Daniel Handler marca presença na Netflix com “27 Noites” e causa sensação com “Um Cabo Solto”, comédia minimalista uruguaia
Foto: “27 Noites”, de Daniel Hendler
Por Maria do Rosário Caetano
Daniel Hendler, ator e diretor uruguaio, está festejando seus 50 anos com uma série de seis novos filmes. Um deles, “27 Noites”, comédia dramática refinada e de grande apelo popular, está disponível na programação da Netflix.
Este filme, quarto longa-metragem de Hendler como diretor (somado a “Norberto Apenas Tarde”, “O Candidato” e “Un Cabo Suelto”), foi indicado em 12 categorias do Prêmio Condor de Prata, láurea mais duradoura do cinema argentino, entregue anualmente pela Associação dos Cronistas Cinematográficos do país vizinho. A septuagésima-terceira edição do prêmio será realizada mês que vem, em Buenos Aires.
Na mesma cerimônia, que elegerá os melhores filmes e séries de TV da argentina, Daniel Hendler disputará, com outro de seus longas-metragens, “Un Cabo Suelto”, a categoria melhor coprodução (entre Argentina e parceiros). Em “27 Noites”, ele se multiplica nas funções de ator-protagonista, roteirista e diretor. Já no “Um Cabo Solto” conseguiu se colocar apenas atrás das câmaras.
Além dos envolventes “27 Noites” e “Um Cabo Solto”, Hendler marca presença em mais quatro longas-metragens realizados (ou lançados) nos últimos dois anos. Boa parte deles o colocou na condição de pré-candidato a diversas categorias de outro prêmio — o Platino, promovido pela Fipca e Egeda da Espanha e por Academias de Cinema da América Latina. A décima-terceira edição dos Prêmios Platino, destinados ao reconhecimento dos melhores filmes e profissionais do audiovisual ibero-americano, acontecerá no dia nove de maio, na Riviera Maya, no México.
Hendler protagoniza “27 Noites” ao lado da veterana Marilú Marini. No caso de “Um Cabo Solto”, ele preferiu mobilizar um time de atores uruguaios e argentinos. Entre estes, Germán De Silva, que ganhou reconhecimento com o cult “Las Acácias” (Pablo Giorgelli, 2011). Nos outros filmes dessa temporada tão especial, Daniel Handler exerce seu ofício mais recorrente, o de ator.

Em “Quase Deserto”, do brasileiro José Eduardo Belmonte, o uruguaio-argentino atua como protagonista ao lado de Angela Sarafyan e Vinícius de Oliveira. O filme, que aborda o tema da imigração ilegal, foi rodado em Detroit, nos EUA.
No longa espanhol “O Silêncio de Marcos Tremmer”, de Miguel García de la Calera, Hendler desempenha papel importante (o de um médico que acompanha os problemas do irmão, publicitário bem-sucedido, que se descobre portador de grave tumor canceroso).
Os títulos que completam sua lista de produções realizadas nos dois últimos anos são “Velha Louca”, de Martin Mauregui, que o uniu à veterana Carmen Maura, e “El Tema del Verano”, que o colocou, mais uma vez, sob a direção de Pablo Stoll.
Os dois filmes se situam no campo do suspense e do terror. O primeiro, uma produção espanhola, traz o descolado José Antonio Bayona (diretor de “A Sociedade da Neve”) na retaguarda. O segundo é uma produção uruguaia, que se equilibra entre o fashion e o trash.
Um realizador e ator envolvido em tantos filmes (sem contar as séries de TV) no prazo de 24 meses, merece um olhar retrospectivo. Nascido no seio de família judaica uruguaia, pai comerciante e mãe apaixonada pelo teatro, Daniel Hendler Schutz (Montevideo, 03/01/1976) optou pelas artes.
Depois de alguns curtas, estreou no longa “25 Watts” (2000), dirigido por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. O filme causou uma pequena revolução no cinema uruguaio. Hendler era um dos três protagonistas (rapazes que zanzavam, entediados, pela cidade de Montevideo).
Quatro anos depois, acontecia o lançamento de “Whisky”, cult dos cults uruguaios, dirigido pelos mesmos Rebella e Stoll. Hendler estava no elenco, em papel secundário.
Em 2006, portanto dois anos depois do sucesso de “Whisky”, exemplar máximo do “minimalismo melancólico uruguaio”, Juan Pablo Rebella colocaria um ponto final em sua vida. Mal entrara em sua terceira década de existência.
Feito o luto, a vida seguiu. A carreira do jovem Daniel Hendler se consolidava a cada novo filme. Em especial em solo argentino, onde iniciara fértil parceria com o cineasta Daniel Burman. Tudo começou com “Esperando o Messias”, que Hendler protagonizou, cercado de astros como o argentino Hector Altério, o espanhol Imanol Arias e a italiana Stefania Sandrelli. Ela, a inesquecível protagonista de “Nós que nos Amávamos Tanto” (Ettore Scola, 1974), ao lado de Vittorio Gassman e Nino Manfredi.
O filme argentino alcançou boa aceitação e chegou até ao circuito comercial brasileiro. Tudo aconteceu naquele momento em que “Nove Rainhas” (Fabián Bielinsky, 1999-2000), servia de plataforma para o sucesso de Ricardo Darín e abria portas (e telas) para a produção hispano-americana.
A consagração dos dois Daniéis (Burman e Hendler) aconteceria em seguida, com “O Abraço Partido”. Exibido no Festival de Berlim de 2024, o filme renderia Prêmio Especial do Júri ao diretor e Urso de Prata de melhor intérprete a Hendler.
Dali em diante, a carreira do jovem ator romperia as fronteiras platinas. Só no Brasil, ele atuaria em cinco longas-metragens. O primeiro foi “Cabeça a Prêmio”, de Marco Ricca (2009), seguido de “Entre Vales”, de Philippe Barcinski (2013), “Severina”, de Felipe Hirsch (rodado no Uruguai, 2017), “Uma Noite Não É Nada”, de Alain Fresnot (2019) e “Quase Deserto” (José Eduardo Belmonte, 2025). Este filme, lançado recentemente no Brasil, seguirá, agora, rumo aos mercados uruguaio, argentino, chileno e peruano.
Abaixo, alguns destaques recentes da carreira de Daniel Hendler como ator e/ou diretor.
27 NOITES | 27 Noches
Netflix, 107 minutos, 2025
Nessa produção argentina, em parceria com Espanha e Uruguai, Hendler e a veterana Marilú Marini jogam um bolão. Ela, no papel de Martha Hoffman, de 83 anos, mulher rica e excêntrica, que as filhas desejam interditar judicialmente. Afinal, temem que a mãe arruine o vigoroso patrimônio familiar. Pra frentex como ela só, a idosa patrocina aventuras artísticas de integrantes de libertário (e muito louco) centro cultural, promove festas e distribui presentes caros. Cabe a Hendler uma difícil missão: como perito judicial, ele deverá colher os subsídios necessários para que o Poder Judiciário decida se Martha é sã. Ou senil e extravagante, portanto, necessitada de curatela. Ou, em caso extremo, de internação psiquiátrica.
Minucioso, o perito exercerá seu ofício com muita dedicação e ajudado por diligente colega. O filme baseia-se no romance biográfico “Veintesite Noches”, da argentina Natalia Zito, publicado em 2021. A autora buscou sua matéria-prima na história da artista plástica Natália Kohen, que foi erroneamente diagnosticada com a doença de Pick e internada, contra sua vontade, numa clínica psiquiátrica. Lá ela viveu por 27 noites. Mas processo judicial determinaria que a idosa da vida real, de 87 anos, dispunha de boa saúde. Por isso, ela foi libertada. Hendler conseguiu somar, com talento, contenção e frescor, as atividade de diretor e ator protagonista de “37 Noites”. E o desempenho de Marilú Marini, que, inclusive já trabalhou sob direção de Claire Denis (“Problemas Todos os Dias”, 2001), é formidável.
UM CABO SOLTO | Un Cabo Suelto
Produção do Uruguai, em parceria com a Argentina, 95 minutos, 2025
Nessa história, o ator Daniel Hendler se recolheu, dando espaço apenas ao diretor. Para protagonizar o filme foi escalado o ótimo (e contido) Sergio Prina. Ele interpreta Santiago, um policial argentino, cabo por patente, que foge para o Uruguai e tenta reconstruir sua vida na fronteira. Numa loja de conveniência de beira de estrada, ele conhecerá Rocío (Pilar Gamboa) e ficará fascinado por ela. Em clima de road movie, Santiago continuará suas andanças e se relacionará com outros personagens, muitos deles interpretados por grandes nomes do cinema uruguaio, como Cesar Troncoso (“O Banheiro do Papa”) e Néstor Guzzini (“Meu Mundial” e “Queimadura Chinesa”).
“Un Cabo Suelto” passou pelo Cine Ceará e pelo Festival do Rio e ainda não foi comprado para distribuição no circuito comercial brasileiro. Se alguma de nossas distribuidoras se arriscar, o público poderá fruir dessa deliciosa comédia dramática minimalista, com alguns toques de melancolia, bem ao estilo uruguaio. Um filme indicado a quem se encanta com a beleza (e, às vezes, sutilezas) da vida cotidiana.
QUASE DESERTO
Brasil-EUA, 106 minutos, 2025, produção de Sarti Wertheim e Rune Tavares
O brasileiro José Eduardo Belmonte conheceu Daniel Hendler no Festival de Chicago, nos EUA. Das conversas, surgiu o desejo de trabalharem juntos. Nasceu, então, projeto focado na imigração ilegal, tendo Detroit, outrora capital da indústria automobilística, como cenário. O filme tornou-se realidade e tem percorrido festivais ibero-americanos. O último foi o de Málaga, na Andaluzia. Hendler contracena com Angela Sarafyan, 42 anos, atriz norte-americana de origem armênia, e com o carioca Vinícius de Oliveira, revelado por “Central do Brasil”, de Walter Salles. Completam o elenco as brasileiras Alessandra Negrini e Thais Gulin, mais Deborah Chenaut-Green e Maria Virgínia Lombardo. A trama se passa em tempo pós-pandêmico. Dois imigrantes latinos, ambos “indocumentados”, se veem envolvidos em um assassinato e, sem querer, resgatam a única testemunha. Ela (Angela Sarafyan) é portadora de síndrome rara, que lhe dá características infantis, dificuldade de socialização e percepção sensitiva fora do comum. O roteiro, que inclui sequências de ação, foi escrito por Belmonte, em parceria com o uruguaio Pablo Stoll e com o escritor e jornalista Carlos Marcelo, editor do jornal Estado de Minas.
EL TEMA DEL VERANO
Argentina e Chile, 91 minutos, 2025
Muito se espera de um filme dirigido por Pablo Stoll. Afinal, ele engendrou (em dupla com Rebella) o simpático “25 Watts” e o excelente “Whisky”. Mas quem esperar um novo exemplar do “minimalismo melancólico uruguaio” vai decepcionar-se. O novo filme do cineasta e roteirista, de 51 anos, é um terror chic. Muito do fashion, o que parece um contra-senso. Mas sem abrir mão dos vômitos e bizarrices comuns ao gênero. A trama começa como um filme de verão, protagonizado por jovens bonitas, bem-vestidas e dispostas a aprontar durante suas vacaciones. Elas são as argentinas Martina (Debora Nishimoto), Malú (Malena Villa) e Ana (Azul Fernández). Resolvem, apesar da pandemia, viajar para o Uruguai. Nos planos do trio está golpe razoavelmente fácil de praticar (colocar sonífero na bebida de homens ricos em busca de aventura e, depois, roubá-los).
Elas chegam à costa uruguaia e se instalam numa estranha edificação. No local, acabarão deparando-se com um apocalipse zumbi. Os tons de comédia se fazem notar na trama. Inclusive com breves piadas visuais. Uma delas mostra uma foice e um martelo, símbolos do Comunismo, como objeto decorativo de um salão-oficina de artes plásticas, instalado na moderna construção. Mais um símbolo comunista aparecerá na trama e chegará com a caracterização do personagem de Hendler, El Comandante (a referência é, claro, Che Guevara).
O SILÊNCIO DE MARCOS TREMMER
Prime Video, Espanha, Uruguai, República Dominicana, 112 minutos, 2024
O publicitário Marcos Tremmer (interpretado pelo chileno Benjamin Vicuña) vive em Madri, curtindo a vida ao lado da esposa Lúcia, a bela Adriana Ugarte (de “Julieta”, de Pedro Almodóvar). Eles moram numa casa hollywoodiana, curtem os melhores restaurantes madrilenhos e os melhores vinhos. Até o publicitário descobrir um tumor e o médico garantir que restam a ele apenas dois meses de vida. O que fazer? Contar à esposa o que se passa? Ou poupá-la? Tremmer decide pelo silêncio. E obriga o irmão, o médico Alejandro Tremmer, a também permanecer calado. A trama, dirigida por Miguel García de la Calera, parece pouco crível. E por demais turística. Foi filmada em Punta Caña, paraíso tropical dominicano, na bela Colonia del Sacramento uruguaia e em cartões postais de Madri. Completa o elenco o ator espanhol Félix Gómez, que interpreta um caliente amante latino.
VELHA LOUCA | Vieja Loca | Crazy Old Lady
Argentina-Espanha, 95 minutos, 2025
Com direção e roteiro de Martin Mauregui, o trunfo dessa produção que uniu Argentina e Espanha é a grande atriz Carmen Mauro. Hendler tem o prazer de coprotagonizar o filme com ela. Aos 80 anos, a espanhola (presente em grandes sucessos de Almodóvar, sendo o mais famoso deles “Mulheres à Beira de Ataque de Nervos”) segue ativa e disposta a assumir projetos arriscados. Nesse, um mix de suspense e terror psicológico, ela interpreta Alicia, uma senhora em estado senil. Por isso, uma ex-namorada de Pedro (Daniel Hendler) pede que ele aceite tarefa de risco – cuidar da mãe dela, que anda totalmente fora dos eixos. O rapaz aceita o desafio, que só fará aumentar suas angústias psicológicas. Ele pagará caro por ter assumido a complexa função. Roteirista experiente (e um dos colaboradores de “27 Noites”) Mauregui faz sua estreia como diretor. E conta com a produção de José Antonio Bayona, vencedor do Goya com “A Sociedade da Neve”. E, depois, finalista ao Oscar, dois anos atrás. Para o cineasta e produtor espanhol, o diretor estreante realizou um “filme claustrofóbico”, uma “fábula de terror”, capaz de mostrar “como a violência é transmitida de uma geração a outra”.
