Panorama Coisa de Cinema consagra duas tradições da Bahia, o cinema “Udigrúdi” e a “Bregueragem” de rosto colado
Foto © Milena Palladino
Por Maria do Rosário Caetano, de Salvador (BA)
Duas tradições baianas foram reconhecidas pelo júri da vigésima-primeira edição do Panorama Coisa de Cinema: o “udigrúdi” e o “brega” de rosto colado (o popular mela-cueca).
Estas duas manifestações culturais, tão estimadas no estado nordestino, são as forças motrizes de dois documentários, os grandes vencedores da competição que o tradicional jornal A Tarde, de Salvador, definiu como “Oscar Baiano” — o longa “Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano”, de Henrique Dantas, e o curta “Bregueragem”, de Daniel Arcades.
Escolhas perfeitas dos jurados. Os dois filmes fizeram jus – além do Troféu Igluscope (criação de Luís Parras em homenagem ao inventor da lente de mesmo nome, o cineasta Roberto Pires) – a Prêmio (em dinheiro) do Instituto Flávia Abubakir (50 mil para o longa e 10 mil para o curta).
O júri (formado com Renato Novaes, Letícia Santinon e Nathan Machado) justificou suas escolhas: “Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano” destacou-se “pela relevância ao abordar as referências de um cinema inventivo que nasce na Bahia e influencia o Brasil, e pela qualidade na condução dessa história”. Quanto ao curta, “Bregueragem”, ele foi laureado “por apresentar um microuniverso de personagens, histórias e paixões muito ricas”. E por “exagerar sem medo de amar e, sobretudo, pela malemolência”.
As qualidades estéticas e temáticas de “Udigrúdi” e “Bregueragem” somam-se a senso de humor refinado e capacidade de diálogo com o público. Sem ter que recorrer a nenhum tipo de apelação.
Com “Anti-Heróis do Udigrúdi Baiano”, o documentarista Henrique Dantas (que finaliza, com “Jardim dos Silêncios”, sua estreia na ficção) mergulha nas proezas daqueles que foram os artífices do “cinema marginal” da Bahia – André Luiz Oliveira e seu “Meteorango Kid, o Herói Intergaláctico” (1969), Álvaro Guimarães e “Caveira My Friend” (1970), José Frazão e Deolindo Checucci com “Akapalô” (1971), José Umberto e seu “O Anjo Negro” (1972) e Edgard Navarro, diretor do notável, perturbador e tardio “Superoutro” (1989).
Já “Bregueragem” destaca-se pelo tocante retrato de frequentadores de salão de baile soteropolitano, onde se ouve música romântico-brega e se dança de rosto (e outras partes do corpo) bem coladinho. Referir-se à breguice desse gênero musical para evocar o filme de Daniel Arcades como um “mela-cueca” resulta até em indelicadeza. Afinal, o cineasta e seu (maravilhoso) fotógrafo, Cláudio de Souza, uniram suas sensibilidades para construir narrativa tão amorosa, que somos obrigados a medir o uso de vocábulos de índole deselegante.
Há que se destacar no melhor curta baiano (ele foi escolhido entre vinte candidatos) outro mérito – a capacidade de síntese. Não há gordura, nem redundância. O filme desliza na tela como um cometa.

O poder do cinema made in Bahia é tão avassalador (e mobilizador) no festival soteropolitano (compartilhado com o município de Cachoeira), que os premiados em mais duas importantes competições do evento – a nacional e a internacional – acabam em segundo plano.
As sessões mais concorridas no palco do evento — o Cine Glauber Rocha, com suas quatro salas — são, por óbvio, as dos curtas e longas baianos. Claro que cada concorrente conta com a brodagem de parentes e amigos. Mas a permanência de muita gente interessada nos debates, após cada sessão, demonstra o quanto os soteropolitanos estão orgulhosos de seu cinema. Foram exibidos nove longas e 22 curtas locais na competição e na mostra informativa Panorama Bahia.
O carioca “Uma Baleia Pode Ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, filme experimental de Marina Meliande e Felipe M. Bragança, foi eleito o melhor longa da competição.
O júri, formado com os brasileiros Murilo Salles e Lyara Oliveira e o chileno Alvaro Inostroza, deu sua justificativa – o filme realiza “mergulho barroco no mundo do carnaval como estrutura narrativa de complexa trama de personagens bem desenvolvidos”. E mais: faz-se “metáfora do fim de uma escola de samba como espelho do desencanto social e cultural no Brasil”. O curta vencedor foi “Irmã”, do capixaba Anderson Bardot.
No terreno internacional, o júri (formado com Clara Paixão, Carolina Canguçu e Giovanni Venturini) escolheu como vencedores o egípcio “Aisha Não Pode Voar”, de Morad Mostafa (melhor longa). Já o curta veio de Portugal – “Porque Hoje é Sábado”, de Alice Eça Guimarães.
“Aisha Não Pode Voar” tem como personagem central a sudanesa Aisha. Ela trabalha como cuidadora e vive no centro da cidade do Cairo. Ao dirigir-se ao trabalho, é obrigada a testemunhar a tensão entre imigrantes, africanos como ela, e membros de gangues egípcias. Aos 26 anos, Aisha encontra-se em meio a um redemoinho emocional. Mantém relacionamento indefinido com um rapaz cairota, é chantageada por um gângster que diz protegê-la e irá trabalhar em nova residência. Os sonhos da moça são, pois, atropelados pela dura realidade.
O longa pernambucano “Yellow Cake”, de Tiago Melo, fez jus ao Prêmio Exibição, que contou com júri próprio. O filme será exibido em pelo menos 60 das 400 salas que compõem o circuito Aexib (Associação de Exibidores de Pequeno e Médios Exibidores).
Outra vitrine destinada a filme premiado no festival baiano será a telinha do Canal Brasil. Que, aliás, está usando seu clipe institucional, protagonizado por Patrícia Pillar e Lázaro Ramos, para divulgar nova frente de difusão do cinema brasileiro — o “DOC Canal Brasil”, serviço de streaming disponibilizado no Prime Video.
Pelo segundo ano consecutivo, júri designado pela emissora escolheu um curta-metragem – o paranaense “Replikka”, de Piratá Waurá e Heloisa Passos – para receber o belo e vistoso Troféu Canal Brasil e soma em dinheiro no valor de R$15 mil.
Confira os premiados:
Competitiva Baiana
. “Anti-Heróis do Udigrudi Baiano”, de Henrique Dantas – melhor longa pelo júri oficial e Prêmio Flávia Abubakir (50 mil reais)
. “Bregueragem”, de Daniel Arcades – melhor curta pelo júri oficial e Prêmio Flávia Abubakir (10 mil reais)
. “Xingu à Margem”, de Arlete Juruna e Wallace Novueira (melhor direção)
. “O Que Você É Sai Por Todos os Lados” – curta-metragem de Larissa Lacerda – melhor roteiro (Larissa Lacerda)
. “Timidez”, de Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa – melhor fotografia (Matheus da Rocha Pereira)
. “A Cor da Patroa”, curta-metragem de Milena Anjos – melhor atuação para Flor de Maria, Iana Nascimento e Sabrina Bispo
. “Cachoeira”, curta-metragem de Rayssa Coelho e Filipe Gama – melhor montagem (Rafael Oliveira)
. “Sopro”, curta-metragem de Fernanda Beling – melhor direção de arte (Fernanda Beling)
. “Rambutan”, curta-metragem de Erika Fromm – melhor som (Eugênio Voser, o Gegê)
Competitiva Nacional
. “Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, de Marina Meliande e Felipe M. Bragança: melhor filme, roteiro (Meliande e Bragança), direção de arte (Elsa Romero e Joyce Castelo)
. “Irmã”, de Anderson Bardot – melhor curta-metragem
. “Para Vigo me Voy”, de Lírio Ferreira e Karen Harley – melhor direção, melhor montagem (Mair Tavares, Daniel Garcia, Karen Black e Lucílio Jota)
. “Cais”, de Safira Moreira – melhor fotografia (Bernard Lessa e Safira Moreira), melhor música (Maestro Ubiratan Marques)
. “Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes – melhor atuação (Carla Ribas, Naruna Costa, Ariana Aparecida)
. “Até Onde a Vista Alcança”, de Alice Villela e Hidalgo Romero – melhor som (Julio Matos, Marco Sartori, Guile Martins e Augusta Gui)
Competitiva Internacional
. “Aisha não Pode Voar”, de Morad Mostafa (Egito, Sudão, Tunísia, Arábia Saudita, Catar, França e Alemanha) – melhor longa-metragem
. “Porque Hoje é Sábado”, de Alice Eça Guimarães (Portugal, França e Espanha) – melhor curta-metragem
PRÊMIOS ESPECIAIS
. “Replikka”, de Piratá Waurá e Heloisa Passos (Paraná) – Prêmio Canal Brasil (R$15 mil, troféu e exibição na programação da emissora)
. “Morte e Vida Madalena”, de Guto Parente (Ceará) – melhor longa da competição nacional pelo Júri Jovem, melhor longa pelo Júri de Associações (Apan, APC, API, MulherCine, Autorais, Conne)
. “Yellow Cake”, de Tiago Melo (Pernambuco) – Prêmio Exibição (o filme tem exibição garantida em 60 salas)
. “Timidez”, de Susan Kalik e Thiago Gomes Rosa – melhor longa da competição baiana pelo Júri Jovem, melhor longa baiano pelo Júri de Associações (Apan, APC, API, MulherCine, Autorais, Conne). Menção honrosa para “Cartas Para…”, de Vânia Lima.
. “Quem se Move”, de Stephanie Ricci – melhor curta da competição nacional pelo Júri Jovem
. “Maic Não Quer Cruzar”, de Henrique Filho – melhor curta da competição baiana pelo Júri Jovem, melhor curta baiano pelo Júri de Associações (Apan, APC, API, MulherCine, Autorais, Conne).
. “Caldeirão”, de Oliveira Júnior, Weslley Oliveira e Milena Rocha – melhor curta nacional pelo Júri de Associações (Apan, APC, API, MulherCine, Autorais, Conne)
. “Corpus-Água”, curta-metragem com direção de Sidjonathas Araújo e montagem de Júlia da Costa – Prêmio Ateliê Rural (PanLab de montagem)
. “Conhecereis a Verdade…”, de Natan Fox, com roteiro de Natan Fox e Pedro Reinato – Prêmio Paradiso Multiplica (PanLab) como projeto de longa-metragem
. “Ouriço”, direção e roteiro de Nina Neves – Prêmio Paradiso Multiplica (PanLab) como projeto de curta-metragem
