Atriz baiana Maria Ribeiro, a Sinhá Vitória de “Vidas Secas”, morre em Genebra, na Suíça, aos 102 anos

Por Maria do Rosário Caetano

Maria Ribeiro seria apenas uma funcionária anônima de laboratório cinematográfico — mais uma baiana radicada no Rio de Janeiro, portanto migrante nordestina — se um dia Nelson Pereira dos Santos não a convidasse para protagonizar aquele que seria seu filme mais importante, “Vidas Secas” (foto), recriação do romance de Graciliano Ramos.

Pois Nelson não vacilou. Convidou a baiana de Boqueirão, município de Sento Sé, já próxima dos 40 anos, para interpretar Sinhá Vitória, mulher de Fabiano (Átila Iório, que vinha de um êxito retumbante, “Assalto ao Trem Pagador”) e mãe de dois meninos sem nome.

Inexperiente demais para interpretar papel tão grande e importante?

O diretor de “Rio 40 Graus”, “Rio Zona Norte” e “O Boca de Ouro”, no auge de sua criatividade, nem quis saber. Colocou a funcionária da Líder a deambular pelos sertões secos do Brasil. Tudo em busca de uma vida melhor. Dura caminhada que faria na companhia, além da família errante, de dois bichos — a cachorra Baleia e um papagaio.

A atrevida ousadia de Nelson foi acompanhada pelo atrevimento ousado de Maria Ramos da Silva, a baiana que foi, ainda criança, de Boqueirão para a vizinha Juazeiro, dali para a mineira Pirapora, até dar com os costados no Rio, onde desempenharia modestos trabalhos destinados a moças pobres. Até integrar os quadros da Líder, laboratório da maior importância na história do cinema brasileiro. Sua prosa fácil e traquejo social fariam dela uma amiga querida da turma do cinema, em especial os moços do Cinema Novo.

O resultado do trabalho artístico da baiana, que chegara ao posto de chefe de expedição dos Laboratórios Líder, foi formidável. Concentrado, mínimo, essencial. “Vidas Secas” foi selecionado para o Festival de Cannes de 1964 (ano de golpe militar e de glória cinematográfica, pois o Brasil disputou a Palma de Ouro também com “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha).

A carreira de Maria Ribeiro prosseguiria até os anos 2000, quando ela já ultrapassara 80 bem-vividos anos. Teve, como fecho de carreira, sua imagem impressa numa ficção (“As Tranças de Maria”) e num curta divertidíssimo — “Como se Morre no Cinema”— um doc-comédia, de Luelane Loiola Corrêa.

No primeiro filme, ambientado no Brasil Central, ela fez uma participação especial. No segundo, aparece, muito bem-vestida (gostava de cultivar discreta elegância), ao lado de Nelson Pereira dos Santos, para rememorar “uma das cenas mais difíceis” de “Vidas Secas”. Aquela em que sua personagem era obrigada, premida pela necessidade, a degolar o papagaio, bicho de estimação de sua família retirante. Teria que transformar a ave falante em alimento. A fome era brutal. Na terra seca não havia nada para comer.

Maria Ramos da Silva morreu em Genebra, na Suíça, no último dia 29 de dezembro. Morreu ao lado da filha Wilma Lindomar da Silva, de netos e bisnetos. Tinha 102 anos. Ela nasceu em 25 de março de 1923. Quando tornou-se centenária, o repórter Luís Osete escreveu, na revista Piauí (número 200, maio de 2023), texto de grande beleza sobre a trajetória dessa migrante que tornara-se atriz e vivia suas últimas décadas na Europa.

Ninguém pense que Maria Ribeiro era naïfe, ingênua. De forma alguma. Era inteligente, cheia de iniciativa, muito articulada, sedutora. E, realmente, muito elegante. Em 2008, ela foi convidada pelo Festival de Brasília do Cinema Brasileiro a estar na mais antiga festa cinematográfica de nosso país (criada em 1965 por Paulo Emílio Salles Gomes e equipe). Ela tinha 85 anos. Vestiu-se com categoria e fez-se acompanhar por discreta bengala. Mais para garantir-lhe um caminhar desenvolto, que por urgência física.

Acabou encantando aos que reconheceram naquela mulher de origem afro-indígena-lusitana a grande intérprete de Sinhá Vitória. E, também, da mulher que abandonava Augusto Matraga (Leonardo Villar), no filme de Roberto Santos, do qual Nelson Pereira dos Santos fora um dos produtores. Filme baseado no conto de Guimarães Rosa que lhe deu o nome, “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”, e que foi musicado por Geraldo Vandré.

Depois, Maria Ribeiro atuaria em “Os Herdeiros”, de Carlos Diegues e em “O Amuleto de Ogum”, de Nelson Pereira dos Santos, que a escalaria para o papel da mãe do jovem protagonista, Gabriel (Ney Sant’Anna). E mais: atuaria no único longa-metragem dirigido pela atriz Vanja Orico (“O Segredo da Rosa”); no fascinante “Perdida”, do mineiro Carlos Alberto Prates Corrêa, e em “Soledade”, adaptação de Paulo Thiago para o romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida. E, pela última vez, daria vida a uma personagem fictícia, sob direção do amigo e descobridor Nelson Pereira dos Santos (1928-2018), em “A Terceira Margem do Rio”, fruto de adaptação de vários contos de João Guimarães Rosa.

Maria Ribeiro interpretou, nesse filme, a avó de uma menininha milagreira, a Nhinhinha (Bárbara Brant), de olhos profundos e dons sobrenaturais. Que dizia “deixa, deixa!”. E a todos encantava.

O longa-metragem foi rodado no município de Paracatu, no noroeste de Minas, e numa favela periférica do Distrito Federal, recriada em terreno que circundava a sede do Polo de Cinema de Brasília, na cidade-satélite de Sobradinho. Tudo isso num tempo em que o cinema brasileiro vivia uma de suas maiores crises, provocada pelo desmonte da Embrafilme e do Concine, empreendida pelo Governo Collor.

Maria Ramos da Silva será enterrada — segundo assegura Luís Osete no portal JBrito Notícias — “no Cemitério Municipal de Carabanchel, em Madri, capital da Espanha”. Grande conhecedor da trajetória de Maria Ribeiro, Osete escolheu, com propriedade, o título de sua matéria na Piauí: “UM SÉCULO SOB O SOL – Atriz de Vidas Secas Faz 100 Anos”.

Parte de seus 102 anos, a sertaneja Maria viveu sobre a neve, na gelada Suíça, que hoje pranteia os mortos do último Réveillon, vítimas de incêndio em boate nos Alpes. E seu corpo peregrino descansará em um cemitério madrilenho.

FILMOGRAFIA

1963 – “Vidas Secas”, de Nelson Pereira dos Santos
1965 – “A Hora é Vez de Augusto Matraga”, de Roberto Santos
1970 – “Os Herdeiros”, de Carlos Diegues
1974 – “O Amuleto de Ogum”, de Nelson Pereira dos Santos
1974 – “O Segredo da Rosa”, de Vanja Orico
1975 – “Perdida”, de Carlos Alberto Prates Corrêa
1976 – “Soledade”, de Paulo Thiago
1993 – “A Terceira Margem do Rio”, de Nelson Pereira dos Santos
2002 – “As Tranças de Maria”, de Pedro Rovai
2002 – “Como se Morre no Cinema”, curta-metragem de Luelane Loiola Corrêa

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