“Ana, en Passant” abre espaço para o cinema de animação e faz história no Festival de Brasília
Foto: equipe de “Ana, en Passant” © Michelle Moreira
Por Maria do Rosário Caetano, de Brasília (DF)
“Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado, faz história no Festival de Brasília. Pela primeira vez, um longa-metragem de animação dirigido por uma mulher afro-brasileira foi selecionado para a principal competição do festival candango.
No começo da década de 1990, nos difíceis anos de desmantelo da produção cinematográfica pelo Governo Collor, dois teimosos filmes representaram a animação brasileira na disputa pelo Troféu Candango: o gaúcho “Rocky & Hudson, os Cowboys Gays”, de Otto Guerra, e o híbrido de live-action e animação “A TV que Virou Estrela de Cinema”, de Márcio Curi e Yanko del Pino.
Vinte e cinco anos depois, o mais antigo e longevo festival de cinema do país volta suas atenções para um filme de animação. Ele vem de Minas Gerais, mas tem alma cosmopolita. Mobilizou profissionais de vários estados brasileiros somando-os a esforços lusitanos e franceses. E brotou da soma de várias técnicas (rotoscopia, 2D, colagens, imagens pintadas sobre vidro, stop motion, aquarela e, até, impressão fotossensível sobre notas fiscais. Sim, notas fiscais!).
Fernanda Salgado, realizadora de origem afro-brasileira, nasceu e vive em Belo Horizonte. Graduou-se em Comunicação Social na UFMG. Na mesma instituição realizou seu mestrado em Cinema. Atualmente, faz doutorado em Montreal, no Canadá, meca do cinema de animação, junto com a francesa Annecy.
Diretora, roteirista e pesquisadora, Fernanda iniciou-se no cinema live action. E tornou-se cofundadora do estúdio criativo Apiário. Ano passado, ela teve seu nome inscrito nos créditos de “Aqui Não Entra Luz”, tocante documentário dirigido por Karol Maia, Troféu Candango de melhor direção e Prêmio Apan (Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro).
Agora, Fernanda disputa, com este que é seu longa de estreia, seus próprios troféus Candango. “Ana, en Passant” conta a história de duas mulheres, Ana e Alice, ambos de origem afro-brasileira. Ana (Jéssica Pierina) vive na França. Ao saber da morte da avó, ela regressa à sua cidade de origem, a capital mineira. Uma cidade que conhece pouco, pois viveu a maior parte do tempo em Paris. Sente-se, pois, à deriva. Até encontrar Alice (também interpretada por Jéssica Pierina), jovem brasileira, bailarina e grávida em situação de risco. As duas, numa jornada comum, tentarão decifrar a cartografia da cidade e resgatar memórias.
Esse resumo da trama não dá conta das camadas de fantasia e poesia que a impregnam. O filme consumiu oito intensos anos de trabalho. Fernanda, que assistira ao curta “Carne” (2019), de Camila Kater, animadora de Campinas (SP), encontrou na jovem artista uma parceira de alma. Afinal, as duas se dedicam a um cinema marcado pela experimentação e busca poética. Começaram a trabalhar juntas. No todo, o filme iria mobilizar 60 animadores, de origens diversas, que trabalharam por via remota, sob o comando artístico-conceitual de Fernanda. Ou seja, cada um em sua própria casa e no próprio computador.
Como a rotoscopia (atores são filmados e depois transformados em desenho) foi a técnica mais utilizada em “Ana, em Passant”, Fernanda Salgado comandou, no Polo de Cinema de Cataguases, interior mineiro, quatro semanas de trabalho com elenco que uniu Zezé Motta, Carlos Francisco, Jéssica Pierina (em duplo protagonismo), entre outros. Depois, seus 60 animadores recriaram tais imagens, transportando-as para o mundo dos desenhos.
Carlos Francisco, hoje um dos atores mais festejados e requisitados do país, acompanha, no Festival de Brasília, a equipe de “Ana, em Passant”. Ele contou, durante o debate, que o filme de Fernanda Salgado resulta de sua primeira incursão no mundo da animação. Que gravou seu personagem, um carteiro, tendo parede branca ao fundo. Sentiu-se como se estivesse num teatro. Ao ver o filme na tela, teve “sensação muito boa”, pois deparou-se com “a rotoscopia, técnica muito fiel aos movimentos dos atores” e impressionou-se com “a delicadeza da narrativa”.
O ator, mineiro-paulistano de 64 anos, depois de receber muitos elogios por sua trajetória em longas-metragens, curtas e séries, relembrou seus anos dedicados ao teatro, em São Paulo, até ser obrigado, por razões pessoais, a regressar à sua BH natal. “Pensei que minha carreira seria interrompida”. Mas deu-se justamente o contrário. “Ela deslanchou”, principalmente no cinema. “Estou fazendo filmes em Minas e recebendo muitos convites para trabalhos nas mais diversas regiões do país”.
Além de Carlos Francisco e de Zezé Motta, o filme conta, em seus créditos, com outras estrelas da arte afro-brasileira. Caso da banda Metá Metá, liderada pela cantora Jussara Marçal. Ela assina a trilha sonora, ao lado de Kiko Dinucci e Thiago França.
Na direção de fotografia está a baiana Safira Moreira (diretora de “Cais”, vencedor do Olhar de Cinema 2025). Nos créditos de produção, o Apiário Estúdio Criativo encontrou parceiros portugueses (a Sardinha em Lata) e franceses (a Midralgar). “Estabelecer parcerias em filmes de animação é mais fácil” — garantiu Fernanda Salgado. Afinal, com a linguagem universal dos desenhos e das várias técnicas de animação, não há que se preocupar com a origem geográfica dos atores e técnicos, com idiomas ou locações. O filme animado pode, como nenhum outro, romper fronteiras e mergulhar na fantasia.

