Cine Ceará presta tributo a Belchior e se transforma em vitrine para “Viver é Melhor que Sonhar”, “Pessoal do Ceará” e “Alucinação”

Foto: “Viver é Melhor que Sonhar”, de Eduardo Albergaria © Marcelo Camorino

Por Maria do Rosário Caetano

“Ano passado eu morri/ mas esse ano eu não morro”. Esses versos de Belchior, da canção “Sujeito de Sorte”, vão ecoar nas telas da trigésima-sexta edição do Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, que acontece em Fortaleza, desse sábado, sete, até o dia 13 de novembro.

Se o bardo cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes estivesse vivo, ele teria comemorado 80 anos no último 26 de outubro.

Como o artista (em fuga e transe) morreu em abril de 2017, na gaúcha Santa Cruz do Sul, o Cine Ceará o relembrará nesse pródigo ano em que sua presença está impressa em três novos longas-metragens — a ficção “Viver é Melhor que Sonhar”, e os documentários “Alucinação” e “Pessoal do Ceará – Lado A e Lado B” –, e em minissérie ficcional (“Alucinação”), disponibilizada pelo Canal Brasil/Globoplay.

Que artista brasileiro, da canção, dos palcos, cinema ou TV, motivou tantos registros audiovisuais num mesmo ano?

Por reconhecer a permanência do cearense de Sobral, com devota passagem pelo Mosteiro dos Capuchinhos de Guaramiranga e formado pela Universidade Federal do Ceará, o festival servirá de vitrine aos novos projetos cinematográfico-televisivos belchiorianos. E há que se lembrar que, em 2022, o documentário “Apenas um Coração Selvagem”, de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, já evocara (com o cearense Silvero Pereira escandindo versos de Belchior) a saga do bardo sobralense. E que foi em Fortaleza, palco do Cine Ceará, que o compositor consolidou sua carreira artística ao lado do Pessoal do Ceará, espécie de Clube da Esquina nordestino.

O autor de sucessos como “Velha Roupa Colorida”, “A Palo Seco” e “Sujeito de Sorte” é o personagem central de “Viver é Melhor que Sonhar”, de Eduardo Albergaria. O mesmo diretor da série “Alucinação”. O novo filme será exibido na noite de encerramento do Cine Ceará, após a entrega dos Troféus Mucuripe aos melhores filmes ibero-americanos, brasileiros e cearenses.

Na série, inspirada no livro “Belchior – Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Jotabê Medeiros, Todavia, 2017), Albergaria narra a vida de Belchior, da infância até sua misteriosa passagem ocorrida em solo gaúcho. Já o filme, cuja estreia está agendada para três de dezembro, mostra o artista no doloroso final de sua existência. Depois de abandonar patrimônio, identidade e carreira construída durante décadas, Belchior (Luiz Carlos Vasconcelos) caiu na estrada ao lado de um novo amor, Edna (Isabela Garcia).

Albergaria lembra que “o que parece uma busca radical por liberdade” transforma-se “em fuga vertiginosa pela América Latina”, pois “suas contas são bloqueadas, mandados judiciais se avolumam e permanecer em movimento torna-se uma necessidade”. No elenco, estão, também, Karine Teles, Augusto Madeira, Caian Zattar, Márcio Vito, Lucas Penteado, Marina Provenzano, Ana Luiza Rios e o pianista Amaro Freitas.

Outro filme inédito programado pelo festival ibero-americano é o documentário “Pessoal do Ceará – Lado A Lado B”, de Nirton Venâncio, que participa da competição Olhar Cearense, segmento do Cine Ceará dedicado a longas-metragens produzidos no estado nordestino.

Venâncio revisita, nesse documentário que lhe consumiu uma década de trabalho, a história do Pessoal do Ceará, movimento musical que revelou ao Brasil – na mesma década em que Minas Gerais fertilizou o Clube da Esquina – nomes como Ednardo, Fagner, Rodger Rogério & Téti, Fausto Nilo, Augusto Pontes, Jorge Mello e, claro, Belchior.

O cineasta detalhou, para a Revista de CINEMA, a presença do autor de “Como nossos Pais”, grande sucesso de Elis Regina, em seu longa documental:

“Belchior aparece em três momentos do meu filme. Na apresentação do 5° Festival Universitário da Música Brasileira, na TV Tupi (1972), vencido por ele com ‘Na Hora do Almoço’, no programa MPB Especial, da TV Tupi (1974), no Vox Populi, da TV Cultura (1983), e no Ensaio, comandado por Fernando Faro, na mesma TV Cultura (1992). Foram destacadas imagens de arquivo e testemunhos de Belchior referentes à participação dele no movimento Pessoal do Ceará”.

“Alucinação”, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leonardo Caetano

O documentário “Alucinação”, de Renato Terra, Marcos e Leo Caetano, tem o mesmo nome da série ficcional apresentada pelo Canal Brasil. E não poderia ser diferente, pois trata-se de “cinebiografia” do mais famoso dos elepês de Belchior, gravado em 1976. Faixa a faixa, o filme soma vertigem de imagens do Brasil setentista, já que sua proposta é “trazer as cores e conflitos do país, naquela década”. Empreender “viagem visual e sonora, capaz de revelar o espírito da época e ampliar o sentido das canções”. E, assim, ecoar “questões fundamentais do Brasil de hoje”.

Imagens do cantor e compositor (em especial, os poderosos supercloses do seminal Ensaio de Fernando Faro) se somarão a trechos de documentários da era de ouro do Globo Repórter (incluindo “Retrato de Classe”) e ficções como “Os Homens que Eu Tive” (Tereza Trautman) e “Tudo Bem” (Arnaldo Jabor). No caso deste que é o melhor dos longas jaboreanos (junto com “Toda Nudez Será Castigada”), assistiremos ao potente resgate de sequência protagonizada por atrevida “doméstica” interpretada por Zezé Motta, em sumário top-calcinha, cantando Belchior. Para desespero de outra “doméstica”, religiosa e recatada, interpretada por Maria Sílvia.

O filme de Terra e Caetanos causou sensação no Festival do Rio e na Mostra Internacional de São Paulo. Plateias lotadas cantaram, com sentida emoção, os principais hits belchiorianos.

A trigésima-sexta edição do Cine Ceará vai mostrar 50 filmes, embalada pelo slogan “Fortaleza, 300 anos de luz e cinema”. E, dessa vez, fará juz a seu alcance geográfico, um festival de cinema ibero-americano. A Espanha destaca-se com “Eu Não Morrerei de Amor”, de Marta Matute, e como coprodutora do dominicano “Sob o Mesmo Sol”, de Ulises Porra. Houve anos em que o Cine Ceará esqueceu-se da Península Ibérica.

Este ano, a curadoria manteve-se antenada. Completam a mostra dedicada às cinematografias do mundo ibérico o peruano “Não Há Ida sem Retorno”, de Carlos Sánchez Giraldo, o equatoriano “Nunkui”, de Verenice Benítez (parceria com Chile e Alemanha), e os brasileiros – ambos nordestinos – “Terra Firme”, de Alexandre Vale (made in Ceará), e o paraibano “Trapiá, um Outro Sertão”, de Bertrand Lira.

Na mostra Olhar do Ceará, o aguardado “Pessoal do Ceará – Lado A Lado B” vai disputar o Troféu Mucuripe com três outros documentários – “Douvina”, de Márcio Câmara, “O Cio da Terra”, de Rivelino Mourão, e “Adulto/Homem”, de Pedro Diógenes, nome oriundo do Coletivo Alumbramento (“Retorno a Ythaca”) e autor do delicioso “A Filha do Palhaço” (protagonizado pelo craque Démick Lopes).

No terreno do curta-metragem, o Cine Ceará apresentará 28 filmes. Treze na competição brasileira (no charmoso Cine São Luís) e quinze na cearense (no Cine Dragão do Mar). Os filmes da primeira competição são oriundos da Bahia, Espírito Santo, Goiás, Minas, Paraíba, São Paulo e Ceará (três deles – “Joqueta”, “Cassiopeia”, de Bruna DeRose, “Redamar” – são, portanto, prata da casa). O Rio de Janeiro, tradicional polo de produção também de filmes curtos, ficou de fora.

Uma seleção de produções da mostra Olhar do Ceará será apresentada virtualmente na plataforma Itaú Cultural Play, e ficará disponível por duas semanas (de sete a 21 de novembro). Portanto, quem quiser acompanhar, de vários pontos do território brasileiro, a produção cearense, poderá fazê-lo (e com acesso gratuito). E aproveitar para conhecer outras ofertas da plataforma.

Os filmes ibero-americanos serão debatidos por seus realizadores com a crítica cinematográfica e o público cearense no Hotel Sonata de Iracema. Já a produção do estado será mostrada e debatida no Instituto Dragão do Mar.

No dia 11 de novembro, o jornalista, documentarista e professor da UFPB, Lúcio Vilar, lançará (no Sonata Iracema) o livro “Luz, Cinefilia, Crítica! – Arqueologia e Memória do Crítico Linduarte Noronha” (No Jornal A União – Anos 1950 –1960), publicado pela Editora A União.

Competição Ibero-americana (longas)

. “Eu Não Morrerei de Amor”, de Marta Matute (Espanha-Bélgica, ficção, 94′)
. “Não Há Ida Sem Retorno”, de Carlos Sánchez Giraldo (Peru, ficção. 88’)
. “Nunkui”, de Verenice Benítez (Equador-Chile-Alemanha, ficção, 91’)
. “Sob o Mesmo Sol”, de Ulises Porra. (República Dominicana-Espanha, ficção, 103′)
. “Terra Firme”, de Alexandre Vale (Ceará-Brasil, ficção, 92’)
. “Trapiá, um Outro Sertão”, de Bertrand Lira. (Paraíba-Brasil, documentário. 84’)

Competição Brasileira (curtas)

. “Amargô”, de Giorgio Vinicius Casetta. (animação, 19’, Goiás)
. “Cabeceira”, de Rayane Teles (ficção, 25’, Bahia)
. “O Homem Para o Tempo”, de Heber Bezerra (documentário, 25’, Minas Gerais)
. “Todas as Vezes que Demos Tchau”, de Breno Alvarenga (animação, 8, Minas Gerais)
. “Lena”, de Lanna Carvalho (ficção, 19’, Ceará)
. “Caso Isolado”, de Jamila Facury e Edson Lemos Akatoy (ficção, 22’, Paraíba)
. “Fogo Amigo e Outras Canções”, de Roberto P. B. Castro (animação, 9’, Goiás)
. “Cefalópodes”, de Vic Casé (animação, 15’, São Paulo)
. “Pão Doce”, de Wesley Gabriel Silva Santos. (ficção, 18’, São Paulo)
. “De Barriga pra Cima”, de Beatriz Lindenberg, Cintya Ferreira, Marcia Medeiros e Mariana de Lima (ficção, 16’, Espírito Santo)
. “Joqueta”, de Luciana Vieira (ficção, 13’, Ceará)
. “Cassiopeia”, de Bruna DeRose (ficção, 18’, Ceará)
. “Redamar”, de Johnnathan Albano (ficção, 17’, Ceará)

Competição Olhar do Ceará (longas)

. “Pessoal do Ceará – Lado A Lado B”, de Nirton Venancio (documentário, 86’)
. “Douvina”, de Márcio Câmara (documentário,  80’)
. “O Cio da Terra”, de Rivelino Mourão (documentário, 74’)
. “Adulto/Homem”, de Pedro Diógenes. (documentário, 71’)

Competição Olhar do Ceará (curtas)

. “Vejo Você de Repente”, de Aída da Costa (documentário, 12’)
. “Erô”, de Antônio Fargoni (documentário, 10’)
. “Umbuzeiro”, de Emílio Ribeiro (ficção, 19’)
. “Era Vânia”, de Ticiana Augusto Lima (ficção, 15’)
. “Deu Praia”, de Amanda Pontes (ficção, 4′)
. “Pirexia”, de Nico da Costa (ficção, 19’)
. “Plano Secreto de Alie”, de Lux Farr (animação, 19’)
. “Quase à Meia-Voz”, de Maria Tamires e Victor Emanuel Borges (ficção, 17’)
. “Marimbã Está Acontecendo”, de Maryn Marynho (animação, 14’)
. “Janaína e a Concha”, de Malu Meneses (animação, 9’)
. “Sinal”, de Barbara Matias Kariri (ficção, 19’)
. “Rua 16”, de Ryan Lopes (ficção, 13′)
. “Kaira e o Temporal”, de Wagner Nogueira Mendes (ficção, 20’).
. “Stênio”, de Yan Tavares (documentário, 19′)
. “Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de Adeciany Castro, Weyna Macedo, Mariana Smith, Lucas Parente (documentário, 11’, Crato)
Sessões especiais

. “Viver é Melhor que Sonhar”, de Eduardo Albergaria (Rio de Janeiro, ficção, 105’)
. “Alucinação”, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leonardo Caetano (Rio de Janeiro, documentário, 74′)
. “O Projeto”, de Sabrina Fidalgo e Yvan Rodic (Brasil-Suíça, documentário, 94’)
. “Sul de Teerã”, de Kleber Mendonça Filho. (documentário, 8’, Brasil-EUA)

Mostras sociais

O Primeiro Filme a Gente Nunca Esquece:

. “Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa”, de Fernando Fraiha (São Paulo, ficção, 90’)

Mostra Melhor Idade:

. “O Auto da Compadecida 2”, de Guel Arraes e Flávia Lacerda (Rio de Janeiro, ficção, 114”)

Mostra Acessibilidade:

. “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo (Brasília, ficção, 90’)

Homenagens

. Lisiane Lins (ex-prefeita de Fortaleza, parlamentar e nome atuante no Movimento Superoitista Cearense)
. Isis Valverde (atriz mineiro-carioca)
. Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça (produtora e cineasta – Pernambuco)
. Luiz Carlos Merten (crítico de cinema, Rio Grande do Sul-São Paulo)
. Vila das Artes 20 Anos (Fortaleza-Ceará)

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