Noite Capixaba festeja Rodrigo Aragão, cineasta “esquisito e pobre vindo do mangue de Guarapari”, e exibe quatro produções prata-da-casa
Foto: Rodrigo Aragão com o Troféu Vitória © Melina Furlan
Por Maria do Rosário Caetano, de Vitória (ES)
Na noite inaugural do Festival de Cinema de Vitória, o palco iluminado do Cine-Teatro Sesc Glória recebeu o diretor Rodrigo Aragão, agraciado com o Troféu Vitória por sua dedicação ao cinema de terror capixaba e brasileiro. Emocionado, ele assegurou estar recebendo, em seu estado natal, “a maior entre as homenagens” que lhe foram “prestadas em 50 anos de vida e 33 de carreira”.
E o fez depois de definir-se como “um menino pobre dos mangues de Guarapari”, que viveu “infância esquisita”, pois era “disléxico e pouco produtivo na escola”. Para ampliar a esquisitice, só pensava “em dinossauros, monstros, zumbis, sangue esguichando e sustos”, enquanto “os colegas jogavam futebol”. Tais “esquisitices” motivou a realização de alguns curtas-metragens e oito longas de terror. Gênero que ele prefere denominar, de forma mais abrangente, como “cinema fantástico”.
Rodrigo Aragão subiu ao palco do Sesc Glória acompanhado pela esposa Mayra Alcarcón, atriz e produtora, e dois de seus três filhos (a menina Alícia, a quem dedica seu novo longa “Folclórica”, e o caçula Ramiro).
“Quem imaginaria” — lembrou o cineasta — “que um menino pobre, filho de pai exibidor ambulante e, depois, dono de modesta loja de itens mágicos, trabalharia como maquiador (e criador de efeitos especiais) em produções de empresas poderosas como a Globo Filmes, a O2, de Fernando Meirelles, e a RT Features, de Rodrigo Teixeira?”
Em três décadas dedicadas ao mundo da fantasia (inclusive com espetáculo teatral de terror produzido pela empresa Mausoleum), Rodrigo foi se especializando na criação de moldes, próteses, ferimentos e envelhecimentos para filmes de colegas, incluindo alguns mais “cabeçudos” que ele. Caso de Marco Dutra (“Enterre seus Mortos”), Guto Parente (“O Clube dos Canibais”) e Aly Muritiba (“Jesus Kid” e o inédito “Nova Éden”, este selecionado para a próxima competição do Festival de Gramado).
Em concorrido encontro com a imprensa e com o público, uma hora antes da homenagem, Rodrigo Aragão recomendou atenção especial ao filme “O Pântano do Morto”, de Cláudio Ellovitch, protagonizado por Lourenço Mutarelli. “Colaboro com esta produção, que encontra-se em fase de montagem, há seis anos. É verdade que sua finalização está demorando, mas deve chegar ao público com grande força”.
No mesmo encontro, Rodrigo respondeu a uma provocação da Revista de CINEMA: “Prédio Vazio”, longa que antecedeu ao novíssimo “Folclórica”, seria um divisor de águas em sua obra? Estaria ele, com seus dois últimos longas-metragens, em busca de filmes mais elaborados, distantes portanto dos iniciais, que apostaram na bagaceira (ou no trash)?
O cineasta respondeu, tranquilo, sem alterar a voz: “Meus filmes são muito diferentes entre si. Com cada um deles aprendi muito. Com ‘Mangue Negro’, o primeiro, chutei o balde. Uma ‘bagaceira’ adolescente. Com ‘A Noite do Chupacabras’, fiz uma fantasia cheia de tiros. Em ‘Mar Negro’, uma fantasia de monstros. Já estou me aproximando dos 50 anos (ele nasceu em 28 de janeiro de 1977). Sou um grande admirador de Peter Jackson. Ele fez um filme que eu adoro, ‘Fome Animal’ (“Braindead”, 1992), um clássico do terror sanguinário. Quem imaginaria que, depois, ele faria ‘O Senhor do Anéis’? Fiz ‘Prédio Vazio’ em espaço urbano (Guarapari), depois de filmes ambientados em espaços rurais, matas fechadas. Agora realizei ‘Folclórica’, um filme infanto-juvenil, só com bonecos. Estou aberto a muitos caminhos. Só não esperem de mim um suspense psicológico. Nunca. Não gosto desse tipo de filme”.
A cada nova edição, o Festival de Vitória dedica um Caderno do Homenageado a uma personalidade da cultura audiovisual capixaba e outro a um nome nacional. “Nos orgulhamos” — contou no palco a diretora-executiva do evento, Larissa Caus — “de imprimir memórias, de deixar documentos de pesquisa histórica para as novas gerações”.
O Caderno dedicado a Rodrigo Aragão (de autoria de Paulo Góis Bastos e Leonardo Vais, 40 páginas fartamente ilustradas) fornece bons subsídios aos fãs do gênero terror interessados na trajetória do diretor de um dos episódios de “As Fábulas Negras” (os outros são José Mojica Marins, Petter Baiestorf e Joel Caetano).
O leitor saberá que o capixaba fez o possível e o impossível para conquistar seu espaço no audiovisual. Foi para São Paulo, com uma mão na frente e outra atrás, para mostrar seus projetos (de futuro cineasta e incansável maquiador-criador de efeitos especiais) a José Mojica Marins (o Zé do Caixão). Não deu certo naquele momento (mas depois fariam, juntos, “As Fábulas Negras”). Diz-se, até, que Mojica o teria eleito como “seu sucessor”.
Outra atrevida ousadia do “menino pobre dos mangues de Guarapari”, esta sim, daria certo. Ele enviou material sobre suas paixões terroríficas (e sobre os artefatos criados de maneira artesanal) à equipe de produtores de Jô Soares. Foi escolhido como atração do “Jô, Onze e Meia”, comandado, no SBT, pelo Gordo.
“A divertida entrevista não facilitou a concretização de meus projetos” — contou aos autores do Caderno do Homenageado — “mas, pelo menos, serviu para mostrar aos meus pais que eu tinha um projeto sério pela frente”.
Na página 17, Rodrigo conta a história mais maluca de sua vida cinematográfica: “A produção de ‘Mangue Seco’ foi feita com baixíssimo orçamento (R$75 mil). O jeito era usar o improviso e a criatividade (…). O maior problema foi a iluminação. Fui pesquisar o preço das luzes e era tudo caro demais. Não tinha LED na época, tive que improvisar. Montei uns sets de madeirite, coloquei dois bocais com lâmpadas incandescentes de 200 watts e um potenciômetro. Para mim, aquilo era o ápice da engenharia. Só que a gente não tinha estrutura para apoiar essas luzes. Então, ou a gente amarrava com arames, ou alguém ficava segurando ali no cenário. O detalhe é que a gente forrou tudo com papel alumínio, o que gerou um problema: a estrutura acabava dando choque. Se você reparar bem no filme, vai notar que tem momentos em que a luz oscila. Pode apostar: aquilo não é efeito especial, é alguém levando um choque na hora da gravação”.
Os orçamentos dos filmes de Rodrigo Aragão foram crescendo, com o passar dos anos, mesmo que em modestas proporções. “Chupacabras” custou R$120 mil, “Mata Negra”, com edital federal, R$650 mil, e “Cemitério das Almas Perdidas” (idem) R$2,1 milhões. Esses filmes percorreram festivais nacionais (como o Fantaspoa, na capital gaúcha) e internacionais (como o Mórbido, do México, e o Rojo Sangre, da Argentina). Os filmes chegariam até o Japão.
Rodrigo Aragão, que passou três anos em Salvador da Bahia, nos tempos do projeto teatral Mausoleum, regressou, em definitivo, ao Espírito Santo, à sua Guarapari. É nessa cidade-balneário, de 140 mil habitantes, que ele ambienta sua produtora e seu estúdio. E onde vem implantando uma “escola” para interessados. E o faz inspirado em Roger Corman e Mojica Marins, formadores de muitos discípulos.
“Minha intenção é promover oficinas e cursos que preparem profissionais interessados em modelagem, esculturas, próteses de látex, enfim, tudo que exige um filme de horror. Eu, que me tornei um “resolvedor de pepinos”, fiz todas as oficinas que apareciam na minha frente. Quando Marco Dutra me procurou para ajudar nos efeitos especiais de “Enterre seus Mortos”, ele me perguntou se eu já havia feito “chover pedra”.
Respondi: “Nunca, mas eu faço, eu encontro a solução. Afinal, trabalho com efeitos especiais há 32 anos”. E, sorrindo, contou aos jornalistas que diretores (cabeçudos, claro!) já pediram a ele que criasse um “tiro na cabeça em plano sequência!”.
“Daqueles (ri, com gosto) em que o ator tem que decorar três páginas de texto e continuar falando enquanto leva o tiro. Mas eu dou um jeito de realizar o que me pede o diretor. Foi este o ofício que escolhi. O de ‘resolvedor de pepinos’”.
Também com muito bom humor, Rodrigo confessa: “Vi muito filme norte-americano. Muitos. Não gostava de filme brasileiro. Achava que se apegavam demais à realidade e eu sempre gostei de fantasia. Só Os Trapalhões, nossa maravilhosa exceção, me encantavam. Tenho muito respeito pelos filmes que eles fizeram. Não perdia um que fosse”.
O que se pode esperar de um adolescente que cresceu “cercado de cocô de papel machê, de máscaras de látex, de pincéis e tinta, de objetos de gesso ou destinados ao trabalho de mágicos?”.

Depois da homenagem a Rodrigo Aragão, subiram ao palco do Cine-Teatro Sesc Glória enormes equipes de representantes dos quatro filmes da mostra Foco Capixaba. Todos dotados de significativas qualidades.
O primeiro deles foi o documentário ensaístico “Cinema, Poema e Gangrena”. O diretor Gustavo Guilherme da Conceição se propõe a refletir sobre aspectos da repressão político-censória brasileira a partir de produções realizadas por diretores capixabas. Caso de Jece Valadão (“Obsessão”, 1973), Joel Barcellos (“Paraíso no Inferno”, 1977), entre outros. Tais imagens, acompanhadas por imensos letreiros, servem ao diálogo do diretor com tempos recentes da história brasileira. Em especial aqueles marcados por falas, verdadeiros atentados à democracia, proferidas por Jair Bolsonaro.
Outro documentário, “Liberdade de Morar”, de Penha Souza, traz fôlego aos filmes dedicados a um dos grandes problemas brasileiros — a insuficiente construção de residências para todos os cidadãos brasileiros. Em especial para mães-solo incapazes de alugar casa onde possam criar os filhos.
Em busca de teto, as personagens de “Liberdade de Morar” ocupam uma escola abandonada. Carismáticas e mobilizadoras, elas defendem, na prática cotidiana, o direito constitucional à moradia. E o fazem sem lamúrias. Com cantos, esperança e alto astral.
“Salve, Rainha”, de Estêvão Ribeiro e Fábio Carvalho, tem como protagonista a atriz Valéria Barcellos. Mulher trans, ela regressa ao lar capixaba, de onde fora expulsa, para retomar laços com a irmã (Suely Bispo). Apesar dos preconceitos, ela decide concorrer ao cargo de rainha da Banda de Congo (durante os festejos afro-brasileiros da Congada). A banda fora criada pelo pai (já falecido) das duas mulheres. Aquele que expulsara a filha de casa, ao descobrir a opção sexual dela.
A narrativa se dá em registro bem-humorado, diálogos descolados e citações a Martinho da Vila e a um de seus maiores sucessos “Madalena do Jacu” (1989). Quem não se lembra do estribilho “Madalena, Madalena / Você é meu bem-querer/ Eu vou falar pra todo mundo/ Vou falar pra todo mundo/ Que eu só quero é você”)?
“Superfície”, de Carolina Campista, também ficcional, tem as praias de Vitória como principal cenário. Por elas passeiam os amigos adolescente Natália, Izabela, Luiz e Matheus. Eles curtem seus afetos, desejos e papos descompromissados, regados a drogas e muito álcool. Sem pensar nas consequências.
