Prêmios Platino 2019
Equipe do filme "Roma"

Por Maria do Rosário Caetano

“Roma”, o fenômeno comandado por Alfonso Cuarón, Leão de Ouro em Veneza e vencedor de três Oscar, triunfou mais uma vez ao conquistar as principais categorias dos Prêmios Platino: melhor filme e melhor direção. Para completar, triunfou também nas categorias melhor roteiro e melhor fotografia (ambos de Alfonso Cuarón) e melhor som.

Quem pensou que a festa realizada na noite de domingo, 12 de maio, pela segunda vez na Riviera Maya, colocaria um ponto final na trajetória do filme mais bem-sucedido da história mexicana, enganou-se. Até porque, no dia 24 de junho próximo, “Roma” disputará 15 das 25 categorias da sexagésima-primeira edição dos Prêmios Ariel, o “Oscar azteca”. Mas, ao contrário dos Prêmios Platino, o filme de Cuarón tem em seu encalço o ótimo “Museu”, de Alonso Ruizpalácios (14 indicações), o inventivo “Nuestro Tiempo”, de Carlos Reygadas, e duas obras femininas, “Las Niñas de Bien”, de Alejandra Márquez Abella (também com 14 indicações) e “La Camarista”, de Lila Avilés.

Os 378 associados da Academia Mexicana de Artes e Ciências Cinematográficas podem reafirmar os vereditos de Veneza, do Oscar e do Platino, mas podem, também, deixar de “chover no molhado” e arriscar-se em novas premiações.

Os organismos que promovem os Prêmios Platino (Egeda e Fipca, instituições ibero-americanas de coleta de Direitos de Autor e de união de produtores, somados a Academias de Cinema da Península Ibérica e América Hispânica) apostaram com gosto no bem-sucedido “Roma”. Para receber as cinco estatuetas platinadas atribuídas ao filme, subiram ao palco de Teatro X-Caret dois representantes de Alfonso Cuarón, pois ele não apareceu na Riviera Maya. Que, registre-se, situa-se a poucas horas de voo da Cidade do México, onde ele vive. E não mandou nenhuma justificativa.

O prêmio principal, o de melhor filme, foi entregue por trinca de peso: a espanhola Maribel Verdu (protagonista de “E Tu Mamán, También”, do mesmo Cuarón), a colombiana Angie Cepeda (“Pantaleão e as Visitadoras”) e o norte-americano John Bailey, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Sem Cuarón, faltou clima. As atrizes Yalitza Aparício, a doméstica que protagoniza “Roma”, e Marina Tavira (que interpreta sua patroa) até subiram ao palco. Mas os dois integrantes da equipe de produção cuarônica continuaram a fazer agradecimentos burocráticos e entediantes.

Como burocrático e entendiante foi o discurso do vencedor do Premio Platino de Honor, o cantor e ator Raphael, de 76 anos. Conhecido como “A Voz”, ou seja, uma espécie de “Frank Sinatra espanhol”, ele lembra mais um Moacir Franco, sem o humor deste. Sua fala, despida de uma ideia original que fosse, soou olvidável especialmente a quem ouviu, em Marbella 2015, o também espanhol Antonio Banderas agradecer seu Platino de Honor com discurso sanguíneo e apaixonante.

Os discursos da sexta noite dos Platino passariam em branco se o ator espanhol Antonio de la Torre não vencesse em sua categoria (melhor protagonista masculino). Ele injetou paixão, humildade e generosidade em sua sintética, mas vigorosa fala. Foi premiado pelo thriller espanhol “El Reyno”, mas lembrou-se de outro trabalho notável, que figurava na lista de candidatos a melhor filme, o uruguaio “Uma Noite de Doze Anos”. Neste filme, coube-lhe interpretar Pepe Mujica, o guerrilheiro montonero encarcerado e, portanto, distante da presidência do país platino, que só assumiria algumas décadas depois. De la Torre ofereceu-se, com brilho nos olhos, para trabalhar em outros países hispano-americanos, o México, inclusive, por ter gostado bastante da experiência uruguaia.

Mais dois discursos chamaram atenção na sexta noite dos Prêmios Platino: o da atriz paraguaia Ana Brun, pela emoção, e o do ator Oscar León, de “Arde Madrid”. Ele contou que os produtores desta série televisiva, evocação do ar e ardência madrilenhos nos anos em que a atriz Ava Gardner morou por lá, procuraram a Netflix, mas foram esnobados. Encontraram abrigo na MovieStar. “O que significa” – provocou – “que há vida inteligente também fora da Netflix”.

No campo da TV, que conta com apenas três categorias no Platino (série, atriz e ator), foram premiados Cecília Suárez, apresentadora da festa junto com o espanhol Santiago Segura, e Diego Luna, por seu notável trabalho na quarta temporada de “Narcos”, justo a ambientada em Guadalajara. O ator, outra estrela revelada por “E Tu Mamán, También”, não pôde comparecer, mas mandou simpático texto de agradecimento, lido por seu amigo e colega de elenco, Tenoch Huerta.

O Brasil teve presença modestíssima na festa dos Platino. Só disputou duas categorias (melhor música e direção de arte, com “O Grande Circo Místico, de Cacá Diegues) e se fez representar pela atriz Mariana Ximenez, que anunciou dois prêmios técnicos, e pela cantora Malia, participante de “versão cinematográfico-coletiva” da canção partigiano-italiana “Bella Ciao”, transformada em hit pop pela série espanhola “Casa de Papel”. Por sorte, fotografias do mineiro Sebastião Salgado (cujo documentário “O Sal da Terra”, de Wim Wenders e Juliano Salgado conquistou o Platino, em Marbella) ganharam bela projeção no imenso cenário digital da cerimônia ambientada na Riviera Maya.

Confira os vencedores:

“Roma” (México): melhor filme, diretor, fotografia, roteiro e som (Sergio Díaz, Skip Lievsay, Craig Henighan y José García)

“Las Herederas” (Paraguai): melhor filme de diretor estreante (opera-prima) e melhor atriz (Ana Brun)

“El Reyno” (Espanha): melhor ator (Antonio de la Torre), montagem (Alberto del Campo)

“Campeones” (Espanha): Prêmio Educação em Valores

“Pájaros de Verano” (Colômbia): melhor direção de arte (Angelica Perea)

“Yuli” (Cuba/Espanha): melhor música original (Alberto Iglesias)

“O Silêncio dos Outros” (Espanha) – melhor documentário

“Mais um Dia de Vida” (Espanha): melhor animação

“Arde Madrid” (Espanha): melhor série

“La Casa de las Flores” (México): melhor atriz (Cecília Suárez)

“Narcos” (México) – melhor ator (Diego Luna)

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