Adiamento de “Marighella” complica ainda mais bilheteria brasileira do ano
"Os Parças 2", de Cris D'Amato

Por Maria do Rosário Caetano

Com o anúncio oficial, feito pela produtora O2, do adiamento – sem indicar nova data – da estreia de “Marighella”, primeiro longa-metragem do ator (agora diretor) Wagner Moura, o balanço das bilheterias brasileiras neste ano de 2019 não deve ser dos mais animadores.

Houve, sim, duas boas surpresas – “Minha Vida em Marte”, com mais de 5 milhões de ingressos, e “Turma da Mônica – Laços”, com mais de 2 milhões –, mas a lista dos filmes que ficaram aquém do esperado é robusta (ver tabela abaixo). Neste caso, deve-se incluir “De Pernas pro Ar 3”, de Júlia Rezende, protagonizado pela rainha das bilheterias, Ingrid Guimarães. Sufocado pelo fenômeno-avalanche “Vingadores”, o brasileiro perdeu circuito e ficou reduzido a menos da metade de sua parte dois (mais de 4 milhões de tíquetes).

Até “Nada a Perder 2”, segunda parte da cinebiografia do Bispo Edir Macedo, vem tendo desempenho infinitamente menor que os propagados para os dois lançamentos anteriores ligados à TV Record e à Assembleia de Deus. O primeiro – “Os 10 Mandamentos” – versão compacta de telenovela de mesmo nome, teria vendido 11.216.000 de ingressos. A imprensa, porém, registrou fenômeno curioso: lotações esgotadas nas bilheterias, mas salas com cadeiras vazias.

O segundo – “Nada a Perder 1”, início da modorrenta trajetória religiosa e empresarial de Edir Macedo (que não chega aos pés das Pragas do Egito e da abertura do Mar Vermelho, matérias-primas de “Os 10 Mandamentos”) – teria vendido (inacreditáveis) 11.300.000 ingressos. Só que a imprensa, mais uma vez, registrou, em reportagens as mais diversas, bilheterias esgotadas e salas semiocupadas ou vazias.

Com “Nada a Perder 2”, o circuito exibidor reduziu-se à metade e a bilheteria seguiu pelo mesmo caminho. No Boletim Filme B, de 10 de setembro, estavam registrados 4.979.000 “pagantes” e circuito exibidor de apenas 331 salas, contra as 618 ocupadas em 20 de agosto, data da estreia (muitas vezes adiada).

Resta indagar: há esperança de um bom quarto (e último) trimestre deste ano de 2019 para as bilheterias brasileiras?

Tudo leva a crer que as expectativas são moderadas. Até 26 de dezembro, quando deve ser lançado o terceiro filme da série “Minha Mãe é uma Peça”, com o “midas” Paulo Gustavo, o circuito comercial receberá 35 novas produções brasileiras.

"Minha Mãe é uma Peça 3" © Marco Antônio Teixeira

Fora as bilheterias bíblicas (e questionáveis) dos filmes de Edir Macedo, o maior blockbuster do Brasil contemporâneo continua sendo “Tropa de Elite 2” (11.146.000), seguido por “Dona Flor e seus Dois Maridos” (10.750.000) e “Minha Mãe é uma Peça 2” (9.250.000).

Muitos dos 35 títulos brasileiros programados até dezembro são documentários ou ficções que chegarão a poucas salas e pouquíssimos horários. Não devem atingir a marca de 5 mil ingressos (cada). Este ano, só dois documentários brasileiros – o cativante “Fevereiros”, sobre a fé de Maria Bethânia, e o ótimo “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar”, do pernambucano Marcelo Gomes – fizeram bonito (o primeiro vendeu 20 mil ingressos e o segundo, 12 mil).

O bom desempenho de “Bacurau”, de Kleber Mendonça e Juliano Dornelles (300 mil espectadores em suas duas primeiras semanas), mostra que o filme pode ir bem além da significativa bilheteria de “Aquarius” (370.000). Mas entre os novos lançamentos brasileiros, anunciados para este último trimestre do ano, não há nenhum filme de arte com o cacife do longa pernambucano. Para “ Bacurau”, a Vitrine conseguiu o maior lançamento já disponibilizado a um filme cultural (250 salas). O longa estourou no circuito mais alternativo (Espaço Itaú, Reserva Cultural, Belas Artes, Estação Botafogo, Cinemas da Fundação Joaquim Nabuco, cinemas universitários etc). E teve desempenho mediano no chamado circuitão.

Entre os filmes de arte, as expectativas concentram-se no belo “Domingo”, de Fellipe Barbosa (dia 3 de outubro), “Greta”, de Armando Praça, vencedor do Cine Ceará (10 de outubro), e, especialmente, em “A Vida Invisível”, que seu autor, Karim Aïnouz, define como “ um melodrama tropical”. O filme chegará aos cinema dia 31 de outubro (e com esperanças de emplacar vaga entre os cinco finalistas ao Oscar internacional).

"Greta", de Armando Praça

Três filmes de terror – “ O Clube dos Canibais”, de Guto Parente (3 de outubro), “Morto Não Fala”, de Dennisson Ramalho, e “A Noite Amarela”, de Ramon Porto Mota (ambos, dia 10 de outubro) são as apostas.

No terreno do documentário, dois títulos chamam atenção: “ A Turma do Pererê”, sobre o cartunista Ziraldo e suas criaturas (dia 3 de outubro), e “Meu Nome É Daniel”, de Daniel Gonçalves (uma semana depois). Este filme, se conseguir mobilizar associações de amigos de portadores de deficiências físicas, poderá atingir plateia similar à que, outrora, conquistou “Do Luto à Luta”, de Evaldo Mocarzel (sobre portadores de Síndrome de Down). Como o filme de Evaldo, “Meu Nome é Daniel” não tem chororô. Nele, ninguém clama por piedade. O protagonista do filme (e seu diretor) é autoconfiante. Alto-astral.

Duas animações estão com data agendada (10 de outubro): “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra (baseado em tiras de Laerte) e “A Princesa Elymia”, de Sílvio Toledo.

“A Princesa Elymia”, de Sílvio Toledo

No terreno dos filmes com potencial de público, dá para apostar em “Hebe, a Estrela do Brasil” (dia 26 de setembro), “Ela Disse, Ele Disse”, de Cláudia Castro, com a adolescente Maísa (3 de outubro), “Maria do Caritó”, de João Paulo Jabour, com Lilia Cabral (31 de outubro), “Carcereiros”, de José Eduardo Belmonte (versão da bem-sucedida série da TV Globo), e “Os Parças 2”, de Cris D’Amato, com Tom Cavalcanti liderando elenco dos mais divertidos, incluindo os tontos Whindersson Nunes e Turulipa (ambos programados para 28 de novembro). O primeiro filme dos “Parças”, dirigido por Halder Gomes, vendeu mais de 1,6 milhão de ingressos.

Em dezembro – mês da aguardada estreia de “Minha Mãe é uma Peça 3” –, só três produções brasileiras brigarão por um bom circuito: dia 5, “10 Horas para o Natal”, também de Cris D’Amato, com o “tio” Luiz Lobianco (o filme anterior do ator, “Um Tio Quase Perfeito”, vendeu 500 mil ingressos), e dia 12, “Veneza”, de Miguel Fallabela, e “O Juízo”, de Andrucha Waddington, com roteiro de Fernanda Torres.

“Carcereiros”, de José Eduardo Belmonte © Ramón Vasconcellos

Maiores bilheterias do ano:

. Minha Vida em Marte………….5.500.000
. Turma da Mônica Laços……….2.150.000
. De Pernas Pro Ar 3………………1.850.000
. DPA – O Mistério Italiano…….1.350.000

Desempenhos aquém do esperado:

. Kardek………………………………760.000
. Cinderela Pop…………………….490.000
. Sai de Baixo………………………..470.000
. Cine Holliúdy 2…………………..180.000
. Eu Sou Mais Eu…………………..130.000
. Minha Fama de Mau……………120.000
. Chorar de Rir……………………….90.000
. Simonal……………………………….70.000
. O Grande Circo Místico…………55.000
. O Amor dá Trabalho……………..52.000
. Socorro, Virei uma Garota!……25.000

Nota oficial sobre o adiamento de “Marighella”

Nós, produtores do longa-metragem “Marighella”, dirigido por Wagner Moura, anunciamos que a data de lançamento do filme, nos cinemas brasileiros, divulgada anteriormente para 20 de novembro de 2019, está cancelada.

Os produtores haviam escolhido o mês de novembro, que marca os 50 anos de morte de Carlos Marighella, e o dia 20, da Consciência Negra, para a estreia. No entanto, a O2 Filmes não conseguiu cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela Ancine (Agência Nacional do Cinema).

“Marighella” segue sendo apresentado com muitos sucesso em vários festivais de cinema no mundo. Nosso objetivo principal sempre foi a estreia no Brasil. Os produtores e a distribuidora Paris Filmes vão seguir trabalhando para que isso aconteça.

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(2) Comente

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  2. Eu pensei que “Turma da Mônica – laços” ultrapassaria o atual campeão de bilheteria do cinema brasileiro. Como é que pode? Somente um pouco mais de 2 milhões de espectadores? Que pena. No dia em que fui assisti-lo, o filme estava concorrendo com “O rei leão” e mesmo assim a sala que exibiu “Turma da Mônica” estava lotada, não cheia, mas perto de encher.

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