“Anistia 79” ganha prêmio no festival internacional de cinema de Marselha

“Anistia 79”, documentário de Anita Leandro, com imagens de arquivo captadas por Hamilton Lopes dos Santos e produção de Alice de Andrade e Flor Brazil, ganhou o prestigioso prêmio de Melhor Elenco no FID – Festival Internacional de Cinema de Marselha, na França.

O destaque chama atenção, pois o festival marselhês se constitui como importante vitrine de novas formas de expressão cinematográfica em todo o mundo.

Nesta 37ª edição, o FID apresentou 133 filmes de 42 países, 70 dos quais em competição, exibidos de 7 a 12 de julho, nesta cidade portuária, conhecida como a “sentinela do Mediterrâneo”.

O FID Marselha, dedicado ao cinema documental independente, se propõe a valorizar talentos emergentes, formatos únicos e projetos originais com um único requisito — respeito à liberdade criativa.

Da Índia à África do Sul, do Brasil à China, cineastas de todo o mundo experimentam, na vitrine do festival, novas maneiras de ver e contar histórias. Este evento permite que obras que desafiam as categorias tradicionais e os formatos estabelecidos dialoguem com um público jovem e conta com exigente júri internacional.

Atento a vozes singulares e formas emergentes, o FID Marselha tornou-se um festival de referência, reconhecido internacionalmente por seu trabalho pioneiro e pela descoberta de novos talentos. Atrai profissionais do mundo inteiro há quase quatro décadas.

Neste ano, o FID foi sacudido por intensa polêmica. Um mês antes de sua abertura, uma dúzia de cineastas ameaçou boicotar o festival, protestando contra a presença do diretor israelense Nadav Lapid, a quem acusam de ter recebido apoio financeiro do governo de Israel, algo que consideram incompatível com a denúncia do genocídio em Gaza e com o apoio ao povo palestino. Lapid acabou anunciando sua retirada do evento.

A noite de abertura do festival foi tumultuada. Houve intervenção inesperada do coletivo “La Palestine sauvera le cinéma” (“A Palestina salvará o cinema”), que defendeu a necessidade de um boicote a Israel. Em seguida, o público vaiou o diretor do FID, François Quintin, durante seu discurso de abertura.

Nesse clima volátil, que refletia a situação geopolítica global evocada na maioria dos filmes do festival, “Anistia 79” se destacou com brilho. Em Roma, em junho de 1979, Hamilton Lopes dos Santos, exilado político na França, filmou a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, importante encontro da esquerda brasileira exilada, sediada em sala do Senado italiano.

Etienne Bloch, presidente do Comitê França-Brasil, fundador do Sindicato dos Magistrados Franceses e filho do historiador e combatente da resistência Marc Bloch, recém-incluído no Panteão da França em junho último, forneceu-lhe recursos financeiros para o aluguel dos equipamentos. “Minha ideia era contribuir para o debate político sobre a questão da anistia durante a ditadura militar”, explica o brasileiro, radicado na França, desde que deixou o exílio no Chile (1973).

Os anos se passaram, os recursos se tornaram escassos e as dificuldades da vida como refugiado se tornaram insuportáveis. Hamilton não conseguiu editar essas imagens e as deixou definhar em caixas de metal por quase 40 anos.

Em 2016, a cineasta Anita Leandro procurava, em Paris, imagens de exilados brasileiros. “A França acolheu o maior contingente de refugiados da ditadura brasileira, mas eu não consegui encontrar nada”, lembrou ela.

“Nos arquivos do INA (Instituto Nacional do Audiovisual), de 14 mil títulos relacionados ao Brasil, havia apenas cinco registros sobre exilados, totalizando sete minutos. Não existem arquivos sobre exílio”.

“Éramos perseguidos pela polícia política brasileira; não queríamos de jeito nenhum mostrar nossos rostos”, enfatiza Hamilton Lopes dos Santos.

Anita Leandro descobriu a existência do material produzido por Hamilton e encantou-se com o que viu. “Um tesouro milagrosamente recuperado do passado”. Ela decidiu, então, realizar um longa-metragem documental que resgatasse as imagens captadas em Roma quase cinco décadas atrás.

“Raramente o surgimento de um rosto a partir do preto e branco granulado de um arquivo foi tão impactante. Este rosto é o de Denise Crispim, companheira de Eduardo Leite, assassinado em 1970 pela ditadura brasileira, que dá seu testemunho sobre as atrocidades sofridas durante a gravidez”, registra a sinopse do filme.

“Alguns planos depois, Denise Crispim reaparece em outro arquivo, determinada e radiante, segurando firmemente a mão da filha, aquela que, no primeiro arquivo, ainda estava em seu ventre. Elas estão participando da Conferência de Roma”, detalha a sinopse.

Diretora de “Retratos de Identificação”, que participou do FID Marselha de 2015, Anita Leandro convida os vivos de hoje a revisitar imagens do passado, a se redescobrirem quase cinquenta anos depois, a vivenciarem, em nossa presença, um ato de reativação emocional e política”.

Durante um dos debates após a exibição em Marselha, Anita explicou sua abordagem: “O trabalho do cinema é criar as condições para que os arquivos sejam compreendidos, para organizá-los. O arquivo é tempo, um tempo fugaz que pode ser apreendido”.

“O filme” — finalizou — “é um encontro com esses vestígios do passado; é estar lá, presente, ancorado na realidade”. (Por Suzette Bloch, de Marselha-França)

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