Trailers TV Revista de Cinema — 12 setembro 2018
O Banquete

O tempo histórico de “O Banquete”, sexto longa-metragem de Daniela Thomas, é difuso. Os convidados de Nora e Plínio (Drica de Moraes e Caco Ciocler), anfitriões de jantar dos mais descolados, vestem-se com discreta elegância e enunciam sintagmas pouco datados. O encontro de amigos pode ter acontecido há 27 anos, ou bem menos.

Há, porém, um fato que nos situa neste “Banquete” (servido ao público a partir desta quinta-feira, 13 de setembro), no tempo histórico. Um dos comensais, um importante editor de revista badalada (interpretado com elegância e contenção por Rodrigo Bolzan) passa por situação experimentada, na vida real, pelo publisher da Folha de S. Paulo, Otávio Frias Filho, falecido em agosto último. Em 25 de abril de 1991, o jornalista e empresário assinou, na capa do matutino paulistano, “Carta Aberta ao Sr. Presidente da República”. No caso, Fernando Collor de Mello.

O político alagoano, que derrotara Luiz Inácio da Silva, o Lula, e assim tornara-se o primeiro civil eleito pelo voto direto depois de 25 anos (20 de ditadura militar e cinco de Governo Sarney, eleito vice, com Tancredo, por Colégio Eleitoral parlamentar), ficou indignado com a Carta do jovem Frias. Ordenou que seus assessores jurídicos abrissem processo, com base na Lei de Imprensa, criada em fevereiro de 1967, auge dos governos militares, para que o jornalista paulistano pagasse, com cadeia, se fosse condenado, por seu atrevimento editorial.

Registre-se que a Lei de Imprensa só seria revogada em 31 de maio de 2009, no sétimo ano dos dois Governos Lula. Era considerada triste herança da ditadura, uma anomalia num país democrático. Que os jornalistas dali em diante fossem julgados, como qualquer cidadão brasileiro, com base no Código Civil.

No filme de Daniela Thomas, o personagem, claramente, inspirado em Otávio Frias Filho, vive a angustiante possibilidade de ser levado à prisão com base na draconiana Lei de Imprensa. Ele é companheiro de uma famosa atriz de teatro, Bia Moraes (interpretada por Mariana Lima). Seria a personagem inspirada em Beth Coelho, musa da trupe de Gerald Thomas, ex-marido de Daniela? Pode ser.

À mesa, sentam-se, também, uma jornalista, Maria, insegura ex-namorada do angustiado editor da revista, interpretada com sutileza por Fabiana Gugli, rosto pouco visto em filmes brasileiros. Ela chega à casa dos anfitriões na companhia de um amigo gay, Lucky, que Gustavo Machado interpreta sem nenhum exagero ou trejeito tresloucado (o oposto, em todos os sentidos, do Crô de Marcelo Cerrado e de Aguinaldo Silva).

Mais tarde, chegarão ao banquete as duas últimas comensais. Uma personagem, algo misteriosa, sexualmente ambígua, interpretada pela atriz e diretora de teatro Georgette Fadel (teria ela um quê de Bárbara Gancia?). A outra a somar-se ao grupo, meio como penetra maluquinha, é a performática Cat Woman, que ganha os contornos juvenis e os grandes olhos azulados de Bruna Linzmeyer.

Para servir o banquete, fora convocado o jovem Ted, belo e discreto garçom (o talentoso Chay Suede). Ele travará, no início do filme, reveladora conversa com o dono da casa (Caco Ciocler, em ótimo desempenho), que já chegara da rua etilicamente calibrado. E beberá quase uma garrafa do fino vinho que será levado à mesa, antes de tomar providencial banho, recomendado pela esposa para atenuar a ressaca e o cheiro de álcool.

Daniela Thomas sabia do que estava falando ao escrever o texto que deu origem ao filme. A Folha de S. Paulo fez de sua editoria de Cultura (a Ilustrada) o território de promoção das montagens teatrais de Gerald Thomas, protagonizadas (algumas delas) por Beth Coelho. E cenografadas com grande inventividade pela própria Daniela, filha do artista gráfico, cartuista, escritor e jornalista Ziraldo. Quantas reuniões (quantos banquetes) atores, diretores de teatro, jornalistas e editores, mecenas e agregados fizeram na presença do casal Thomas e Daniela? Quantas conversas entabularam depois de sorver grandes doses de vinho e outros aditivos?

A cada vez mais produtiva cineasta define “O Banquete” como “minha tragicomédia de costumes”. Depois de enfrentar pesadas críticas ao seu primeiro longa solo (“Vazante”), que a colocou no centro do mais crispado debate do Festival de Brasília, Daniela parecia navegar por mares mais calmos. Selecionada para a mostra competitiva do Festival de Gramado, porém, ela fugiu da raia. Com “O Banquete” devidamente impresso no catálogo, ingressos vendidos etc., a diretora não apareceu na Serra Gaúcha, nem mandou seus atores e técnicos, nem o filme.

A morte prematura de Otávio Frias Filho, um dia antes da sessão gramadiana de “O Banquete” a colocou na retaguarda. Ela se justificou em carta ao festival: “o momento (é) inoportuno para o encontro entre a ficção e a realidade”. A exibição do filme poderia gerar “interpretações equivocadas, suscitadas pela ficção”.

O argumento que a cineasta escandiu na justificativa enviada a Gramado não agradou (nem convenceu) a todos. No dia do balanço da quadragésima-sexta edição do festival gaúcho, cinéfilos vindos do Rio de Janeiro, com recursos próprios e ingressos previamente comprados, reclamaram (junto aos organizadores do evento) da retirada do filme da competição e programação do Cine Embaixador. Pagaram para assistir a um filme de Daniela Thomas e, na hora do vamos ver, lhes fora oferecido um coloridíssimo musical infantil de Oswaldo Montenegro (“A Chave do Vale Encantado”).

Daniela, que escrevera o texto original de “O Banquete” para os palcos, vinte anos antes, o recriou para as telas incentivada pelo produtor Beto Amaral (com quem escreveu e produziu “Vazante”).

A cineasta garante que seu modelo foi a casa dos pais, na qual Ziraldo, um dos criadores do semanário Pasquim, era o anfitrião de reuniões culinárias que discutiam jornalismo, política, cultura e arte.

Os que acharem que “O Banquete” parece bem mais paulistano que carioca, devem levar em conta que a trama, composta com diálogos ferinos, torna-se factível e provável em qualquer cidade, desde que se desenrole durante um jantar regado a hectolitros de vinho. Depois de taças e taças etílicas, a desinibição se mostra generalizada, a privacidade, as convenções e a compostura se afrouxam. E a língua perde a trava.

“O Banquete” tem um quê de teatral, já que se passa inteiro (ao longo de 104 minutos) em uma única locação: a sala de jantar do casal Plínio e Nora. Mas Daniela cercou-se de recursos cenográficos (um grande espelho potencializa as imagens do peruano-brasileiro Inti Briones, um craque). E os movimentos de câmara do grande fotógrafo nos envolvem. O som, de outro craque que vem tornando-se colaborador assíduo do cinema brasileiro (o lusitano Vasco Pimentel), é perfeito. A trilha de Antônio Pinto, econômica e eficiente. Um filme a se conferir, sabendo que qualquer semelhança com a vida real será “mera coincidência”. Ou não?

 

Filmografia de Daniela Thomas

Terra Estrangeira (com Walter Salles, 199 )
O Primeiro Dia (com Walter Salles, 2000)
Linha de Passe (com Walter Salles, 2008)
Insolação (com Felipe Hirsch, 2009)
Vazante (solo, 2017)
O Banquete (solo, 2018)

 

Por Maria do Rosário Caetano

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