O disciplinado “Samurai de Quintino” brilha em filme capaz unir Brasil e Japão pela força futebol

Foto © Peter Wrede

Por Maria do Rosário Caetano

Os créditos iniciais de “Zico, o Samurai de Quintino” – estreia dessa quinta-feira, 30 de abril, em 400 salas – já dão indícios de que veremos um filme feito para duas nações. A sequência inicial, ambientada em precaríssimo gramado japonês, imprime espanto e curiosidade. As sequências finais explicam a razão do nome do terceiro longa-metragem dedicado ao craque Zico, hoje com 73 anos.

O espectador notará, o que não é usual, que os créditos do “Samurai de Quintino” foram impressos em português e em ideogramas japoneses. Zico, afinal, virou herói do futebol de dois mundos – o rubro-negro e o da grande potência tecnológica do Oriente. Ele segue fiel a estas duas “pátrias de chuteira”, a verde-amarela, pentacampeã do mundo, e a que prepara seus caminhos para, quem sabe, um dia chegar lá. Satisfeito, o ex-jogador e seus amigos japoneses seguem difundindo o “spirit of Zico”.

Antes deste vibrante retrato do “Samurai de Quintino”, título aliciante e tributário ao Japão e ao subúrbio carioca, Zico foi tema de ficção infantil de Antônio Carlos da Fontoura (“Uma Aventura do Zico”, 1998) e de longa documental de Eliseu Ewald (“Zico”, 2002). Agora, chega em sua versão mais ambiciosa, embalada como superprodução.

Na retaguarda do filme destacam-se um filho (o distribuidor Bruno Wainer) e netos de Samuel Wainer, criador do jornal Última Hora. Estes, liderados pelo cineasta João Wainer, diretor de “Junho”, “Pixo”, “Larissa: O Outro Lado de Anitta”, “Jaula” e “Bandida”. E montador de um dos grandes e imprescindíveis documentários brasileiros – “Elis & Tom – Só Tinha que Ser com Você” (Roberto Oliveira e Jom Tob Azulay, 2022).

Voltemos a Zico, sintético apelido do “galinho de Quintino”, cujo nome civil evoca Portugal em cada palavra: Arthur Antunes Coimbra. Ele, afinal, tem dupla nacionalidade (brasileira e lusitana, já que é o sexto filho de um imigrante português, José Antunes Coimbra, com uma brasileira, Dona Matilde).

Nações, a brasileira em especial, amam boleiros de vida torta. Garrincha e Maradona fizeram história e alimentaram paixões. O cinema também ama personagens tortos. É bem mais emocionante evocar loucas noites etílicas de Garrincha ou viagens alucinógenas de Maradona pelas madrugadas napolitanas, que contar a história de Zico, bom moço, marido há 50 anos da mesma mulher (Sandra), que tem o hábito de arrumar cômodos da casa, compor jarras de flores e anotar sua vida futebolística em caderno que se assemelha aos diários de adolescentes. Letrinha precisa, organizada, coisa de gente cedeéfe.

O próprio Zico não se cansa de apregoar sua disciplina férrea, herança do pai imigrante, de comparar-se ao apolíneo Pelé, em tudo diferente do dionisíaco Garrincha. Faz questão de assegurar que nunca perdeu um treino, nem um vôo de avião.

Decerto, tais características tenham motivado o Galinho a assumir seu maior desafio existencial: ir trabalhar num clube de fábrica poluidora em Kashima, no Japão, cidade que o recebeu em 1991, quando somava modestíssimos 40 mil habitantes. A esposa Sandra, que o acompanhou em todos os momentos de sua vida, não acreditava no que via. Um campinho de fábrica, com péssimo gramado, vestiários precaríssimos, “jogadores” inexperientes. Como é que o craque do Flamengo, jogador da Seleção Brasileira (inclusive do derrotado, mas inesquecível, esquadrão de 1982) e da Udinese italiana ia se meter em semelhante aventura?

Zico insistiu e lá permaneceram. Sempre acompanhados de seu hilário e fiel tradutor, Kunichiro Suzuki. Que fez (e continua fazendo) tudo que o mestre quer. Só amacia nos palavrões, para não ferir ouvidos japoneses. No filme de João Wainer, Kunichiro tentará reviver jogada especial do craque. Mas este o interromperá. Sabe que o japa sempre foi bom na tradução de seus comandos, não não na execução de lances futebolísticos.

O Samurai de Quintino” tem, portanto, sua maior força mobilizadora na relação de Zico com o Japão. Ele ajudou a consolidar o futebol nipônico. Mantém relações com o país que o recebeu, modestamente, e hoje marca presença em Copas do Mundo. Ganhou inclusive vistosa estátua no estádio. É recebido, em sua visitas ao Kashima Antiers (que conhecera como Sumitomo Metais), por vibrantes e imensas torcidas.

Além da diplomacia boleira que uniu o Brasil ao Japão, o Samurai suburbano se sairá muito bem em outras sequências do filme, fruto de sólido roteiro (de Thiago Iacocca) e de acerto de base: fugir dos “cabeça-falantes” que derramam elogios infinitos ao biografado.

Zico recebe visitantes ilustres para conversas descontraídas: Ronaldão e Parreira, Carpegiani e Júnior, dois rubro-negro de quatro costados, os jornalistas Mauro Betting, José Carlos Araújo e Daniela Boaventura. E senta-se com os familiares para evocar lembranças.

Estes encontros poderiam ter resultado em muitas futilidades e troca de elogios, se boas histórias não brotassem e fossem devidamente valorizadas na edição final (do próprio João Wainer, em parceria com André Felipe Silva). A melhor de todas sai da franqueza de Paulo César Capegiani, gaúcho de Erechim, jogador e depois técnico do Flamengo, hoje com 77 anos.

Não estragaremos o prazer dos espectadores. Que ouçam o que ele vai revelar, de viva voz (e com foto do saudoso Jornal do Brasil como prova ilustradora), sobre algo que se passou num final de jogo da Libertadores da América, entre certo jogador do Flamengo contra outro jogador (do chileno Cobreloa).

A tensão se fará presente também na rivalidade que antagonizou dois timaços, o Mengão, de Zico, e o Atlético Mineiro, de Reinado. Em 1980, o clima esquentou. “Éramos nós, os flamenguistas, e os atleticanos a base da Seleção Brasileira”, dirá Zico. O jogo entre os cariocas e os mineiros, na decisão do Campeonato Brasileiro, foi tão tenso, que cinco atleticanos acabaram expulsos. Pode?

Noutro momento inesperado do filme, ouviremos – numa mesa em que Zico conversa com irmãos – história política das mais reveladoras. Os atletas da Família Antunes teriam tido suas carreiras truncadas por razões que – concluiriam em retrospectiva – tinham a ver com procedimentos draconianos dos militares. Estes comandavam organismos responsáveis pelas Olimpíadas e a poderosa CBD (Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF). Antunes, um dos irmãos de Zico, não foi convocado para as Olimpíadas de 1964, porque, meses antes, fizera concurso (e fora aprovado) para atuar como alfabetizador do MEC, pelo Método Paulo Freire. Deu-se o triunfo do golpe de março de 1964 e os novos gestores do país teriam descartado o rapaz. Depois, outro integrante da família Antunes, Edu, seria descartado das Olimpíadas de 1969.

O próprio Zico, que nunca posou de politizado e seria, mais tarde, Secretário Nacional de Esportes do breve Governo Collor, acredita que também foi descartado pelos Cartolas verde-oliva. Estes o enrolaram quando ele, ainda amador, esperava convocação para as Olimpíadas. Só que alguma coisa ficou fora da ordem. Na surdina, o contrataram. Contratado, transformava-se em profissional. As Olimpíadas só aceitavam jovens amadores. Mesmo que o assunto não seja aprofundado, resulta curioso ver Zico falando de política com os irmãos e ajudando a revelar o quanto os militares interferiam (mandavam) no futebol brasileiro.

Quem for ao cinema a partir dessa quinta-feira, 30, até seis de maio, vestido com a camisa do Flamengo, em qualquer ponto do país, pagará meia-entrada. A ideia brotou da cabeça de Bruno Wainer, que quer levar o público às salas de cinema na primeira semana. Assim agindo, ele garante a “dobra” essencial para que o filme permaneça em cartaz.

 

Zico, o Samurai de Quintino
Brasil, 2026, 102 minutos
Direção: João Wainer
Roteiro: Thiago Iacocca
Participação: Paulo César Carpegiani, Júnior, Ronaldão, Carlos Roberto Parreira, Mauro Betting, José Carlos Araújo, Dani Boaventura, Milton Cruz, Alcindo Sartori, Kunichiro Suzuki, Mashu Adachi, Takuma Nomura, Tetsuro Yoshida, Yuji Okawa, Yuman Jo e Família Antunes Coimbra ( Sandra, Edu, Nando, Zezé, Bruno, Thiago e Júnior Coimbra)
Fotografia: Miguel Vassy
Trilha sonora original: Tejo Damasceno
Montagem: André Felipe Silva e João Wainer
Direção de arte: Cláudio do Amaral Peixoto
Produção: Vudoo Filmes, Guará Entretenimento, Globo Filmes/SporTV
Distribuição: Bruno Wainer (Downtown)

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