“Cidade das Rosas”, curta-metragem produzido em Florianópolis, é selecionado para o Festival d’Annecy e o Chilemonos
O Brasil cometeu, em uma instituição psiquiátrica em Minas Gerais, um dos maiores crimes contra a humanidade do século XX. Entre as décadas de 1930 e 1980, mais de 60 mil pessoas morreram no Hospital Colônia de Barbacena, vítimas de fome, frio, maus-tratos e abandono. A maioria nunca havia recebido diagnóstico de doença mental. O episódio, documentado pela jornalista Daniela Arbex, no livro-reportagem “Holocausto Brasileiro” (2013), finalista do Prêmio Jabuti e posteriormente adaptado em documentário pela HBO, segue como um trauma que a história brasileira ainda busca compreender. “Cidade das Rosas” reitera a urgência da construção dessa memória coletiva, dando voz e imagem aos corpos que décadas de silenciamento insistiram em apagar.
O curta-metragem de animação de 16 minutos, produzido em Florianópolis com apoio da Lei Paulo Gustavo via Prefeitura Municipal de Florianópolis, foi selecionado para dois dos festivais mais importantes do circuito internacional de animação: o Festival d’Annecy (França), o maior festival de animação do mundo, na Mostra Perspectives, e o Chilemonos (Chile), festival qualificador para a categoria de Melhor Curta-Metragem de Animação do Oscar. O filme já havia conquistado o prêmio de Melhor Animação Brasileira no Animage, realizado em Recife (PE).
Dirigido por Barcabogante e Siso Barros, o filme acompanha César, um jovem de 28 anos, internado involuntariamente que, alucinado pela violência que sofre, busca a memória do homem que amava como único porto seguro. A narrativa atravessa questões de saúde mental e identidade LGBTQIA+, expondo a brutalidade de um sistema que, historicamente, utilizou a internação psiquiátrica para eliminar quem não cabia na norma.
O curta-metragem utiliza a técnica de stop motion integrada a sequências em 2D e 3D. Os bonecos foram confeccionados à mão a partir de materiais reutilizados, como papel kraft, borra de café e papel machê de produções anteriores. Os cenários foram compostos com papelão, farinhas e café, para criar texturas que traduzem precariedade e memória.
