”Sem Pai Nem Mãe”, de André Klotzel, narra história embalada por sucessos de Tom Jobim, Chico Buarque, Gilberto Gil e Vandré

Por Maria do Rosário Caetano

A comédia dramática “Sem Pai Nem Mãe”, do paulistano André Klotzel, tem nessa sexta-feira, 29 de outubro, sua última sessão na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O filme, que Klotzel escreveu com José Roberto Torero, tem roteiro refinado e trilha sonora dos sonhos, além de ótimo elenco, comandado por Alexandre Nero. O ator e músico paranaense contracena com os “guerrilheiros” Manoela Aliperti, Caio Horowicz, Rubens Santos e Rafael Losso, a “funkeira” Pamella Machado (uma sedutora revelação), o “galã ecológico” Dalton Vigh, a militante verde Karen Accioly, o “delegado” Paulo Tiefhentaler, e participações especialíssimas de Aramis Trindade (impagável) e Luis Miranda (breve e carismático).

O diretor do irresistível “Marvada Carne” (1985, vencedor do Festival de Gramado) consumiu quase uma década para realizar e finalizar “Sem Pai Nem Mãe”. Se, por um lado, viveu processo desgastante, por outro, o realizador teve tempo de refinar seu roteiro junto com Torero, parceiro no saboroso “Brevíssima História das Gentes de Santos” e no machadiano “Memórias Póstumas”.

A trama de “Sem Pai Nem Mãe” é das mais engenhosas. Um ator de stand up comedy, de cotidiano desarranjado e confuso, vive relação desagastada com a companheira (Júlia Ianina). As portas de sua casa são das mais devassáveis. Ele passa os dias dedicado a escrever livro sobre jovem guerrilheira dos tempos da ditadura militar. Um dia, a única versão do texto, guardada em seu laptop, será levada (junto com muitos pertences domésticos e boa quantidade de maconha) por ladrões.

O aspirante a escritor tudo fará para resgatar o computador e os capítulos já escritos. Sua vida vai tornando-se cada vez mais complicada. Mesmo assim, ele continuará digitando sua narrativa, mas sem reescrever o que fora perdido. Insiste em partir do momento interrompido pelo roubo. A trama do livro (e, por consequência, do filme) vai misturar, com humor e muita música, a vida de seus personagens com a própria vida do protagonista. Num lance metalinguístico de fina carpintaria, seremos (com voluntária cumplicidade) ludibriados pelo cineasta. O que parece um sonho, é “vida mesma”. Autor e personagens, à moda de Pirandello, vão instigar nossa imaginação.

Por sorte, Klotzel conseguiu contar, além da trilha original de Mario Manga, com composições musicais que fizeram (a contrapelo) o hit parade dos tempos da ditadura militar (e da resistência armada de guerrilheiros urbanos). Os versos de “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores” se somarão a “Roda Viva” (Chico Buarque), “Lunik 9” (“Poetas, seresteiros, namorados”, de Gilberto Gil), “Volver a los 17” (Violeta Parra, na voz de Mercedes Sosa), a bossa-nova de Tom Jobim (“Esse seu Olhar”, com Nara Leão), “Lata d’Água na Cabeça” (na voz de Marlene) e a breguíssima “Férias na Índia”, de Omar Navarro e Nilton César (na voz deste). Para completar, a jovem Pamella Machado vai interpretar diabólica funkeira. E causar furor com o “Funk do Fuzil”. A letra é um mix de nitroglicerina pura com safadeza.

Que ninguém pense que assistirá a mais um filme sobre os tempos da guerrilha urbana. “Sem Pai Nem Mãe” é um híbrido de gêneros, antenado com a contemporaneidade, sem nenhum passadismo-saudosismo. Tudo é visto com ironia. Das acões (de assalto a banco) ao assassinato em confrontos. Afinal, tudo é filtrado pela imaginação do ator-aspirante a escritor.

A vizinha natureba de Arthur (esse é o nome do escritor) deseja, com a mobilização de militantes verdes, salvar a “Fonte da Memória”, um venerado espaço ecológico. O roteiro mostrará ligação semântica entre os tempos da tortura (nenhuma imagem dessa natureza aparecerá na tela) e a tão defendida fonte da natureza. Naquele período, supõe-se, a “fonte da memória” significaria o extremo oposto da Fonte (ecológica) da Memória. Submetido ao suplício, o guerrilheiro capturado, como uma fonte, seria compelido a “jorrar memórias”.

Embora o filme trate tudo com “a pena da galhofa e (até) a tinta da melancolia” machadiana, “Sem Pai Nem Mãe” nada tem de cínico. Transborda em amor por seus personagens, pelo Brasil e por sua riquíssima música popular. Até um folclórico grupo de Bumba meu Boi vai animar a quermesse natureba dos militantes ecológicos.

Klotzel e Torero realizaram um filme inteligente, que instiga nossos sentidos e nos faz pensar.

 

Sem Pai Nem Mãe
Brasil, 2026, 97 minutos
Direção: André Klotzel
Roteiro: André Klotzel e José Roberto Torero
Fotografia: Uli Burtin
Montagem: Jon Kadocsa
Direção de arte: Ana Rita Bueno e Vera Hamburger
Design de som: Ricardo Reis e Miriam Biderman
Na Mostra SP: última sessão nessa sexta-feira, 29 de outubro, no Espaço Petrobras Augusta (Sala 2), às 17h20, com recursos de acessibilidade

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