Artigos Televisão — 16 abril 2015

Em 2013, um especialista em tecnologia, o inglês Jason Huntley, desconfiou que estava sendo espionado pelo aparelho de televisão. O que acendeu a suspeita foram anúncios de mercadorias que começaram a chegar à sua casa, espelhando o gosto ou a predileção de sua família por determinados programas de TV. Algo semelhante aos anúncios de temas e links que a internet nos oferece quando é ativada, todos relacionados com os temas que mais acessamos em sites e redes sociais. O aparelho de Huntley era uma Smart TV de última geração, da LG Electronics, multinacional com raízes na Coréia do Sul que também fabrica celulares, smartphones e tablets.

O Sherlock eletrônico descobriu uma opção em seu aparelho que ligava e desligava uma “watching info”, em tradução direta “informação assistindo”. Veio da fábrica ligado. Ele desligou, mas o aparelho continuou mandando informações para os servidores. O que mudava: quando ligada, a opção avisava ao servidor que a informação era autorizada; quando desligada, avisava que a informação não era autorizada. A primeira reação da LG Electronics foi do gênero ficção científica: a empresa não sabia disso, os técnicos não sabiam, o mais provável seria uma disfunção na inteligência artificial da máquina. Tipo “Uma Odisséia no Espaço”, de Kubrick: a culpa é do Hal, o cérebro eletrônico que se libertou da dependência humana.

No ano passado, a empresa soltou uma nota pública: “A privacidade dos consumidores é uma prioridade da LG Electronics e estamos levando esse assunto muito a sério. Estamos analisando relatórios que indicam o envio de informação de visualização em LG Smart TVs sem o consentimento dos telespectadores.” Apesar de não assumir nada, é uma quase confissão que sim, nosso aparelho de TV, se for da geração Smart, fornece a imagem e o som de nossa intimidade a alguém, que no caso são alguéns, no plural, porque isso é um prato cheio para hackers.

Análogos e diálogos – Esse thriller cibernético me fez lembrar a primeira vez que vi televisão, adolescente, em meados dos anos 1950. Preto-e-branco, canal único (TV Tupi), muita interferência visual e sonora, programas bobos, mas era um deslumbramento aquele cineminha que a gente podia acender e apagar a qualquer hora, dentro de casa. Depois começou a evolução técnica e artística do eletrodoméstico luminoso: cores, satélites artificiais permitindo a transmissão de muitos canais ao mesmo tempo, progressiva melhoria da definição da imagem e outros avanços que bem conhecemos, inclusive o desenvolvimento de uma arte televisiva diferenciada da sua matriz cinematográfica, com destaque para o jornalismo e a telenovela.

Tudo começou por volta de 1870, quando Willoughby Smith, outro inglês, descobriu que o elemento químico selênio tem a propriedade de transformar energia luminosa em energia elétrica. Em outras palavras, emissão e captação de imagens por meio da corrente elétrica. Durante 130 anos, a lenta evolução da TV se fez a partir de um sistema analógico, onde as frequências são captadas, transmitidas e recebidas em sua forma original, através de instrumentos análogos. Incapaz de gerar diálogo, esse sistema manteve o telespectador na situação de receptor passivo, preso a um “consumo linear”, como define o especialista em novas tecnologias audiovisuais Ignacio Ramonet (“La Tyrannie de la Communication, La Post-Télévision”). O rumo da história muda a partir do ano 2000, facultando um avanço extraordinário da comunicação: a revolução digital. Escolho o ano 2000, porque sociólogos e historiadores decidiram que os nativos digitais são os que nasceram a partir desse ano, a Geração Z. Também porque é a partir daí que a internet se expande.

Com o advento da digitalização, que opera simultaneamente com dois dígitos, o número Um e o não número Zero, a unicidade analógica é superada por circuitos binários, pelo ir e vir de informações. Ou seja, a partir de então, tanto a evolução da TV como os prognósticos que podemos fazer sobre seu futuro, mudaram de parâmetro. É a razão por que mencionei a espionagem das TVs ditas inteligentes, exemplo lapidar do caminho por onde essa nova fase de evolução vai trafegar. A espionagem significa privação da privacidade, um aspecto perigoso, degradante, ameaçador dos circuitos binários, também conhecidos como “circuitos lógicos”. Seria a TV complementando o que a internet já faz. Mas o foco principal da TV do amanhã, que é a interatividade, vai além dessa perversão, abrindo portas e janelas para novos entendimentos da condição humana.

Mão dupla – Nessa perspectiva, os que viverem verão a TV 3D sem óculos e talvez, mais adiante, a Realidade Virtual com a ajuda de dispositivos externos. Os analistas preveem o fim da TV aberta e o crescimento exponencial da TV por cabo ou satélite ou via internet (pagas ou gratuitas), espelhando a multiplicação de possibilidades de escolhas pessoais. Cito a definição-metáfora de Chris Anderson, no livro “A Cauda Longa”, sobre a diferença entre os séculos XX e XXI. Cito de memória: “no século analógico, era um filme para um milhão de pessoas; no século digital, é uma pessoa diante de um milhão de filmes.” E de programas, assuntos, estilos.

Enfim, o amanhã da TV é a e-TV, a acoplagem internet/televisão. E também a acoplagem desse conjunto binário à Internet das Coisas, a conexão através de sensores e nanotecnologia de todos os objetos, aparelhos, máquinas que usamos no cotidiano, área da digitalização que avança em ritmo acelerado. O aparelho de TV sairá do protagonismo do universo televisivo porque seu conteúdo, como já está acontecendo, estará disponível nas telas portáteis de nossos telefones e laptops. Todo esse cenário converge para o centro da questão: a mudança de comportamento dos usuários, que passam de passivos a ativos, de receptores a receptores-produtores. Poderá ser um Admirável Mundo Novo, tanto no sentido da opressão exposta no romance homônimo de Aldous Huxley (outro inglês), como no sentido oposto, de um novo Renascimento. Depende da quantidade e da qualidade de humanismo da civilização atual, principalmente, dos nativos digitais.

 

Por Orlando Senna, escritor e cineasta

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