Almanaque da Rosário — 08 agosto 2014
Cadê a “Garota de Ipanema”?

Em 1967, o cineasta Leon Hirszman (1937 – 1987), resolveu transformar a canção “Garota de Ipanema”, hit planetário criado três anos antes por Tom e Vinícius, em filme. Ele vinha de outra adaptação, “A Falecida”, de Nelson Rodrigues. Este filme não alcançara sucesso comercial, nem teria agradado ao dramaturgo. Diziam as más línguas que Nelson achara a adaptação de Leon desprovida de humor e voltada em demasia à “denúncia” da alienação da pequena burguesia suburbana. Só à protagonista, Fernanda Montenegro, por quem o “anjo pornográfico” nutria amor além do platônico, teria agradado. O tempo passou e a história fez justiça ao primeiro longa de Leon. Mas “Garota de Ipanema”, ao estrear, foi um fracasso comercial e… artístico. Para transformar a canção em filme, o cineasta pediu ajuda a três pesos-pesados (Vinícius, Glauber e Eduardo Coutinho) que assinaram o argumento. Com o amigo Coutinho, com quem comungava ideário político e artístico, Leon escreveu o roteiro. Para a fotografia, foi chamado o nome de ponta do momento: o argentino Ricardo Aronovich. Suas imagens em “Os Fuzis”, de Ruy Guerra, e “São Paulo S.A.”, de Person, estão impressas no imaginário do Cinema Novo. Tudo o que o Brasil tinha de melhor foi convocado para brilhar em todos os créditos do filme. Inclusive na feitura dos próprios créditos, que ficaram a cargo do artista plástico Glauco Rodrigues (com David Drew Zing na retaguarda). Na montagem, outro craque: Nello Melli. Na trilha sonora, Vinícius e parceiros (além de Tom: Ary Barroso e Paulo Soledad). Abriu-se espaço até para o mais talentoso discípulo do poeta, um jovem de olhos cor de ardósia, Chico Buarque (com “Noite dos Mascarados”). Na direção musical e nos arranjos, dois monumentos: Luizinho Eça e Eumir Deodato. E o gênero do filme? Comédia musical. Comédia? E ainda por cima escrita por Leon e Coutinho, dois marxistas interessados em revelar a alienação da classe média urbana? Para dar vida à linda garota de Ipanema, foi escolhida a jovem Márcia Rodrigues. E para contracenar com ela, ou fazer figuração, um time de bambas foi escalado: Pixinguinha, Baden Powell, Nara Leão, Elis Regina, João Saldanha, Rubem Braga, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino, Ziraldo e Jaguar, Hugo Bidet, Ronnie Von e Chico Buarque, claro! E para não virar um catálogo telefônico de celebridades, fechemos a infindável lista com dois deuses da beleza negra, a gaúcha Luiza Maranhão e o carioca Zózimo Bulbul. Pois bem, apesar deste olimpo carioca convocado para brilhar, o filme fracassou. E sumiu. Sumiu de forma gravíssima. Seus negativos, enviados para o distribuidor Jackson Leigther, nos EUA – onde “Garota de Ipanema” fascinava multidões e figurões da estatura de Sinatra – desapareceram. Carlos Augusto Calil, que coordena o restauro da obra completa de Leon, não perde esperança. Ele acredita que um dia chegará, dos EUA, a notícia de que os negativos foram encontrados em algum depósito (climatizado, de preferência). Aí, sim, quem sabe, poderemos rever – e quem sabe reavaliar – o mais desprezado título de Leon. Ruy Castro, que estudou o filme em cópia VHS, das mais precárias, não acredita nesta reavaliação a posteriori. Rodriguianamente, ele diz que o cineasta, ao invés de adotar uma postura a la Domingos Oliveira (que arrebentou a boca do balão com “Todas as Mulheres do Mundo”) quis dar uma de “Antonioni tropical”.

Relacionados

Compartilhe

(1) Reader Comment

  1. Assisti duas vezes. Achei sensacional. A estória, banal, era no entanto, uma estória que falava aos corações dos de nossa época. a fotografia espetacular. A trilha sonora dispensa comentários, está aí na inernet a disposição. O que pegou foi que o filme foi considerado “alienado” uma palavra muito em voga na época, que significava que não era engajado, ou seja, não havia sido feito para defender os ideais da esquerda daquele tempo. Isso era considerado gravíssimo pela crítica. Asseguro, no entanto, que nas duas vezes a que o assisti a sala estava lotadíssima. E uma dessas vezes foi no Cine Astor de S. Paulo, uma das maiores salas de cinema que S Paulo já conheceu. Se acharem a cópia, estarei revendo, com grande prazer.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>