Joel Zito Araújo: de Roterdã à África
Joel Zito Araújo

O cineasta Joel Zito Araújo está feliz da vida. Seu sexto longa-metragem, o documentário “Meu Amigo Fela”, sobre o astro do afrobeat, o nigeriano Fela Kuti (1938-1997), está participando do Festival de Roterdã, na Holanda, como um dos títulos selecionados para a mostra “A Alma no Olho – O Legado de Zózimo Bulbul no Cinema Black e Contemporâneo do Brasil”. O festival prossegue até domingo, 3 de fevereiro. Algumas semanas depois, Joel Zito tomará o rumo da África, onde participará da mostra competitiva do Fespaco (Festival Pan Africano de Burkina Faso). O evento, que acontece em Ouagadougou, de 23 de fevereiro a 2 de março, é o mais importante festival audiovisual do continente africano, junto com as Jornadas de Cartago (na Tunísia).

O mineiro, radicado no Rio de Janeiro, Joel Zito Araújo, de 64 anos, estreou no cinema com uma série de curtas e médias-metragens realizados entre 1989 (“Memórias de Classe”) e 2003 (“Vista a minha Pele”). Sua temática – a questão black – fez dele o Spike Lee brasileiro.

Depois de oito curtas ou médias-metragens (entre eles, “Alma Negra da Cidade”, “Retrato em Preto e Branco”, “São Paulo Abraça Mandela”, “Ondas Brancas nas Pupilas” e “Eu, Mulher Negra”), Joel Zito chegou discretamente ao longa-metragem com “O Efêmero Estado União de Jeová” (1999). Até tornar-se nacionalmente conhecido por “A Negação do Brasil”, filme-manifesto que venceu o respeitado festival É Tudo Verdade, em 2000. Dali em diante, seguiram-se sua única ficção (até agora, pois prepara “O Pai de Rita”) o drama black “As Filhas do Vento” (2004), e os documentários “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado” (2009) e “Raça”, este em parceria com Megan Mylan (2013).

Depois da temporada europeia e africana, Joel Zito pretende mostrar “Meu Amigo Fela” em festivais brasileiros. Quem sabe no mesmo É Tudo Verdade, que premiou “A Negação do Brasil”.

“Eu inscrevi o filme no festival” – conta – “mas cabe à curadoria decidir. Não quero, nem posso, pressionar. Não me acho com nenhum direito adquirido”. Mas – pondera “sei que tenho um filme muito bom. Torço para que a curadoria o escolha. Seria uma excelente janela de estreia deste documentário no Brasil. E eu tenho uma relação afetiva e carinhosa com o É Tudo Verdade. Foi nele que me tornei conhecido”.

O lançamento comercial de “Meu Amigo Fela” está sendo preparado com entusiasmo pela O2Play, a distribuidora de Fernando Meirelles e sócios, mas ainda não tem data agendada.

Carlos Moore e Fela Kuti

De Roterdã, festival que programou três sessões de “Meu Amigo Fela”, Joel Zito respondeu, por e-mail, às perguntas da Revista de CINEMA.

Como está sendo sua passagem pelo Festival de Roterdã? O público vem recebendo bem o filme? A memória de Fela Kuti, passados mais de vinte anos de sua morte, segue viva?

A première de “Meu Amigo Fela” para o público aconteceu no domingo, dia 27, e foi sensacional, sala de 400 lugares, 95% lotada. E o público aplaudiu muito no final. Aí, eu senti o mesmo que o compositor Taiguara (1945-1996). Num certo dia, ele disse: “ver um trabalho pronto (e apreciado pelo público) é ver Deus”. E confesso que mais uma vez, eu estava ansioso. Este festival é muito grande, tem centenas de filmes, dezenas e mais dezenas de salas. Eu não tinha a mínima ideia se teria um público bom ou não. Daí, vocês podem imaginar a minha alegria em ver a sala cheia e a vibração com o filme. Ao chegar para a segunda sessão, vi uma placa na bilheteria: “Lotado”. Quer recompensa maior para um realizador?

Por que, ao realizar “Meu Amigo Fela”, você escolheu o olhar do cubano (radicado, primeiro, nos EUA, depois, temporariamente, na Bahia) Carlos Moore? Por ser ele o biógrafo do astro do afrobeat? Não pensou, em algum momento, em ser você a fonte de diálogo? Um diálogo, mesmo que imaginário, entre um brasileiro que amava/ama Fela Kuti?

Na realidade, o título “Meu Amigo Fela” refere-se a todos os amigos de Fela Kuti que estão no filme e indiretamente eu, um amigo mesmo que imaginário. O dispositivo fílmico para contar a história do Fela consistiu em buscar os relatos dos amigos íntimos deste grande e trágico artista. Lá, você verá o biógrafo, a amante norte-americana que fez a cabeça de Fela, o filho, uma das suas 27 esposas, os artistas gráficos, o baterista que ajudou a criar o afrobeat e assim por diante. Eu queria, portanto, fazer um documentário que entrasse na intimidade de Fela, e esta foi a estratégia que inventei. Carlos Moore acabou tendo um papel discreto de condutor da memória coletiva. É importante também dizer, que Fela foi a minha maneira de falar da África, da geração de panafricanistas que sempre admirei, e de minhas angústias com as tragédias que o continente viveu e vive. É, portanto, um filme que tem também o meu ponto de vista, neste sentido.

O que o Fespaco representa em sua carreira? Já participou outras vezes?

O Fespaco é um festival mítico para todo realizador afrodescendente. Ele e as Jornadas de Cartago são os dois maiores e mais respeitados espaços de encontro e de celebração do cinema africano e diaspórico. Todos interessados neste tipo de cinema vão para lá. Apesar do calor, do “vapor” da areia quente do deserto do Saara que chega até lá. E da eterna desorganização que é quase uma marca registrada. Mas participar de um festival que começa e termina, fazendo as “premiações” no grande estádio de futebol do país, é o máximo. Eu já participei duas vezes com meus filmes. Na primeira, através de uma mostra organizada por Zózimo Bulbul. Na segunda, com “Raça”, como competidor ao Troféu Paul Robeson, uma categoria de prêmios que existia para filmes diaspóricos. Agora, estou na competição principal de longa-documentário. E o meu filme é o único não-africano que participa das duas categorias principais, dedicadas a longas de ficção e longas documentais.

Você está feliz com o resultado artístico de “Meu Amigo Fela”? Conseguiu as imagens que queria? Os direitos musicais?

Estou superfeliz. Não obtive todas imagens que queria, mas o que tenho impressiona todo mundo. Se tivesse mais dinheiro, teria mais. Consegui também os direitos de 23 minutos de música de Fela. Isto só foi possível graças à compreensão dos filhos de Fela Kuti e do carinho deles com Carlos Moore. Os custos das imagens e música foram duramente negociados pela minha produtora Luíza Botelho Almeida, que se revelou excelente negociadora para chegar ao que chegamos com o pouco dinheiro que eu tinha. A minha montadora Isabel Mattos, que tem um grande faro de pesquisadora, foi também fundamental para encontrar as imagens de arquivo e usar com inteligência o material que eu comprei.

 

Por Maria do Rosário Caetano

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