood. Voight levou diretamente ao presidente a proposta de um incentivo federal, e o respaldo presidencial deu novo impulso às articulações no Congresso. O incentivo federal em discussão seria complementar aos programas estaduais existentes. Ou seja, os Estados Unidos não pretendem substituir seus atuais mecanismos, mas aumentar ainda mais sua capacidade de competir por produções.
A disputa é por empregos e investimentos
A mobilização americana demonstra que os incentivos à produção deixaram definitivamente de ser apenas instrumentos de política cultural. São instrumentos de política econômica e competitividade internacional. Uma grande produção movimenta uma extensa cadeia de profissionais e empresas: técnicos, equipamentos, construção, transporte, hotelaria, alimentação, pós-produção, efeitos visuais e inúmeros fornecedores locais.
Por isso, a competição não é simplesmente por filmes e séries, mas por investimentos, empregos, tecnologia e desenvolvimento econômico. Um estudo da Olsberg•SPI, encomendado pela Motion Picture Association, estima que um incentivo federal poderia gerar cerca de US$ 125 bilhões adicionais em gastos de produção entre 2027 e 2035 e sustentar, em média, aproximadamente 143.500 empregos adicionais por ano.
México já saiu na frente
Para o Brasil, o exemplo do México deveria servir de alerta. Em fevereiro, o governo mexicano criou o Estímulo Fiscal a la Producción Cinematográfica y Audiovisual (EFICA), estabelecendo um crédito fiscal transferível de até 30% do custo total do projeto ou processo de produção realizado no território mexicano, sujeito às condições e aos limites do programa. O objetivo é atrair investimentos, gerar empregos, fortalecer fornecedores nacionais e desenvolver a cadeia de valor audiovisual. O México não ficou esperando: criou um instrumento nacional para aumentar sua competitividade.
E o Brasil?
O Brasil possui profissionais qualificados, infraestrutura, diversidade de locações e reconhecida capacidade criativa, e Rio de Janeiro e São Paulo também oferecem importantes mecanismos locais. Mas o país continua sem um incentivo federal de produção competitivo e de alcance nacional. Enquanto outros países fortalecem seus mecanismos de atração de produções, agora até os Estados Unidos — que já possuem alguns dos mais importantes incentivos estaduais do mundo — se mobilizam para acrescentar um incentivo federal. Há um sinal de esperança: o PL 1780/2026, em tramitação no Congresso Nacional, propõe crédito fiscal transferível de até 35% e reembolso de até 30%, sob gestão da ANCINE. Mas o projeto ainda aguarda análise nas comissões da Câmara dos Deputados.
A criação da U.S. Film & TV Production Coalition torna o recado ainda mais claro: a competição global está acelerando e o Brasil não pode continuar parado. Se até a maior potência audiovisual do mundo considera necessário reforçar sua competitividade com um incentivo federal, quanto mais tempo o Brasil pode esperar para implementar o seu?
Steve Solot é Presidente do Latin American Training Center (LATC), membro do Conselho da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) e coordenador do Comitê de Entretenimento e Turismo da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro
