Vida de Hark Bohm e criança como protagonista garantem êxito de “Uma Infância Alemã”
Por Maria do Rosário Caetano
Dois trunfos asseguraram o sucesso na Alemanha, e agora no Brasil, de “Uma Infância Alemã”, novo filme do hamburguês-germânico, de origem turca, Fatih Akin. O cineasta, de 52 anos, vinha de dois fracassos comerciais – “Reingold – O Roubo do Sucesso” e o pavoroso “Bar Luva Dourada”, que ficou conhecido como “um filme de terror nauseante”. Definição perfeita.
Em cartaz nos nossos cinemas desde o último dia 25, “Uma Infância Alemã”, mesmo lançado em apenas 20 salas, mobilizou 5 mil espectadores em apenas quatro dias. Portanto, mais de 1.200 espectadores por dia. Isso em plena Copa do Mundo. Os cinéfilos brasileiros resolveram, pois, prestigiar “Amrum”, nome alemão do filme e da ilha do Mar do Norte que o ambienta. E o boca a boca deve garantir longa e vitoriosa trajetória a esse drama que se passa nos dias derradeiros do Terceiro Reich.
O primeiro e irresistível trunfo de “Uma Infância Alemã” é seu protagonista infantil e inocente, o menino Nanning, magistralmente interpretado por Jasper Billerbeck.
O segundo trunfo sustenta-se em sua fonte originária – as memórias reais do ator, cineasta, dramaturgo, romancista, roteirista e professor de cinema Hark Bohm. Um dos mestres e mentores de Fatih Akin, cineasta premiado no Festival de Berlim com o vigoroso “Contra a Parede”, e da cineasta catarinense-gaúcha Liliana Sulzbach (“A Invenção da Infância”, “A Cidade”).
Hark Bohm viveu, aos seis anos (ele nasceu em 1939, primeiro ano da Segunda Guerra Mundial), a história que recriou no crepúsculo de sua existência. Já octogenário, resolveu realizar um longa-metragem com o qual lembrasse sua infância na ilha de Amrum, ao lado da mãe, hitlerista apaixonada, e longe do pai, um graduado oficial nazista. Ele escreveu e reescreveu o roteiro, mas graves problemas de saúde o impediram de transformá-lo em filme. Passou a tarefa para o amigo Fatih Akin.
Que fez a coisa certa. Um filme narrativo, de composição elegante, quase clássica, mas profundo e envolvente. Ao escrever o roteiro, Bohm tomou algumas liberdades. De saída, dobrou a idade de Nanning. O garoto tem, no filme, 12 anos, e vive para satisfazer a mãe Hille (Laura Tonke), grávida, prestes a dar à luz mais um filho. Quando o bebê nasce, ela, que espera o regresso do marido e se nega a aceitar a derrota nazista, sonha em saborear determinado tipo de pão com manteiga e mel. Derrotada, a Alemanha está em frangalhos. Falta tudo (alimentos, remédios, combustíveis). No continente e até na ilha de Amrum.
O menino, que se veste (é vestido!) com a farda da Juventude Hitlerista – mesmo que o filme seja ultraeconômico no uso de suásticas e outros símbolos nazistas –, não medirá esforços para realizar o modesto sonho culinário da mãe. Buscará ajuda de um tio, Theo (Mathias Schweighöfer), cuja casa só pode ser acessada na maré baixa (seu regresso quando a água sobe nos deixa em angustiante estado de suspensão, magistralmente filmado por Akin). Manning visitará, também, a casa de Tessa Bendixen (a estrela germânica Diane Krueger). Ela, ao contrário da Senhora Hille, é crítica ao ideário nazista.
Hark Bohm urdiu um roteiro primoroso. Homem de diversos instrumentos (seja no teatro ou sets de filmagem, seja na literatura) realizou mais de dez longas-metragens, foi ator em 60 filmes e séries, dirigidos por ele mesmo (“Moritz, Querido Moritz”), ou por Rainer Werner Fassbinder (“O Medo Devora a Alma”, “Casamento de Maria Braun”, “Lili Marlene”, “Lola” e “Berlin Alexanderplatz”), por Emir Kusturica (“Undergound”) e pelo próprio Fatih Akin (“Em Pedaços”, “Bar Luva Dourada” e “Amrum”).
Num de seus estudos mais influentes, um “Ensaio sobre o Ressentimento” no cinema contemporâneo (o brasileiro, em específico), Ismail Xavier constatou a força e importância dos personagens infantis na busca de diálogo com o público.
A esperança – refletiu – parece estar concentrada “somente na figura do infante, espécie de reserva do que ainda pode gerar compaixão, encarnar valores, prometer”. Para concluir: “Ele (o infante) é, por isso, personagem central no cinema mundial contemporâneo cujo lema parece ser: a criança é o universal que nos resta”.
A cineasta Liliana Sulzbach, gaúcha de origem germânica, relembrou, no dia da estreia brasileira de “Amrum”, sua convivência com Hark Bohm.
— “Uma Infância Alemã”, título escolhido pela distribuidora brasileira, se passa numa ilha no Mar do Norte, onde o cineasta Hark Bohm viveu quando criança, durante os anos finais da Segunda Grande Guerra. O filme é a história de sua infância. Conheci Hark nos anos 1980, ele foi meu grande mentor. Na produtora dele comecei a trabalhar com cinema. Sem dúvida, muito do que sei devo às conversas que tínhamos na cozinha de sua casa, onde toda a família e agregados se reuniam, onde ideias surgiam e outras tantas eram descartadas, onde filmes eram discutidos com muita paixão e outros sem piedade. Épico ou drama? Clássico ou contemporâneo? As histórias importavam”.
Prossegue a cineasta brasileira: “’Amrum’ seria o último filme de Hark Bohm como diretor. Mas ele ficou doente. Conseguiu fechar o roteiro. Não conseguiu filmar. Fatih Akin, seu produtor, abraçou também a direção. Durante o processo de escrita, Hark me enviava versões do roteiro para ler. Queria a minha opinião, mas o que eu tinha mesmo eram muitas perguntas. Eu achava que sabia muito da vida dele, sobre seu pai oficial nazista, sua participação nos filmes do Fassbinder, seu casamento com uma integrante da Fração Exército Vermelho, que desapareceu e nunca mais voltou. Sobre seus filmes, sua amada companheira Natalia, seu envolvimento no SPD (Partido Social Democrata da Alemanha), o teatro de Hamburgo e seus intendentes. Eu achava que sabia muito, mas desconhecia os anos que ele passou na ilha, se refugiando da guerra, provendo a mãe, enquanto seu pai lutava no continente. Foi uma surpresa ler o roteiro e descobrir coisas novas, depois de tanto tempo”.
Liliana Sulzbach relembrou os momentos derradeiros de seu mentor e professor alemão: “’Amrum’ estreou no Festival de Cannes no ano passado. Hark já estava muito debilitado e não pôde comparecer. Quando estreou nos cinemas, foi sucesso de bilheteria na Alemanha. Felizmente, Hark viveu o suficiente para ver isso acontecer”.
Como o Festival de Cannes acontece em maio, Hark Bohm pôde acompanhar tudo de seu leito, no mês de seu octogésimo-sexto aniversário, em Hamburgo, cidade onde nasceu, viveu e trabalhou pela vida inteira. E onde morreu no final do ano passado (no dia 14 de novembro).
O que encanta o espectador em “Uma Infância Alemã” é a sutileza com que a história é contada. O garoto ama sua mãe, mas o filme foge das idealizações que costumam emoldurar histórias de infantes. Nanning será discriminado por não ser um ilhéu (ele nasceu em Hamburgo, encontra-se na ilha porque seu pai, oficial nazista, quer sua família distante do teatro da guerra). Seu sotaque, tudo é motivo de rejeição.
A história é filtrada, claro, pelo olhar do menino, que se desdobra nas mais diversas tarefas, seja em busca de alimento (não só do pão com mel sonhado pela mãe) ou de “bicos” laborais. Para conseguir algumas gramas de farinha, ele enfrentará a força da natureza. A ilha de Amrum, azul e branca, é linda, mas naquela primavera de 1945, com o suicídio de Hitler e a derrota alemã, estava imersa em clima de perturbação e horror.
O garoto começará a entender que havia algo de errado nas devoções dos pais. Mas tal entendimento se dará com diálogos sutis, insinuantes, que nos levam à reflexão, jamais à catarse.
“Amrum” tem, de agora em diante, lugar cativo nas listas de melhores filmes protagonizados por infantes (ver alguns deles abaixo). E corram para o cinema, caso não tenham, ainda, assistido a esse belo retrato de um menino alemão.
Uma Infância Alemã | Amrum
Alemanha, 2025, 93 minutos, 14 anos
Direção: Fatih Akin
Roteiro: Hark Bohm e Fatih Akin
Elenco: Jasper Billerbeck (Nanning), Laura Tonke (Hille), Diane Kruge (Tessa), Matthias Scheweighöfer (Tio Theo), Lisa Hagmeister (Tia Ena), Kian Köppke (Hermann Bendixen)
Fotografia: Karl Walter Lindenlaub
Montagem: Andrew Bird
Idiomas: alemão e frísio do norte
FILMOGRAFIA
Fatih Akin (Hamburgo, Alemanha, 25 de agosto de 1973)
Diretor, roteirista e produtor alemão, de origem turca
2026 – “Uma Infância Alemã” (Amrum)
2022 – “Reingold – O Roubo do Sucesso”
2019 – “O Bar Luva Dourada”
2017 – “Em Pedaços”
2016 – “Good Bye Berlin”
2014 – “The Cut”
2012 – “Garbage in the Garden of Eden”
2009 – “Soul Kitchen”
2007 – “Do Outro Lado”
2005 – “Atravessando a Ponte- O Som de Istambul”
2004 – “Contra a Parede”
30 FIMES PROTAGONIZADOS POR CRIANÇAS (que encantaram o mundo):
1921 – “O Garoto”, de Charles Chaplin (EUA)
1948 – “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica (Itália)
1948 – “Alemanha, Ano Zero”, de Roberto Rossellini (Itália)
1950 – “Os Esquecidos”, de Luis Buñuel (México)
1955 – “A Canção da Estrada” (da Trilogia de Apu), de Satiajit Ray (Índia)
1959 – “Os Incompreendidos”, de Francois Truffaut (França)
1962 – “A Infância de Ivan”, de Andrei Tarkovski (URSS)
1969 – “Kes”, de Ken Loach (Inglaterra)
1973 – “O Espírito da Colmeia”, de Victor Erice (Espanha)
1976 – “Cria Cuervos”, de Carlos Saura (Espanha)
1979 – “O Tambor”, de Volker Schlondorff (Alemanha)
1980 – “Pixote, a Lei do Mais Fraco”, de Hector Babenco (Brasil)
1982 – “Fanny e Alexander”, de Ingmar Bergman (Suécia)
1984 – “Vá e Veja”, de Elem Klimov (URSS)
1985 – “Minha Vida de Cachorro”, de Lasse Hallstrom (Suécia)
1987 – “Onde Fica a Casa do meu Amigo?”, de Abbas Kiarostami (Irã)
1990 – “A Glória do Meu Pai”, de Yves Robert (França)
1995 – “O Balão Branco”, de Jafar Panahi (Irã)
1998 – “Filhos do Paraíso”, de Majid Majidi (Irã)
1999 – “Central do Brasil”, de Walter Salles (Brasil)
2000 – “Billy Elliot”, de Stephen Daldry (Inglaterra)
2004 – “Ninguém Pode Saber”, de Hirozaku Kore-eda (Japão)
2004 – “Machuca”, de Andrés Wood (Chile)
2007 – “A Culpa é do Fidel”, de Julie Gavras (França)
2012 – “Infância Clandestina”, de Benjamín Ávila (Argentina)
2012 – “Tomboy”, de Céline Sciamma (França)
2024 – “Saudade Fez Morada Aqui Dentro”, de Haroldo Borges (Brasil)
2025 – “O Bolo do Presidente”, de Hasan Hadi (Iraque)
2025 – “Feliz Aniversário”, de Sarah Goher (Egito)
2005 – “A Garota Canhota”, de Shih-Ching Tsou, com produção de Sean Backer (Taiwan)
2025 – “Uma Infância Alemã”, de Fatih Akin (Alemanha)
