Brasil brilha nos Prêmios Platino com consagração de “O Agente Secreto”, “Apocalipse nos Trópicos” e “Beleza Fatal”

Por Maria do Rosário Caetano

O Brasil reinou, absoluto, na décima terceira edição dos Prêmios Platino, realizada na Riviera Maya mexicana, na noite desse sábado, 9 de maio. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ganhou sete dos oito prêmios que disputava – melhor filme, direção, ator (Wagner Moura), roteiro, montagem, música original e direção de arte. E Wagner, para completar, ainda foi o eleito do júri popular.

O longa pernambucano só não venceu na categoria melhor fotografia, assinada pela russa, radicada na França, Evgenia Alexandrova. Nessa categoria, o vencedor foi o espanhol Mauro Herce, de “Sirât”. O polêmico filme de Oliver Laxe, amado por uns e odiado por outros, viu suas múltiplas indicações reduzidas a prêmios técnicos.

“Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa, foi eleito o melhor longa documental, derrotando dois pesos-pesados espanhóis – o também polêmico “Tardes de Soledad” (Tardes de Solidão), de Albert Serra (sobre toureiro e touros), e “Flores para Antonio”, de Elena Molina e Isaki Lacuesta, este sobre dinastia de ‘cantantes’, bailarinos e atores que há décadas apaixonam a terra de Almodóvar. Petra tornou-se a única brasileira a conquistar dois prêmios principais na festa do Platino (em 2019, ela recebeu o troféu por “Democracia em Vertigem”).

Para completar a noite, a espalhafatosa ‘série longa’ (ou novela curta) “Beleza Fatal”, de Raphael Montes, venceu em sua categoria, derrotando dois “novelões” espanhóis (“Sueños de Libertad” e “La Promesa”) e um norte-americano, falado em espanhol e com atores latinos (“Velvet, o Novo Império”). Mas, no terreno das séries curtas, não teve para ninguém. A Argentina arrasou com “O Eternauta”.

Ambiciosa produção da Netflix, protagonizada pelo astro portenho Ricardo Darín, melhor ator pelo júri oficial e popular, “O Eternauta” levou seu criador e diretor Bruno Stagnaro ao palco para receber os troféus de melhor série curta e melhor criação para TV. A estas duas láureas, as mais concorridas, somaram-se diversas outras: melhor ator coadjuvante (César Troncoso), atriz coadjuvante (Andrea Pietra), música original (Federico Jusid), montagem (Alejandro Brodersohn e Alejandro Parysow) e efeitos especiais (Ezequiel Rossi, Pablo Accame e Ignacio Pol).

A matemática demonstra que “O Eternauta” somou sete prêmios do júri oficial, a mesma quantidade de “O Agente Secreto”. E, como Wagner Moura, 49 anos (no segmento cinema), Ricardo Darín, 69, teve reafirmados seus talentos e carisma. Dessa vez, na TV. Se os dois não estivessem ausentes, por razões profissionais (ambos estão ocupados em sets de filmagens), uma bela foto uniria, numa mesma ocasião, os dois atores que, junto com Antonio Banderas e Javier Bardem, compõem a linha de frente do audiovisual ibero-americano no mundo.

Já que nenhum dos dois atores pôde buscar seu troféu na Riviera Maya, o “Caribe mexicano”, a festa perdeu parte de seu encanto. Wagner está filmando na Espanha, em Tenerife. Ele já passara pelo Tocantins brasileiro e, em maratona pós-Oscar, está escalado para elencos de múltiplas produções. Está, como diria Nelson Rodrigues, trabalhando mais que remador de Ben-Hur.

O ator, porém, enviou agradecimento irreverente, à moda baiana, para ser lido por Kleber Mendonça Filho. Depois de destacar a importância do cinema ibero-americano, aquele que “fala espanhol e português”, Wagner qualificou seu diretor, KMF, como “gênio, amigo, bonito e sensual”. O cineasta recifense, que lia a mensagem (via celular), riu constrangido. E garantiu que vai escalar o ator, nascido em Rodelas, na Bahia, para seu próximo filme.

Depois do show brasileiro (nas categorias cinematográficas) e da Argentina, no segmento das séries curtas, outro país recebeu merecido destaque – a Espanha. Coube ao país que organiza a premiação (sob as siglas da Egeda e Fipca, entidades de arrecadação Direitos do Autor e de produtores ibero-americanos), três troféus importantes: melhor atriz, para a adolescente Blanca Soroa (“Los Domingos”), melhor ópera-prima (filme de diretor estreante), para “Surda”, de Eva Soledad, e melhor comédia, para a elegante, sedutora e lubitschiana “La Cena”, de Manuel Gomez Pereira.

“Los Domingos”, que teve mais indicações que “O Agente Secreto” (11 contra oito), era tido como o grande rival do filme pernambucano, premiado em Cannes e candidato a quatro vagas no Oscar. Construído sobre tema explosivo – a opção de uma adolescente pela vida religiosa, para horror da tia agnóstica –, “Los Domingos” causou furor na Espanha, venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastian, alcançou ótima bilheteria e brilhou na Noite dos Goya, o “Oscar espanhol”. Mas, no Platino, converteu poucas de suas indicações em prêmio concreto.

“Surda” (“Sorda”), que estreia em breve nos cinemas brasileiros, trata do relacionamento de jovem surda com seu companheiro falante, no justo momento em que os dois esperam um filho. A criança nasce e surgem novas preocupações. Ela deve crescer entre os que falam, para, assim, desenvolver suas habilidades de comunicação? Ou deve permanecer mais próxima da mãe?

“La Cena” baseia-se em peça teatral e tem como protagonista o belo e talentoso ator Alberto San Juan. Cabe a ele, sofisticado maître de hotel, organizar, com honra e circunstância, ceia para um grupo de generais franquistas (quiçá até o “generalíssimo” Francisco Franco marque presença). Só que muitos dos cozinheiros são antifranquistas até a medula. E se negam, como bons republicanos, a preparar o repasto.

O México, cuja Riviera Maya deve alternar-se, doravante, com Madri, como cenário das cerimônias dos Platino, só recebeu dois prêmios – o de melhor atriz, para Paulina García, pela série “Las Muertas” (disponível na HBO Max), esfuziante em seu agradecimento, e melhor série, pelo júri popular, para “Chespirito – Sem Querer Querendo”. Esta, sobre a trajetória de Roberto Gómez Bolaños (1929-2014), o Chaves, criador também do Chapolim “não contavam com a minha astúcia” Colorado.

A cerimônia de premiação do Platino de número 13 foi milagrosamente curta (exatos 115 minutos, portanto, menos de duas horas). E isto aconteceu porque os prêmios técnicos foram entregues antecipadamente, em outra solenidade. Mas a ideia de homenagear os quatro elementos constitutivos da Natureza (água, terra, fogo e ar) resultou plácida e algo monótona. Os números musicais e de dança não empolgaram como esperado. E os apresentadores, que se vestiam em evocação a cada um dos quatro elementos, até que tentaram temperar o texto, fio condutor da cerimônia, com tiradas de humor. Em vão.

Num só momento, o que antecedeu a premiação do folhetim “Beleza Fatal”, houve curiosa convocação de atores e esboço de um, digamos, esquete cômico. Uma mulher grávida, outra com uma garrafa de tequila, um mariachi e alguns galãs se somaram no palco do imenso Teatro Xcaret para evocar o universo das telenovelas. Gênero saudado como “paixão dos lares ibero-americanos”. A diretora Maria de Médicis, que comandou o folhetim brasileiro, agradeceu, euforicamente, ao prêmio. O fez ao lado da representante da HBO Max, que já está produzindo “Beleza Fatal 2”.

Num mundo marcado por guerras, avanço da extrema-direita e perda acentuada de direitos dos trabalhadores, a cerimônia dos Prêmios Platino caminhou placidamente conformada. Em direção oposta à politizada festa dos David di Donatello, o “Oscar italiano”. No país europeu, houve discursos inflamados contra “todas as guerras”, postulou-se a libertação dos encarcerados (por Israel) da Flotilha pró-Gaza e houve clamor pela “Palestina Livre”.

Na ensolarada e paradisíaca Riviera Maya, os agradecimentos foram genéricos e poucos criativos. Até Guillermo Francella, que fez jus ao Platino de Honor, reconhecimento por sua brilhante trajetória como ator (“O Segredo dos seus Olhos”, “Meu Querido Zelador”, “Homo Argentum”), foi discreto em seu discurso. Nada que lembrasse o mais eloquente dos laureados das treze edições já realizadas dos Platino. Em 2015, na Andaluzia espanhola, o ator proferiu belo e potente discurso, que ecoa ainda hoje. Cantou sua Málaga natal, evocou seu conterrâneo Miguel de Cervantes, criador do visionário “Don Quijote de la Mancha”, a necessidade de unirmos, os ibero-americanos, para fortalecer nossas cinematografias, e, ainda, defendeu os mexicanos, que o então candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, chamara de “criminosos”.

Confira os vencedores:

CINEMA

. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça (Brasil) – melhor filme, direção, ator pelo júri oficial e pelo popular (Wagner Moura), roteiro (KMF), montagem (Eduardo Serrano e Matheus Farias), música original (Tomas Alves Souza e Mateus Alves), direção de arte (Thales Junqueira)

. “Apocalipse nos Trópicos”, de Petra Costa (Brasil) – melhor documentário

. “Olívia e as Nuvens”, de Tomás Pichardo Espaillat (República Dominicana) – melhor longa de animação

. “Surda”, de Eva Libertad (Espanha) – melhor ópera-prima (filme de diretor estreante), ator coadjuvante (Álvaro Cervantes)

. “La Cena” (“A Ceia”), de Manuel Gómez Pereira (Espanha)– melhor comédia e melhor figurino (Helena Sanchis)

. “Los Domingos”, de Alauda Ruiz de Azúa (Espanha) – melhor atriz (Blanca Soroa), melhor filme pelo júri popular e melhor atriz também pelo júri popular (Patrizia López Arnais)

. “Sirât”, de Oliver Laxe (Espanha) – melhor fotografia (Mauro Herce), som (Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas, “las chicas de Laxe”), efeitos especiais (Pep Claret)

. “Belén, Uma História de Injustiça”, de Dolores Fonzi (Argentina) – Prêmio Educação em Valores, melhor atriz coadjuvante (Camila Pláate)

. “O Cativo”, de Alejandro Amenábar (Espanha) – melhor maquiagem e cabelos (Ana e Belén López Puigcerver, Nacho Diaz)

TELEVISÃO

. “O Eternauta” (Argentina – Netflix) – melhor série curta, ator protagonista (Ricardo Darín), ator coadjuvante (César Troncoso), atriz coadjuvante (Andrea Pietra), música original (Federico Jusid), montagem (Alejandro Brodersohn e Alejandro Pa rysow), efeitos especiais (Ezequiel Rossi, Pablo Accame e Ignacio Pol)

. “Beleza Fatal”, de Raphael Montes (Brasil) – melhor série longa

. “As Mortas” (“Las Muertas”, México) – melhor atriz (Paulina García)

. “Anatomia de um Instante (Espanha, inédita no Brasil) – melhor fotografia (Alex Catalán), direção de arte (Pepe Domínguez del Olmo), direção de som (Daniel de Zayas), desenho de figurino (Fernando Garcia), melhor ator pelo júri popular (Álvaro Morte)

. “Estado de Fúria” (Espanha) – melhor atriz pelo Júri Popular (Candela Peña)

. “Menem, o Show do Presidente” (Argentina, disponível na Amazon Prime) – melhor maquiagem e cabelo (Marcos Cáceres e Dolores Gimenez)

. “Chespirito – Sem Querer Querendo” (México, disponível na HBO Max) – melhor série pelo Júri Popular

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