Jorge Furtado tempera “Muito Prazer”, saborosa comédia romântica, com pitadas de erotismo ligth

Por Maria do Rosário Caetano

Jorge Furtado, o consagrado diretor de “Ilha das Flores”, o curta mais festejado do país, resolveu realizar comédia erótica ambientada num motel? Aos 67 de vida e 52 de carreira cinematográfica? É isso mesmo?

É e não é. “Muito Prazer” – estreia dessa quinta-feira, 27 de agosto, em dezenas de cinemas espalhados por todo país – tem classificação indicativa para maiores de 14 anos. Portanto, é praticamente um filme para toda a família.

O diretor do redescoberto e revalorizado “Saneamento Básico”, do encantador “Anchietanos”, do obrigatório “Mercado de Notícias” e de mais dois curtas imperdíveis (“O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, parceria com Zé Pedro Goulart, e “Hasta la Vista”, produzido pelo oscarizado-argentino Juan José Campanella) continua um artista e cidadão preocupado com os destinos de seu país, disposto a dialogar com o grande público (em especial com os jovens), engraçado e romântico. Muito engraçado, muito romântico.

Por isso, “Muito Prazer” é, no fundo e em suas intenções, uma comédia romântica, temperada com pitadas eróticas. Pitadas que não farão corar nem uma empedernida “senhora de Santana”.

Ao misturar casa de saliência (o Motel Muito Prazer) a redes sociais fartamente tomadas por desesperadora oferta de sexo, Furtado deseja apenas contar mais uma sensível história de amor. E o faz com as desventuras iniciais do lascado (em termos financeiros) Rubens (Daniel Oliveira), que herda de um tio um motel mais lascado do que ele.

Na verdade, herda dívidas, pois o falecido irmão de sua mãe não pagava impostos de nenhuma espécie. Seu empreendimento foi desatualizando-se e a renda caiu a níveis irreversíveis. Enfim, os negócios desandaram, ele faliu. E morreu.

Na casa de saliências (devidamente lacrada), Rubens encontrará Grace (Luisa Arraes), funcionária que não recebia, há meses, seus salários. Sem grana para nada, vivia como clandestina (com luz elétrica na base do “gato”) dentro de uma das suítes temáticas do Motel Muito Prazer. Profunda conhecedora da casa, Grace, louca por nuvens, que fotografa com imenso interesse, dispõe-se a ajudar Rubens a sair do buraco em que se meteu. Em troca de sociedade, claro. Ele oferece 10%, ela quer 30.

Antes da trama engrenar, veremos bela sequência em que as nuvens fotografadas pela funcionária clandestina ganharão delicados movimentos. Mas Furtado não pretende dizer que a mocinha tem a cabeça nas nuvens, que seja avoada. Não. Ela é cheia de iniciativa, inteligente, esperta. Só tem um problema. Não gosta de sexo como atividade prática (“nem com homens, nem com mulheres”). Rubens gosta e começa a se interessar pela “sócia”, mas é muito tímido, contido.

Os dois, munidos de vassouras e esfregões, darão aquela guaribada no Muito Prazer. Estabelecerão tabela de preços bem abaixo da concorrência e começarão a atrair alguns fregueses (“clientes”, corrigirá Grace). Mas os tempos são outros, ultracompetitivos, hiperdigitais, com infinitas opções eróticas à disposição. Basta um click no computador doméstico. Como registrou em sua coluna (O Mundo Está Muito Confuso), na Folha de S. Paulo, a escritora Giovana Madolosso: “Graças à pornografia, garotos de dez anos aprendem antes sobre o sexo anal do que sobre o beijo de língua”.

A dupla Rubens e Grace decide gravar as vesperais (ou noitadas) dos casais, trisais ou “poliamores”. Para tanto, irão a uma loja de câmaras ocultas. Serão atendidos pela jovem Nalva (Samantha Jones), que sabe tudo de internet. Os três serão os protagonistas absolutos do filme. Mas haverá participações muito especiais de Drica Moraes (como Mariana, a mãe gaúcha de Grace Kelly), de Felipe Velozo (o guapíssimo Arlindo, cor de jambo, tão lindo quanto Nalva) e Janaína Kramer, como Irene, a gerente do Motel Shandor, concorrente situado defronte ao Muito Prazer.

Escorados nas habilidades digitais de Nalva, a dupla de sócios começará a familiarizar-se com as mil e uma possibilidades do “vídeo digital”. Aprenderão que graças à Inteligência Artificial poderão fazer coisas do arco da velha. Esconder o rosto de quem foi ao Muito Prazer desfrutar de sexo ocasional, colocar outro rosto no lugar do que foi gravado, imprimir efeitos especialíssimos… Enfim, inventar, recriar, aprontar. Esta é outra saborosa (e singela) camada do filme, a metalinguística.

O roteiro de Jorge Furtado, que tornou-se, por dever de ofício, expert na investigação do sexo e da pornografia (“ocupam 30% do tráfego de dados na internet”), é dos mais engenhosos. Esperto e muito divertido. Que ninguém espere um filme caliente como “Motel Destino” (Karim Aïnouz, 2024), nem perturbadores mergulhos na sexualidade humana como “Império do Sentido” e “Max mon Amour” (ambos de Nagisa Oshima), ou inesquecíveis como “O Último Tango em Paris” (Bertolucci, 1972), e a “Trilogia da Vida”, de Pasolini.

No campo cinematográfico, vale lembrar que Furtado furta (e expõe) fugaz instante da atriz (e depois cientista) Hedy Lamarr, em “Êxtase” (Gustav Machaty, Áustria, 1933), filme que causou furor pela nudez (entre outras ousadias) de sua estrela europeia. Veremos justo aquele momento em que Lamarr, com sua deslumbrante beleza, vive o prazer de um orgasmo. Mas há um porém: em “Muito Prazer”, o prazer de Lammarr é tão breve, que, se o espectador distrair-se, dele não desfrutará.

Jorge Furtado começou sua carreira no longa-metragem com uma singela e atrativa comédia romântica (“Houve uma Vez Dois Verões”), um típico B.O. (Baixo Orçamento). Alcançou modesto borderô. Em seguida partiu para obra de maior envergadura – “O Homem que Copiava”, com quarteto de protagonistas da pesada (Lázaro Ramos, Leandra Leal, Pedro Cardoso e Luana Piovani). Beirou os 700 mil espectadores.

Muito ocupado num dos segmentos mais criativos da TV Globo de outrora (Núcleo Guel Arraes), Furtado deixou o cinema meio de lado. Mas seguiu, na medida do possível, realizando seus filmes (ficcionais ou documentais) na produtora Casa de Cinema de Porto Alegre. Nunca deixou sua base gaúcha. Mas, também, nunca utilizou o gauchês como “idioma” ou marca. Defensor de um cinema urbano, combateu o “cinema de bombacha”. Fez filmes destacando o que Porto Alegre é: uma grande metrópole brasileira. Esporadicamente estabeleceu-se em cidades pequenas (como a fictícia Linha de Cristal, do “Saneamento”).

Desde “O Homem que Copiava”, Furtado não emplacou nenhuma bilheteria significativa. Nem com o (agora) cultuado “Saneamento Básico” (“Ilha das Flores” segue imbatível, insuperável, não sai de “cartaz”).

Registre-se que a projeção de Fernanda Torres na campanha oscarizada de “Ainda Estou Aqui” serviu como vistosa vitrine para a redescoberta do filme do “monstro da fossa”. Depois veio o “plus” de outro ator indicado ao Oscar, Wagner Moura. Os dois formam um casal de “cineastas” neste pequeno filme, que promove simpático e criativo diálogo com o cinema dos “viradores”.

Agora, chegou a hora e vez de “Muito Prazer”. Tudo indica que este será o segundo maior sucesso comercial da carreira furtadiana. Ou será que conseguirá ultrapassar a bilheteria de “O Homem que Copiava”?

 

Muito Prazer
Brasil, 2026, 97 minutos, 14 anos
Direção e roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Daniel de Oliveira (Rubem), Luisa Arraes (Grace), Samantha Jones (Nalva), Felipe Velozo (Arlindo), Drica Moraes (Mariana), Janaína Kramer (Irene, a gerente do Motel Shandor), Gabriela Poester (Katia, namorada de Irene), Giovana Figueiredo (juíza)
Fotografia: Lívia Pasqual
Montagem: Giba Assis Brasil
Direção de arte: Fiapo Barth e Dayane Paz
Figurinos: Rosângela Cortinhas
Produção executiva: Nora Goulart
Produção de elenco: Daniela Silveira
Trilha sonora original: Maurício Nader
Canções: “Quem é do Amor”, de Sérgio Sampaio (voz de Zeca Baleiro), “Porto Alegre”, “Mulheres de Péricles” (de Péricles Cavalcanti, voz de Tulipa Ruiz), “Fever”, com Peggy Lee

FILMOGRAFIA
Jorge Furtado
Cineasta, roteirista e escritor, nasceu em Porto Alegre, em 9 junho de 1959. Sócio-fundador da produtora Casa de Cinema de Porto Alegre

LONGAS-METRAGENS:

2002 – “Houve uma Vez Dois Verões” (ficção)
2003 – “O Homem que Copiava” (ficção)
2024 – “Meu Tio Matou um Cara” (ficção)
2007 – “Saneamento Básico, o Filme” (ficção)
2024 – “O Mercado de Notícias” (documentário com inserções ficcionais)
2015 – “Real Beleza” (ficção)
2017 – “Quem é Primavera das Neves”, parceria com Ana Luíza Azevedo (documentário)
2018 – “Rasga Coração” (ficção)
2022 – “Vai dar Nada”, de Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo (ficção)
2024 – “Virgínia e Adelaide”, parceria com Yasmin Thayná (ficção)
2026 – “Muito Prazer” (ficção)

EPISÓDIOS, CURTAS E MÉDIAS-METRAGENS

1984 – “Temporal”, em parceria com Zé Pedro Goulart
1986 – “O Dia em que Dorival Encarou a Guarda”, co-dirigido por Zé Pedro Goulart (premiado no Festival de Havana)
1988 – “Barbosa” (co-direção de Ana Luiza Azevedo)
1989 – “Ilha das Flores (Urso de Prata no Festival de Berlim)
1991 – “Essa Não é a sua Vida”
1994 – “A Matadeira”, episódio do longa “Os Sete Sacramentos de Canudos” (co-produção da TV alemã)
1994 – “A Felicidade É…” (longa em episódios, direção de Cecílio Neto, Zé Pedro Goulart, José Roberto Toreiro e Jorge Furtado)
2010 – “Até a Vista” (Hasta la Vista), produção de Juan José Campanella

NA TV (LONGAS OU SÉRIES)

1994 – “O Homem que Sabia Javanês”, de Guel Arraes e Jorge Furtado
1994 – “Memórias de um Sargento de Milícias”
1994 – “O Alienista”
1999 – “Luna Caliente”
2009 – “Decamerão – A Comédia do Sexo”
2011 – “Homens de Bem”
2012 – “Doce de Mãe”, série protagonizada por Fernanda Montenegro

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