Gramado entregará Kikito de Cristal aos atores Maria Fernanda Cândido e Selton Mello, de “La Perra”, coprodução Chile-Brasil

Foto: Selton Mello em cena de “La Perra”, de Dominga Sotomayor

Por Maria do Rosário Caetano

O comando do Festival de Cinema de Gramado, que realiza sua quinquagésima-quarta edição de 12 a 22 de agosto, divulgou, em encontro com a imprensa paulistana, a lista de longas documentais e curtas-metragens brasileiros que disputarão o Troféu Kikito.

Divulgou, também, os cinco longas produzidos no Rio Grande do Sul, que disputarão o Prêmio Iecine, o filme de encerramento, “La Perra”, e os homenageados que farão jus ao Troféu Kikito de Cristal. Como são dois os escolhidos (Maria Fernanda Cândido e Selton Mello), a dupla forjará, a quatro mãos, o Kikito que será entregue ao laureado na mesma categoria, ano que vem.

Maria Fernanda, do elenco de “O Agente Secreto”, e Selton Mello, o Rubens Paiva de “Ainda Estou Aqui” — sensações brasileiras nas duas últimas cerimônias do Oscar — cumprirão densa agenda na Serra Gaúcha. A atriz virá de Paris, onde reside. E Selton, além de forjar e receber a estatueta de cristal, apresentará o filme “La Perra”, da chilena Dominga Sotomayor. Trata-se de coprodução Chile-Brasil, que une mais uma vez o produtor Rodrigo Teixeira a parceiros hispano-americanos.

A RT Features coproduziu o filme anterior da realizadora, “Tarde para Morrer Jovem”. Dessa vez, Sotomayor fez de um romance colombiano (outro país latino-americano) sua matriz. “La Perra” teve sua estreia mundial na Quinzena dos Cineastas, em Cannes.

Representantes de filmes que disputarão prêmios em Gramado, em especial atores, diretores e produtores paulistas, prestigiaram a terceira coletiva do festival gaúcho (a primeira aconteceu em Gramado, a segunda, no Rio de Janeiro, e esta, em São Paulo).

O ator Vinicius de Oliveira representou o longa mineiro-potiguar “Leite em Pó”, de Carlos Segundo, que o tem como protagonista. E festejou seu regresso a Gramado, 28 anos depois de apresentar “Central do Brasil” na Serra Gaúcha.

Os cineastas Hugo Prata e Felipe Novaes falaram sobre “Chorão – Só os Loucos Sabem“, que centra sua narrativa na história de amor entre o músico santista e sua companheira Graziela.

“Justino”, de José Eduardo Belmonte

Christian Malheiros e Larissa Nunes, protagonistas de “Justino”, longa de José Eduardo Belmonte, lembraram o tema do filme, a história de um pastor evangélico marcado para morrer. Mas que sobreviveu e contou sua história em livro, agora transformado em longa-metragem. A equipe do filme espera contar com a presença do Justino da vida real na sessão de gala, em Gramado.

O escritor Luiz Fernando Emediato, editor do livro de Mário Justino (que hoje vive em Nova York), lembrou que foi apresentado ao testemunho do pastor evangélico pelo escritor Marcelo Rubens Paiva. Leu o texto e se dispôs a editá-lo. Aí, foi procurado por representantes da igreja da qual Justino se afastara e recebeu oferta financeira para desistir da publicação. Respondeu que não cabia a ele tomar tal decisão. Mas sim ao autor. Justino rejeitou a proposta e disse aos proponentes: “o que farei com essa grana toda? Um túmulo de ouro, já que estou jurado de morte?”

A Geração Editorial, empresa de Emediato, não conseguiu concretizar sua intenção de publicar o livro. Foi impedida por decisão judicial. Passadas décadas, a mesma juíza autorizou a publicação do testemunho de Mário Justino, este que agora deu origem ao filme. “Felizmente” — respirou — “pude fazê-lo com Justino vivo e radicado nos EUA”.

Para encerrar sua participação, Emediato relembrou história de vida marcada por “coincidência do destino”: “Aluguei minha casa na Serra da Cantareira como locação das filmagens de um longa-metragem sobre Lélia Gonzalez”. Num determinado dia das filmagens, “uma pessoa da equipe, visitando minha biblioteca, viu o livro do Justino e me disse, surpresa: fui casado com a filha dele”. O editor estava, pois, diante de um ex-genro de seu editado.

Dos longas-metragens selecionados por Gramado, um se fez representar na coletiva paulistana: “Afrontosa”, dirigido pela dupla campineira Coraci Ruiz e Julio Matos. Eles contaram que “Afrontosa” fecha trilogia iniciada com “Limiar”, sobre a transição da filha de ambos, Violeta, que tornou-se Noah, e sequenciada “Germino Pétalas no Asfalto”.

Gabriela Gaia (“Revelação”) e Camila Tarifa (de “Mulher Papaya”) representaram os curtas-metragistas. Tarifa se fez acompanhar de sua protagonista, a grande atriz Magali Biff, que reviverá, na tela do Palácio dos Festivais, história ocorrida com a avó da jovem cineasta.

FLASHES GRAMADIANOS

UM OTELO E UM OSCARITO – A atriz Andrea Beltrão, carioca de 62 anos, que fará jus ao belo e simbólico Troféu Oscarito, define-se como uma “operária do teatro”. Tanto que, além de montagens cênicas sucessivas, comanda com a amiga Marieta Severo, no Rio, os teatros Poeira e Poeirinha. Mas a artista tem, também, luminosas carreiras no cinema e na TV. Formada pelo Tablado de Maria Clara Machado, ela brilhou na telinha desde que protagonizou a série “Armação Ilimitada”. Com Fernanda Torres, fez a deliciosa “Tapas & Beijos”. No cinema, começou em comédias roqueiras e participou de três “terrir” de Ivan Cardoso. O destaque chegaria com “A Cor do seu Destino”, de Jorge Durán, vencedor do Festival de Brasília, há exatos trinta anos. E protagonizaria, com José Dumont, o curioso “western mineiro” de Prates Correia, “Minas Texas”. Muitos outros filmes viriam (são mais de trinta). Impossível não destacar “Jogo de Cena”, invento que revirou as entranhas do cinema documental do avesso, e “Verônica”, um filme pequeno, que ela e o marido Maurício Farias realizaram, com pouca grana e muita garra, em 2006. Em clima de superprodução (para padrões brasileiros) ela protagonizaria outro longa do marido, “Hebe, a Estrela do Brasil”. Seu desempenho foi reconheccido com o Prêmio Grande Otelo, da Academia Brasileira de Cinema. Primeiro um Otelo, agora um Oscarito. Que deverão ficar juntinhos na estante. Outros destaques cinematográficos de Andrea: “Pequeno Dicionário Amoroso”, “A Partilha”, “Salve Geral”, “Chatô, o Rei do Brasil”, “Sob Pressão” e a saborosa comédia argentino-brasileira “Sueño Florianópolis”. Um Oscarito para uma atriz que ama e pratica com imensos talento e prazer a comédia cai como luva. Não?

MAIS PRÊMIOS-HOMENAGEM – Mais dois prêmios gramadianos já têm seus destinatários. O “Cidade de Gramado” para o ator e dramaturgo paulistano Marcos Caruso, de 74 anos. E o Eduardo Abelim para a produtora e presidente da Academia Brasileira de Cinema, Renata Magalhães, de 64. Caruso é autor de um dos mais longevos sucessos do teatro brasileiro, “Trair e Coçar é Só Começar” (7 milhões de ingressos em sua trajetória teatral), que virou filme de Moacyr Góes, em 2006, com Adriana Esteves como protagonista. Caruso, em parceria com a amiga Jandira Martini (1945-2024) escreveu o roteiro. Com a mesma parceira, ele escreveria um grande sucesso teatral, “Porca Miséria”. Na TV, Caruso brilhou em “Avenida Brasil”. No cinema, atuou em 22 filmes. Num deles, “Depois Daquele Baile” (2006), de Roberto Bomtempo (com delicado roteiro de Susana Schild), desempenhou papel à altura de seu talento. E teve parceiros de primeira linha (Irene Ravache e Lima Duarte). Renata Magalhães dirigiu curtas e um documentário sobre os bastidores do filme “Quilombo” (“Quilombinho”, 1984). Com o passar do tempo, abraçou a produção como ofício principal. Entre suas produções destacam-se “5 X Favela – Agora por Nós Mesmos”, “Aumenta que É Rock’n Roll” e “Deus Ainda É Brasileiro”, último trabalho de seu companheiro, Carlos Diegues (1940-2025), ainda inédito.

SÉRIE “EMERGÊNCIA 53” — A cada novo ano, de uns tempos para cá, o Festival de Gramado decidiu tornar-se vitrine de exibição de capítulo especial de série brasileira. Tudo começou com “Cangaço Novo”. Nesse ano, será exibida uma criação de Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington — “Emergência 53”. Dia 17 de agosto, capítulo especial da série será mostrado no Palácio dos Festivais. Em dez episódios, a produção mergulha nos dramas de médicos, enfermeiros e motoristas de uma unidade móvel de urgência. Composta por profissionais brilhantes, mas que foram renegados pelo sistema, a equipe tenta a todo custo salvar a vida dos pacientes. O elenco traz nomes como Yara de Novaes, Emílio Dantas, Valentina Herszage, Ana Hikari, Raquel Villar, William Nascimento, Jaffar Bambirra e Emilio de Mello, além de contar com participações especiais de Fernanda Montenegro, Julia Lemmertz e Antonio Grassi. “Emergência 53”, produzida  pela Conspiração, será lançada pela Globoplay.

Confira os novos selecionados:

DOCUMENTÁRIO (LONGA-METRAGEM)

– “Afrontosa” (SP), de Coraci Ruiz e Julio Matos
– “Empeleitada” (PE), de Micaele Xukuru, Chico Ludermir e Sergio Borges
– “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” (RJ), de Susanna Lira
– “O Projeto” (SP), de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic

LONGA-METRAGEM (MOSTRA GAÚCHA)

– “A História Mais Triste do Mundo”, de Hique Montanari
– “Darcy Fagundes meu Famoso Pai Desconhecido”, de Luciane Fagundes
– “Filhas da Lua”, de Tatiana Sager
– “Morro da Cruz – Memória Popular”, de Crystom Afronário
– “Remanente – Voltagem”, de Kapel Furman

CURTA-METRAGEM BRASILEIRO

– “A Menina que Queria Ser Pedra” (MG), de Jackson Abacatu
– “As Gêmeas” (RJ), de Vanessa Aguiar
– “Divino: Sua Alma, Sua Lente” (MT), de Clea Torres e Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú
– “Fúrias” (RS), de Nica Maleoa
– “Graxa e o Zepelim” (PE), de Camilo Soares
– “Maior que a Casa Toda” (RO), de Fabiano Barros e Neto Cavalcanti
– “Mulher Papaya” (SP), de Camila Tarifa
– “Pão Doce” (SP), de Wesley Gabriel Silva Santos
– “Pique-Pega” (RJ), de Mia Lima Rocha
– “Revelação” (RJ/SP/FR), de Gabriela I. Gaia
– “씨발 (Shibal)” (SP), de João Rubio Rubinato
– “Um Passeio” (SP), de Thalles Cabral e Fernanda Rocha.

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