Mostra SP consagra filmes da América Latina vindos da Colômbia, México e Peru
Foto: “Cinco Anos, Quatro Meses”, de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio
Por Maria do Rosário Caetano
Pela primeira vez, em 50 anos de história, a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo entregou a realizações latino-americanas os seus principais prêmios. Incluindo o Troféu Bandeira Paulista, desenhado por Tomie Otake, ao melhor dos 15 filmes de diretores estreantes pré-selecionados pelo público.
O júri fez questão de atribuir, também, prêmio especial ao documentário “Edward Said: Entre Mundos”, dirigido por realizadora estadunidense, Maiken Baird, mas dedicado por inteiro ao pensador e defensor militante do povo palestino.
O júri oficial, composto com a brasileira Laís Bodanzky, o colombiano Cesar Augusto Acevedo, o iraniano Ali Asgari e o estadunidense Boots Riley, premiou duas ficções vindas da Colômbia (“Cinco Anos, Quatro Meses”) e México (“Chicas Tristes”). E um documentário do Peru (“O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”).
Para justificar o Prêmio Bandeira Paulista de melhor filme ao colombiano “Cinco Anos, Quatro Meses”, o júri, que analisou 15 produções (duas brasileiras) internacionais de diretores jovens, definiu o longa de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio como “comovente retrato da incansável busca de uma mãe por seu filho desaparecido”. Por meio “de representação sensível e profundamente humana do luto, da memória e da busca incessante pela verdade, transforma realidade social dolorosa em sensível jornada cinematográfica”. E, para tanto, adota “abordagem narrativa singular das fronteiras entre a vida, a morte e a fé, oferecendo reflexão emocionante sobre a necessidade humana de encontrar respostas e manter a esperança”.
“Cinco Anos, Quatro Meses”, programado para a Repescagem da Mostra – que acontece nos cinemas Cultura Artística, CineSesc e Bijou, até a quarta-feira, 4 de novembro – acompanha a jornada de duas mulheres, uma delas a angustiada mãe de um menino desaparecido durante os conflitos armados entre guerrilha e exército. Depois de procurar, em vão, o filho, Martha, de 45 anos, agarra-se a uma última esperança: dirigir-se a vilarejo distante, nas planícies do país hispano-americano, onde poderá pedir favor a um morto”.

O longa mexicano “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar, faz parte da recente paixão do país da presidenta Claudia Sheinbaum pelo Brasil. Depois da sólida parceria que resultou no premiado “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, laureado com dois Troféus Ariel (o Oscar mexicano), o país asteca enviou à Mostra SP dois filmes que entoam louvores ao Brasil. Em “Homem ao Mar”, o ator-diretor Gael García Bernal mostra o metalúrgico Lula e sua esposa Marisa como personagens de série em preto-e-branco, escala os atores Débora Nascimento (papel de imenso destaque) e Augusto Ribeiro (na pele de Lula e Marisa) e coloca Ney Matogrosso (“Flores Astrais”) e Baden Powell e Vinícius (“Canto de Ossanha”) na trilha sonora.
A diretora laureada não fez por menos. Em sua trama, as “Garotas Tristes” são dedicadas nadadoras que não tiram o Brasil da cabeça. Sonham participar, no Rio de Janeiro, do Campeonato Pan-Americano da Juventude. Evocam, em suas melancólicas conversas, um lugar paradisíaco (o mar de Copacabana!), enquanto enfrentam problemas emocionais advindos de sexo não-consentido. Na trilha sonora, a mobilizadora “Anunciação”, de Alceu Valença, e um pagode (“O meu Lugar”), de Arlindo Cruz.
O filme, premiado no segmento Generation K Plus (produções para adolescentes) no Festival de Berlim, saiu duplamente reconhecido da mostra paulistana. Além de melhor direção, atribuído pelo júri oficial, o “Chicas Tristes” ganhou o Prêmio da Crítica.
Fernanda Tovar, que veio a São Paulo mostrar seu primeiro longa-metragem, agradeceu (em português) os dois reconhecimentos. Como já havia regressado a seu país de origem, o fez, direto da Cidade do México, por vídeo. Sem esquecer de externar seu amor pelo Brasil e destacar “o prazer” de receber os dois troféus “no mesmo momento em que os brasileiros festejam a vitória do Presidente Lula e a democracia triunfa nas urnas”. E mais. Confessou-se “grande admiradora do cinema brasileiro, dos filmes de Eduardo Coutinho e de Kleber Mendonça Filho”.
O júri oficial justificou sua escolha pela direção de Fernanda Tovar: “a cineasta retratou de maneira extraordinária as tensões, alegrias, angústias e aspirações de ser adolescente”. E o fez “com tanta sutileza e especificidade que todos nós conseguimos nos identificar”. E mais: “as atuações, momentos de silêncio e situações de desespero e confusão foram apresentados em meio a um mundo repleto de promessas e perigos, com cuidado e atenção magistrais”. A visão dessa cineasta “se fez sentir ao longo de todo o filme, e ficou claro que elenco, equipe e chefes de departamento estavam em perfeita sintonia, como em uma sinfonia conduzida por uma maestrina habilidosa. Acima de tudo, o filme é permeado pelo mesmo sentimento que a diretora nutre por suas personagens: amor”.
Os dois troféus de “Chicas Tristes” foram recebidos, presencialmente, por representantes da distribuidora brasileira Capuri, que anunciaram a data de lançamento comercial do longa-metragem mexicano (março de 2027). E convidaram o público a prestigiar a sessão do filme na Repescagem e, ano que vem, nas salas de cinema.
A escolha do melhor documentário (“O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”), outro filme duplamente premiado (pelo júri oficial e pelo júri popular) foi justificada com entusiasmo. O quarteto internacional definiu essa coprodução peruano-estadunidense-
A diretora italiana, radicada nos EUA, Èlia Gasull Balada, que dirigiu “O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas” em parceria com Matteo Norzi, estava presente no Teatro Cultura Artística, palco da cerimônia. Ela também agradeceu, emocionada, aos dois prêmios.
O imenso teatro paulistano estava lotado por imensa plateia, disposta a maratonar. Primeiro, assistindo à cerimônia de premiação. Depois, ao badaladíssimo longa documental “Tudo Pode Ser Visto”, de Nathan Fielder e Lance Oppenheim.
O filme estadunidense, produzido pela descolada A24, dura quase três horas e recria, como comédia documental, temperada com lances de ficção, os dias que antecederam a prisão de Elizabeth Holmes, “prodígio da biotecnologia”, que inventou aparelho “capaz de detectar, com o exame de apenas uma gota de sangue, várias doenças”. Especialistas provariam a fraude (científica e financeira, pois a empresa Theranos, fundada por Holmes e um sócio, mobilizou milhões de dólares de acionistas no Vale do Silício e adjacências).

O júri oficial justificou, com justeza, o Prêmio Especial atribuído a outro documentário estadunidense, o mobilizador “Edward Said: Entre Mundos”: “reconhecemos a força e relevância desse filme, que, mais de 20 anos após a morte de Edward Said, nos mostra que ele continua a nos desafiar com sua coragem intelectual”. Para concluir: “ao confrontar as grandes potências e questionar narrativas dominantes, Said dá visibilidade à história e aos direitos do povo palestino. Sua voz permanece indispensável diante de conflito ainda sem solução, reafirmando que não haverá paz sem justiça, reconhecimento e humanidade”.
Entre os troféus atribuídos por integrantes de júris parceiros, um chamou atenção – o do Coletivo de Diretoras de Arte (Brada). Suas três representantes subiram ao palco para justificar a escolha da ficção germânica “O Julgamento de Hein”, cuja construção lembra duas narrativas brechtianas do dinamarquês Lars Von Trier (“Dogville” e “Manderlay”).
“O Prêmio Brada destaca a construção criativa e bem-conceituada de seus espaços, cuja direção de arte contribui ativamente para contar, de forma metafórica, sua história, estimulando o espectador a entrar na trama pelos cenários, compostos em vilarejo representado por comunidade que vive sem paredes. Uma comunidade que vigia e julga. Destacamos a coragem do diretor Kai Stänicke de construir um mundo a partir da subtração”.
A cerimônia de entrega dos Prêmios da Mostra SP começou com uma hora de atraso, mas, em compensação, correu célere (durou sintéticos — e milagrosos — 55 minutos). Renata de Almeida, que apresentou a solenidade com Serginho Groissman, fez questão de sublinhar o destaque dado pelo júri aos filmes da América Latina, nesse momento em que o continente vive sob tensão expansionista do Governo Trump-Marco Rubio. Tempos do projeto “Escudo das Américas”, que vê a América Latina não como parceira, mas como quintal.
A diretora da mostra, que convidou o produtor iraniano Ahmad Kiarostami (filho de Abbas “O Gosto de Cereja” Kiarostami) ao palco, fez questão, também, de protestar contra nova sentença de prisão do cineasta Jafar Panahi, amigo histórico do festival paulistano. “Abaixo o fascismo”, verbalizou Renata, “venha ele de onde vier”.
Confira os vencedores:
JÚRI OFICIAL
. “Cinco Anos, Quatro Meses”, de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio (Colômbia) – melhor filme
. “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar (México) – melhor direção
. “O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada (Peru, EUA, Catar) – melhor documentário
. “Edward Said: Entre Mundos”, de Maiken Baird – Prêmio Especial do Júri
JÚRIS DE PARCEIROS DA MOSTRA
. “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco (Catalão, Goiás) – Prêmio da Crítica de melhor longa brasileiro
. “Chicas Tristes”, de Fernanda Tovar (México) – Prêmio da Crítica de melhor longa internacional
. “Feito Pipa”, de Allan Deberton (Ceará-São Paulo) – Prêmio do Júri Popular de melhor ficção brasileira (ex-aqueo)
. “100 Dias”, de Carlos Saldanha (Rio de Janeiro – São Paulo) – Prêmio do Júri Popular de melhor ficção brasileira (ex-aqueo)
. “Fernanda”, de Pedro Waddington (Rio de Janeiro) – Prêmio do Júri Popular de melhor documentário brasileiro
. “O Sentido da Vida”, de Ryūsuke Hamaguchi (França-Japão) – Prêmio do Júri Popular de melhor filme de ficção internacional
. “O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas”, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada (Peru, EUA, Catar) – Prêmio do Júri Popular de melhor documentário
. “Talismã”, de Thais Fujinaga (São Paulo) – Prêmio Netflix (exibição em 190 países)
. “A Professora de Francês”, de Ricardo Alves Jr (Minas Gerais) – Prêmio Paradiso (apoio ao lançamento do filme no circuito comercial)
. “O Julgamento de Hein”, de Kai Stänicke (Alemanha) – Prêmio Brada (Coletivo de Diretoras de Arte) – melhor direção de arte
. “Eu Planto minha Mão no Jardim”, de Boris Hadžija e Hoda Taher (Alemanha, Sérvia) – Prêmio Prisma Queer de melhor filme internacional
. “London”, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (Rio Grande do Sul) – Prêmio Prisma Queer de melhor filme brasileiro
. “A Paixão Segundo G.H.B.”, de Gustavo Vinagre e Viva Couto (São Paulo) – Prêmio Prisma Queer Especial do Júri
