Mostra SP apresenta retratos biográficos de García Lorca, Rimbaud e da egípcia Umm Kulthum, a “Estrela do Oriente“

Foto: “A. Rimbaud”, de Patrick Wang

Por Maria do Rosário Caetano

Três retratos, ou cinebiografias, enriquecem a programação da quinquagésima edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A mais ousada delas é a de Arthur Rimbaud, o poeta francês que tornou-se comerciante de café e traficante de armas na África. Também ousado é o documentário “Lorca: a Voz Partida”, de Manuel Menchón, que resulta em narrativa reveladora e apaixonante. Já a história ficcionalizada da cantora egípcia Umm Kulthum dialoga com cinebiografias tradicionais ao resumir a trajetória da “Estrela do Oriente” com ingredientes do folhetim, boas doses de exagero e trilha sonora grandiloquente.

O filme “A. Rimbaud”, de Patrick Wang, narra com um único ator, Blake Draper, a curta vida do criador de “Uma Temporada no Inferno” e “Le Bateau Ivre” (O Barco Bêbado). Ao longo de 175 minutos, veremos o jovem nascido na provinciana Charleville causar furor com seus versos, escritos na juventude, evocar seu tumultado relacionamento com Paul Verlaine (1844-1896) e sua partida para a Ásia, depois, África, até sua morte em Marselha, aos 37 anos.

O poeta, que já foi interpretado no cinema por Terence Stamp (“Uma Temporada no Inferno”, de Nelo Risi, 1970) e Leonardo DiCaprio (“Eclipse Total de uma Paixão”, de Agniezka Holland, 1995), revive em recriação apaixonante de Blake Draper. O ator australiano cativa o público já no primeiro instante, quando aparece como um dandy adolescente, de olhos azuis e longos cabelos, rebelde e inventivo. A se lamentar que o filme seja falado em inglês, pois mesmo sendo poliglota, o poeta faria da língua francesa o suporte de sua expressão literária.

“A. Rimbaud” prende o público, apesar de sua imensa duração (quase três horas) e tom teatral. Em compensação, as imagens do diretor de fotografia Frank Barrera são arrebatadoras. E Patrick Wang consegue narrar com um único ator, poucos objetos cênicos e figurino dos mais expressivos a intensa vida do poeta que somou transgressão (literária e existencial), trocou a Europa (Paris, Londres ou Bruxelas) pelo Oriente Médico (Iêmen), Ásia (Java) e pela África (Etiópia). Deixou a poesia para viver do trabalho inicial numa pedreira, depois prestando serviços a grandes comerciantes.

O Rimbaud, que nasceu no seio de família de classe média (pai militar, detentor da Légion d’Honneur, por serviços prestados na conquista da Argélia) irá, no decorrer do filme, trocar seus trajes bem compostos por roupas singelas de algodão, capazes de ajudá-lo a enfrentar o calor africano. Já de cabelos cortados e imagem distante dos anos áureos de sua produção poética (dos 16 aos 20 anos), ele continuará escrevendo cartas às irmãs Vitalie e Isabelle e relatando seus males físicos. Um carcinoma em seu joelho direito o levaria a hospital de Marselha. Sua perna seria amputada e o câncer encurtaria drasticamente sua vida.

“Lorca: a Voz Partida”, de Manuel Menchón

“Lorca: a Voz Partida” é um belo, trágico e revelador réquiem em memória do poeta Federico García Lorca (1898-1936). Revelador, porque parte de incansável busca de fontes documentais para mostrar que o autor de versos e textos dramáticos, como “Bodas de Sangue”, foi vítima da Falange franquista. Ao triunfar sobre a República, com o poder das Armas e o apoio da Alemanha hitlerista, Francisco Franco iniciou sua feroz e longa ditadura (1939-1975).

O assassinato de García Lorca, em 1936 (no início da Guerra Civil Espanhola), quando somava apenas 38 anos, o transformou em mito mundial. Seu desaparecimento, seu corpo não foi localizado, gerou muitas controvérsias. Manuel Menchón mergulhará, então, na busca de documentos capazes de reconstituir os momentos finais do artista. Depois, claro, de iluminar suas origens (no povoado andaluz de Fuente Vaqueros), suas lides teatrais (no grupo La Barraca), sua poesia e amores homoafetivos. No La Barraca, o dramaturgo viveu relacionamento importante, mas que durou pouco. E, nos anos derradeiros, se apaixonaria por Juan Ramírez de Lucas (1917-2010), um jovem de 19 anos e origem humilde.

Com o triunfo das forças franquistas, Juan iria engajar-se no exército vitorioso. Mais tarde, se dedicaria ao jornalismo e à crítica de arte. Sua relação com Lorca só seria revelada depois de sua morte, 16 anos atrás. E um de seus livros, “Recuerdos. Breve História de un Amor”, seria publicado pela Seix Barral.

Para contar a história de Lorca, Menchón recorrerá a materiais os mais diversos. Fotos, cartas (muitas cartas), poemas, recursos do cinema de animação, trechos de documentários históricos. No início do filme, quando registra a importância da terra da Andaluzia na vida do poeta, as imagens parecem limitadas, ilustrativas. Mas essa sensação há de durar pouco. A vertiginosa história do andaluz será enriquecida com o uso de recursos visuais diversos e envolventes.

No momento mais importante do filme, Menchón traz documento das forças da Falange franquista. Nele estão impressas três razões para o assassinato do poeta: ser “integrante da Loja Maçônica Allambra”, amigo de notório socialista (Fernando de los Ríos, ministro da Segunda República Espanhola) e por “práticas homossexuais”. O relatório oficial foi feito pela Polícia de Granada em 1965 e revelado em 2015.

O ator Francesco Carril, da série “Los Años Nuevos” (Rodrigo Sorogoyen, 2024) e do filme “Três Vezes Adeus” (Isabel Coixet, 2025), empresta sua voz ao jovem Juan Ramírez de Lucas.

“A Senhora Umm Kulthum”, de Marwan Hamed

A cinebiografia de Umm Kulthum (1898 ou 1904-1975) não traz a criatividade de “A. Rimbaud”, nem de “Lorca: a Vida Partida”. Trata-se de narrativa ficcional, que reconstitui a trajetória da “Estrela do Oriente” – a revista Rolling Stone a reconhece como “uma das maiores cantoras de todos os tempos” –, desde sua infância numa aldeia egípcia (Tamay al-Zahayra). Filha de um imã (aquele que dirige as preces numa Mesquita), ela cantava em casamentos e festas populares, mas disfarçada de menino, já que esta função não cabia às mulheres.

A voz da garota iria causar espanto. Na juventude, ela foi descoberta por empresário, que a levou, com a família, para o Cairo. Os anos de glória começariam cedo. Até morrer, aos 71 (ou 77 anos), Umm Kulthum desfrutaria da condição de estrela máxima do canto árabe. O alcance sonoro de sua voz a projetaria além das fronteiras egípcias. No Oriente Médio inteiro e na Europa, na França em especial.

O filme começa no Olympia de Paris, onde Kulthum apresenta disputadíssimo show destinado a arrecadar fundos para seu país, massacrado por Israel na Guerra dos Seis Dias (1967). Imagens documentais mostram os preparativos, somadas, em ritmo de thriller, à reconstituição do espetáculo recriado pela protagonista absoluta do filme (a atriz Mona Zaki). A intérprete da “Senhora” (El Sett) será derrubada por um fã, que driblou a segurança e subiu ao palco. Vemos a cantora imóvel no chão.

Dá-se um corte e a história da artista, cujo funeral igualou-se em grandeza ao do presidente Gamal Abdel Nasser (1918-1970), será vista em sua busca pelo sucesso, sem esquecer suas (muitas) desilusões amorosas e problemas de saúde. Tudo sob trilha sonora tonitroante. Por sorte, quando Umm Kulthum canta, a beleza se instala. Alguns recursos melodramáticos se infiltrarão na narrativa, já que o experiente Marwan Hamed (“O Edifício Yacoubian”, 2006) optou pela realização de  um melodrama voltado ao grande público. Mesmo assim, não atingiu seu propósito.

O filme não alcançou a bilheteria esperada por razões que vão de um “roteiro superficial” (de Ahmed Mourad), “da participação da Arábia Saudita, que teria interferido em seu conteúdo”, e de “boca-a-boca negativo” (depois de estourar na primeira semana, a bilheteria foi minguando). Resta saber se o público egípcio, em especial o mais jovem, ainda cultiva um dos maiores símbolos de sua cultura. Ou se, em tempos de redes sociais avassaladoras, La Sett foi esquecida.

A trama de “A Senhora Umm Kulthum” abre espaço especial para dois políticos que marcaram a história do país árabe-africano: o Rei Farouque (1920-1965) e o presidente Nasser. Este, um símbolo arraigado na história egípcia, pois nacionalizou o Canal de Suez e, junto com Nehru e Tito, liderou o Movimento dos Não-Alinhados. A trama engendrada por Mourad insinua affair amoroso entre Kulthum e o Rei Farouque (derrubado pelo Movimento dos Jovens Oficiais, entre eles, Nasser). Teria adotado, nesse caso, “liberdade poética”. O affair teria se dado com um parente do monarca.

A amizade com Nasser foi real. Ao ver seu país invadido (e derrotado) por Israel, “A Senhora” arregimentou seus músicos e saiu em turnê com o claro objetivo de arrecadar fundos para o Exército nasserista. Posicionou-se com fervor. Colocou seu canto e sua condição de Estrela do Oriente a serviço de seu país.

“El Sett Umm Kulthum” é recomendável a quem tem curiosidade em conhecer outras culturas e povos, no caso, os egípicios. Civilização milenar, que cresceu à margens do Nilo, e da qual hoje pouco sabemos. O filme é capaz de prender a atenção do espectador, mesmo que seu roteiro dê mostras de ligeireza em momentos de grande importância. Mas, pelo menos, consegue contextualizar o tempo histórico que serviu de fundo à potente voz da grande senhora da canção oriental. O filme de Marwan Hamed participou do Festival de Roterdã, na Holanda.

Confira na Mostra SP:

A. RIMBAUD, de Patrick Wang (Canadá-EUA, 175 minutos)
Sexta-feira, dia 23 – No Shopping Frei Caneca 3 (15h45)
Segunda-feira – Dia 26 – No Espaço Petrobras Augusta 2 (13h45)

LORCA: A VOZ PARTIDA, de Manuel Menchón (Espanha, Argentina, 90 minutos)
Segunda-feira, dia 26 – Reserva Cultural (21h15)
Terça-feira, dia 27 – Frei Caneca 3 (13h30)
Quarta-feira, dia 28 – Cinemateca-Sala Oscarito (17h00)
Quinta-feira, dia 29 – Spcine Centro-Cine Olido (16h10)

EL SETT UMM KULTHUM (“A Senhora Umm Kulthum” ou “Umm Kulthum, a Estrela do Oriente”), de Marwan Hamed (Egito e Arábia Saudita, 2h35 minutos)
Sábado, dia 24 – Frei Caneca 4 (13h)
Terça-feira – Belas Artes- Sala Leon Cakoff (13h)

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