Filme mostra a “sinfonia arquitetônica” de Artacho Jurado, criador de prédios cheios de cores na “cidade que mais crescia no universo”

Por Maria do Rosário Caetano

“Sinfonia de um Arquiteto”, longa documental sobre a trajetória de João Artacho Jurado, visto por alguns como “genial arquiteto”, por outros apenas como “um descolado empreendedor imobiliário”, está em cartaz nos cinemas (só até quarta-feira, 14 de maio), na TV a cabo (Canal Curta!) e no streaming (CurtaOn-Prime).

O filme é uma realização de incansável dupla de documentaristas, Teresa Eça e Pedro Gorski, e merece ser visto na tela grande. Fruído nesse formato, a criação artachiano-jurada, com seus edifícios, cores e arabescos, será vista como merece. Filho de imigrantes espanhois, educado sob a inquietação do Anarquismo, João, sempre em companhia do irmão Aurélio, vocacionou-se para a construção de prédios. Trabalhou em São Paulo, “a cidade que mais cresce no universo” e “ergue quatro casas por hora” (segundo a publicidade dos efervescentes anos 1950/60) e, depois, em Santos, no litoral.

Para construir “Artacho Jurado – Sinfonia de um Arquiteto”, a dupla de realizadores recorreu ao testemunho de arquitetos, cineastas, designers, jornalistas e integrantes da família do biografado. São muitas as vozes. Diva Jurado, Raul Juste Lores (o mais entusiasmado e falante de todos), Isay Weinfeld, José D’Elboux, André Gomes, Felipe Grifoni, Jéssica Varrichio, Abilio Guerra, Guilherme Giufrida, Mujica Saldanha, entre outros. Mesmo com tantas “cabeças falantes”, o longa documental nunca cai na monotonia. Até porque há riquíssimo material de arquivo para “cobrir” as falas. E imagens contemporâneas, colhidas com elegância e sofisticação pelo diretor de fotografia Zé Mario Fontoura. Imagens aéreas de Santos, tomadas a partir da “cobertura coletiva” do Edifício Verde Mar, são impressionantes.

Claro que o documentário é 100% a favor de Artacho Jurado (1907-1983). Teresa Eça, sua roteirista e codiretora, é sobrinha-neta do artista. O que não impede o filme de lembrar polêmica que acompanhou a vida do “arquiteto sem diploma”: ele era “arquiteto” ou apenas um “empreendedor imobiliário”?

Em 1958, o arquiteto Eduardo Corona, professor da USP, escreveu na revista Acrópole, artigo incendiário, que intitulou “Que Audácia!”. Ligado à corrente modernista, força renovadora de nossa arquitetura (lembremos que naquele momento, Lúcio Costa e Nimeyer, sob as asas de JK, erguiam Brasília), Corona vocalizava a ojeriza dos Modernos aos prédios coloridos e cheios de adornos (“verdadeiras aberrações”) do autodidata de origem espanhola.

Proprietário, com o irmão Aurélio, da Construtora Monções, Artacho seguia em frente. O CREA, organismo regulador, exigia que fosse multado por exercício ilegal da profissão. Ele pagava as multas. E seguia criando e construindo prédios e mais prédios. Quando não houve mais jeito, encontrou solução à brasileira. Contratou um arquiteto para assinar a parte burocrática e continuou somando cores, arabescos, jardins, salões de música e arrematando seus prédios com áreas de desfrute da paisagem (ultraurbana, em São Paulo, e litorânea, em Santos). Aliás, ele se apaixonaria pela cidade caiçara, na qual ergueria dois prédios notáveis — o Enseada e o Parque Verde Mar. Ambos arrematados com terraços-mirantes vazados, em formato de nuvens, que encantam seus moradores e visitantes. Um morador define, satisfeito, o espaço, como um aprazível “solarium”.

Detalhe: a propaganda da época cantava o desenvolvimento de Santos a partir de sua estrada de ligação com a futura megalópole paulistana: “uma estrada pela qual passam 1.500 veículos por hora”. Hoje são 5.000/hora. E a Rodovia Imigrantes enlouquece os que a utilizam em dias santificados ou feriados.

O tempo – mostrará o filme – deu razão aos devaneios criativos de Artacho Jurado. E quem afirmará isso, no envolvente documentário, é o arquiteto e cineasta Isay Weinfeld, que escolheu um dos prédios do “arquiteto autodidata” para sediar importante sequência do longa ficcional “Fogo e Paixão” (parceria com Marcio Kogan, 1987). Outro cineasta (e arquiteto), Fernando Meirelles, também escolheu o interior de edificação artachiana para importante sequência de “Domésticas” (parceria com Nando Olival, 2001). O diretor de “Cidade de Deus” está ausente do filme. Mas as sequências dos dois longas serão apresentadas, com destaque.

“Sinfonia de um Arquiteto” não chega a detalhamento exaustivo (nem estava obrigado a tanto), mas vale lembrar que o ensaísta e professor da USP Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977) fez questão de ilustrar seu livro ficcional “Três Mulheres de Três PPPs”, escrito e publicado na década de 1970), com imagens interiores de edifício artachiano.

Com Isay Weinfeld entoarão coro elogioso muitas outras vozes. De fotógrafos que encontram nos ambientes de Artacho o cenário ideal de seus ensaios, de atrizes, apresentadoras e uma elegante chef cuisine de origem afro-brasileira. O destaque, aqui, se dá, porque ela enriquece o filme, povoado por homens e mulheres brancos. Mas os maiores defensores de Artacho serão, no frigir dos ovos, os moradores. Todos os que foram ouvidos pelo filme, sem exceção, somam elogios, em especial, aos espaços de convivência, tanto os térreos, quantos o das coberturas, de uso comum.

O documentário se propõe a mostrar “a ousadia de um homem que misturava livremente cores, formas e texturas, desafiando o modernismo, hegemônico na época”. E destaca, com prazer, as três mais resistentes paixões do artista: “a cidade, a arquitetura e a música clássica”. Por isso, na trilha sonora, muitas óperas e composições eruditas se farão ouvir. E o imenso porta-discos (os “bolachões” de outrora) por ele construído em sua residência preferida, ganhará registro de grande beleza. E justificará o título: “Sinfonia de um Arquiteto”. Um melômano.

As ideias anarquistas de João Jurado Artacho, herdadas do pai, foram se diluindo à medida que ele se transformava em grande construtor. Mas persistiriam pelo menos dois resquícios libertários – o desejo de “socializar” paisagens e de, na medida do possível, reunir ricos e remediados numa mesma edificação.

A paisagem haveria de ser fruída nem que fosse (apenas) nas “coberturas coletivas” de seus prédios. Alguém lembrará, no filme, que Artacho almejava longos desfrutes de vistas aprazíveis. Não de pé, na correria passageira. Fazia questão, ele que podia agir assim, de deitar-se sobre espreguiçadeira na sala de seu apartamento santista, frente ao mar. Ouvir o barulho das águas atlânticas o induzia, até, “a dormir na imensa sala”. Um casal homoafetivo contará, no filme, que não há prazer melhor que admirar a paisagem da megalópole paulistana a partir do varandão artachiano.

Sobre a convivência entre remediados e ricos, “Sinfonia de um Arquiteto” dará exemplo esclarecedor: o arquiteto-construtor “somou apartamentos de 40 metros a outros de 340 metros, como um dos Moreira Salles”. Dos prédios do arquiteto-construtor, o mais badalado e festejado é o Bretagne, localizado em Higienópolis. Recebe, de seus privilegiados moradores, elogios infinitos.

Quando “Sinfonia de um Arquiteto” chega a termo, concluímos que ele conseguiu, com suas coloridas criações, “emocionar as pessoas”, pois — diz o publicitário Wagner Tamaraha — fugiu de construções “repetidas em série”.

Artacho Jurado – Sinfonia de um Arquiteto
Brasil, 2026, 81 minutos
Direção: Teresa Eça e Pedro Gorski
Roteiro: Teresa Eça, em colaboração de Pedro Gorski e Dellani Lima
Fotografia: Zé Mario Fontoura
Direção de arte: J. R. D’Elboux e Guilherme Jorgetti
Edição: Dellani Lima
Trilha sonora: André Namur
Produção: Pink Flamingo, com apoio do Itaú e Bossanossacasa
Distribuição: Kajá Filmes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.