Bacurau

Por Maria do Rosário Caetano

“Minha paixão há de brilhar na noite/ No céu de uma cidade do interior/ Como um objeto não identificado”. Estes versos de Caetano Veloso embalam as imagens iniciais de “Bacurau”, longa dos pernambucanos Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 29 de agosto. A abertura,  que homenageia o kubrickiano “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, nos localizará no território de uma cidade do interior (a fictícia Bacurau), e nos impregnará de referências a outros clássicos do cinema dos anos 1970 (e 80), de John Carpenter a Sam Peckimpah, passando por Coppola, Oliver Stone e Alfred Hitchcock. Kleber Mendonça garantiu, durante debate em Gramado, “ser quase impossível fazer algo no cinema sem passar por ele”. Ou seja, pelo diretor de “Vertigo”e “Janela Indiscreta”.

“Bacurau”, por sorte, não interrompe sua narração vertiginosa para fazer citações metalinguísticas. Nele, tudo resulta orgânico e, vale registrar, os dois diretores incorporam, também, matrizes brasileiras, a começar por Glauber Rocha, Paulo Gil Soares, Roberto Santos (a quem o filme homenageia com o sublime “Réquiem para Matraga”, criação de Geraldo Vandré) e, até, Eduardo Coutinho (Cabra Marcado para Morrer).

Os gêneros somam-se com grande fluência na trama de “Bacurau”. Das cores prateado-azuladas da ficção científica (o filme se passa em tempo futuro, embora próximo), somos arremessados em um western brutal, temperado com cenas de horror e muito cinema de ação (cabeças cortadas ou estouradas a tiro). É difícil, para não dizer impossível, definir a trama de “Bacurau”, que já foi visto (em pré-estreias) por 20 mil espectadores. Todos ansiosos para assistir, em primeira mão, ao filme que recebeu o Prêmio do Júri, em Cannes, e vem cumprindo intenso cronograma em festivais internacionais (eleito o melhor longa no Festival de Lima, no Peru).

De forma sumária, podemos dizer que “Bacurau”conta a história de um povoado do sertão brasileiro que, de forma enigmática e com drones voando pelos ares, é invadido por forças desconhecidas. Os invasores falam inglês e estão municiados com arsenal bélico de altíssima potência. O jeito é resistir como der. Com armas obsoletas, com armadilhas, com a astúcia dos despossuídos.

Kleber Mendonça lembrou, no debate em Gramado, que ele e Juliano, autores do roteiro — escrito e amadurecido ao longo de quase dez anos — inspiram-se em, pelo menos, duas notáveis experiências de resistência: a Segunda Guerra Mundial, em especial o levante do Gueto de Varsóvia, e a Guerra do Vietnã. Neste caso, o povo de um pequeno país oriental enfrentou a maior potência bélica do planeta, os EUA (com aviação pesada, napalm etc.), e venceu.

Um dos temas recorrentes nos debates que vem cercando as exibições de “Bacurau”, no Brasil e no exterior, é a violência. Se o invasor-caçador é violento, os “invadidos”não se fazem de rogados. Nada têm de pacifistas. Os dois roteiristas justificaram o uso da violência por aqueles que são ameaçados pela força das armas. “O que vemos no filme não é revanche, é resistência. Uma comunidade encurralada cava um imenso buraco em seu território e busca mecanismos de defesa. Se só dispõem de armas velhas do Museu Comunitário, não importa. É o que têm à mão, é o que vão usar”.

Os moradores de Bacurau são seres humanos com qualidades e defeitos. Pacote (Thomas Aquino) quer abandonar a violência e tornar-se um cidadão comum. Lunga (o impressionante Silvero Pereira, caracterizado como um mix de cangaceiro-chefe de facção-pop-andrógino) é um fora-da-lei, que regressa para ajudar seu núcleo originário. Domingas (Sonia Braga) vive de seu ofício de médica municipal, mas bebe além da conta.

Os moradores têm a pele tostada pelo sol nordestino e são, em maioria, mestiços e negros. Os invasores (ou caçadores) são anglo-saxões (e, por ironia, chefiados por um alemão, interpretado pelo carismático Udo Kier). O elenco é coral. Não há protagonistas. Há, sim, alguns destaques. Além dos já citados, há figuras imponentes como o professor Plínio (Wilson Rabelo) e a jovem Teresa (Bárbara Colen), que regressa a Bacurau para o enterro da avó, a líder comunitária Carmelita (Lia de Itamaracá).

Um fato impressionante, no filme, é como símbolos do cinema de gênero — os caixões dos filmes de terror, os tiroteios dos filmes de ação, as cabeças cortadas, dos nordesterns — se somam num todo que nos leva à reflexão, não à catarse. No trajeto de Teresa rumo à Bacurau, feito na cabine de um caminhão-pipa, vemos uma sequência de caixões espalhados pela estrada. No final de filme, um dos nomes evocados pelos moradores de Bacurau (além de Marielle Franco, o mais forte em nossos dias) é o do líder camponês João Pedro Teixeira, assinado por proprietários de terra, no início dos anos 1960. Ele, o cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho, liderava as Ligas Camponesas, movimento social nascido no Nordeste brasileiro para ajudar a enterrar (num caixão e não mais numa simples mortalha) os que morriam.

O filme tem diversas camadas. Sua fruição pode dar-se em vários níveis. Alguém, acostumado a filmes de ação, poderá, num determinado momento, ver apenas a cabeça de um “caçador” explodindo ao levar um tiro. Mas outro, um pouco mais atento, decerto verá que ela (a cena) foi construída com elementos perturbadores. Quem atira é um homem já de idade, nu, acompanhado da roliça mulher, também nua. E há a trilha sonora, nunca rebarbativa. Sempre instigadora da busca de novos sentidos. Enfim, um filme incômodo e inquietante, instigante.

 

Bacurau
Brasil, 132 minutos, 2019
Direção: Kleber Mendonça e Juliano Dornelles
Elenco: Sonia Braga, Silvero Pereira, Bárbara Colen, Wilson Rabelo, Thomas Aquino, Karine Teles, Udo Kier, Antônio Saboia, Luciana Souza, Alli Willow, Edilson Silva, Susy Lopes, Ingrid Trigueiro, Buda Lira, Clébia Sousa
Fotografia: Pedro Sotero
Produção: Emilie Lescaux, Saïd Ben Saïd, Globo Filmes e Canal Brasil
Distribuição: Vitrine Filmes
Censura: 16 anos

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