“Greta” é o grande vencedor do Cine Ceará
Equipe do vencedor "Greta" © Rogério Resende

Por Maria do Rosário Caetano, de Fortaleza (CE)

Depois de conquistar oito Kikitos em Gramado com a comédia musical “Pacarrete”, de Allan Deberton, o cinema cearense consegue novo triunfo. Pela primeira vez em sua história, o Festival Ibero-Americano de Cinema, o Cine Ceará, entregou três de seus principais troféus (o Mucuripe) a uma produção feita em casa. O longa “Greta”, que participou da mostra Panorama, no Festival de Berlim, em fevereiro último, foi eleito, por júri hispano-brasileiro, como o melhor filme da competição. Seu protagonista, Marco Nanini, recebeu o Mucuripe de melhor ator e o estreante Armando Praça, o de melhor diretor.

E não foi por bairrismo. Foi, isto sim, um merecido reconhecimento às qualidades e ousadias do filme, um drama de amor (e dores) homoafetivo. Armando Praça, autor de ótimos curtas e assistente de Karim Aïnouz em “O Céu de Suely” e “Praia do Futuro”, amadureceu, por dez anos, seu projeto de estreia, uma adaptação livre da peça “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Melo. Burilou o roteiro como um ourives e convocou profissionais de primeira linha para ajudá-lo. A começar pelo diretor de fotografia, o inventivo Ivo Lopes Araújo.

No elenco, além de Nanini, magistral em papel dos mais difíceis — um enfermeiro homossexual que dá abrigo a criminoso ferido (o ótimo Démick Lopes) —, brilham Denise Weinberg, na pele de uma cantora transexual com grave problema de saúde, e Gretta Sttar, como uma mulher comum. Detalhe importante: Denise é uma atriz cisgênero, e Gretta é transgênero. O diretor apostou na inversão de papéis. Com ótimo resultado.

Depois de “Greta”, os filmes mais premiados foram o peruano “Canção sem Nome”, um drama social com forte pegada documental, dirigido por Melina León (o preferido do júri da Crítica e melhor fotografia, para Inti Briones) e o cubano “A Viagem Extraordinária de Celeste García”, simpática e bem-realizada ficção científica em tom de comédia, que laureou sua protagonista, María Isabel Díaz, seu roteirista (Arturo Infante) e seu montador (ver tabela completa abaixo).

Mais duas produções brasileiras receberam prêmios técnicos: melhor direção de arte para “Notícias do Fim do Mundo”, longa de Rosemberg Cariry, e melhor som para o documentário “Ressaca”, sobre a crise financeira que se abateu sobre o Theatro Municipal, visto como microcosmo de crise maior, a do Estado do Rio de Janeiro. A quarta produção brasileira, o documentário “Vozes da Floresta”, de Betse de Paula, não ganhou nenhum Mucuripe. Mesmo caso do mexicano “Luciérnagas” (“Vagalumes”), de Bani Khoshnoudi (nascida no Irã, de onde saiu aos dois anos, e cidadã do mundo).

Este ano, o Cine Ceará pesou a mão na seleção de títulos brasileiros: quatro longas, que se somaram a três hispano-americanos (Peru, Cuba e México). Caso queira continuar com seu recorte ibero-americano, faz-se necessário selecionar filmes da Espanha ou Portugal, e de mais países da América Hispânica. A balança mostrou-se desequilibrada.

Todos os premiados da 29ª edição do Cine Ceará © Rogério Resende

Na categoria curta nacional, o grande premiado foi “Marie”, do pernambucano Leo Tabosa (duas vitórias seguidas, pois ano passado seu “Nova Iorque” sagrou-se o vencedor). Prêmio justo, já que a história de Marie, que nasceu Mário, deixou sua terra natal e só regressou, passados 20 anos, para enterrar o pai, foi o mais elaborado e sólido dos 12 selecionados. Registre-se a excepcionalidade da presença cearense na competição de curtas brasileiros (cinco vagas). Pouco espaço sobrou para outros Estados (São Paulo, com três, Alagoas, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Rio de Janeiro, com um cada).

O cinema cearense vive, realmente, uma primavera. Emplacou dois longas na competição ibero-americana, sendo um deles o vencedor (“Greta”), exibido, além de Berlim, em Londres, Guadalajara, Zurique e Taipei. Teve, em sua noite de encerramento, o festejadíssimo “Pacarrete”, primeiro longa do Estado a triunfar em Gramado, e orgulha-se de se fazer representar por um diretor, Karim Aïnouz, nascido em Fortaleza (onde é professor-tutor na Escola Porto Iracema) como candidato brasileiro a uma vaga no Oscar, com “A Vida invisível”.

E mais: o Cine Ceará ampliou o alcance da mostra Olhar do Ceará, historicamente dedicada ao curta-metragem, com três longas (e 17 curtas, escolhidos entre 100 candidatos). O vencedor do trofeu Mucuripe, na categoria longa cearense, foi “Currais”, de David Aguiar e Sabina Colares. Este documentário aborda tema-tabu: os acampamentos (ou “campos de concentração”) criados durante a terrível seca de 1932, para aprisionar e impedir que flagelados chegassem, em massa, à Fortaleza. Uma política de cunho higienista, praticada por governantes que não queriam ver desvalidos nas ruas e esquinas de sua capital. O filme contou com apoio do Itaú Cultural, fonte de estímulo a documentários de pesquisa e/ou invenção.

Com o crescimento da produção do Estado (e com a promessa do governador Camilo Santana de realizar novos investimentos no Audiovisual) o Cine Ceará deve continuar dispondo de significativa quantidade de filmes. Mas não com a riqueza quantitativa e, o que é melhor, qualitativa deste ano. Até porque as parcerias com editais e outros mecanismos de fomento federal devem diminuir (esta é a vontade expressa do governo Bolsonaro).

A festa de premiação, realizada na noite de sexta-feira, 6 de setembro, começou com o reconhecimento do ator paulistano, Matheus Nachtergaele, por sua rica trajetória no audiovisual brasileiro. Ele recebeu o Trofeu Eusélio de Oliveira das mãos do ator Luiz Fernando Guimarães, com quem atuou no filme “O que É Isto, Companheiro?” (Bruno Barreto, 1998).

Em vigoroso (e bem-humorado) discurso de agradecimento, Nachtergaele lembrou sua escalação para papéis de homens comuns, gente do povo, citando o João Grilo de “O Auto da Compadecida”, o Isaías de “Central do Brasil”, o homossexual Dunga, de “Amarelo Manga”, o guerreiro farroupilha de “Anahy de las Misiones”, o Sandro Cenoura, de “Cidade de Deus”, o Quinzinho de “Tapete Vermelho”, entre muitos outros.

Lembrou que, ao ser revelado pelo Teatro da Vertigem como protagonista da peça “Livro de Jó”, imaginara que os palcos seriam seu território principal, mas o cinema o tomou de tal forma, que, além de atuar em inúmeros longas-metragens, realizou seu primeiro trabalho como diretor (“A Festa da Menina Morta”, 2008) e deseja fazer outros.

O ator Matheus Nachtergaele com o Troféu Eusélio de Oliveira, entregue por Luis Fernando Guimarães © Rogério Resende

O ator, já com seu troféu na mão, finalizou sua fala com vigoroso desabafo político: “não somos um país ultracapitalista, não somos um país neopentecostal, nem militar, nem miliciano”. A senda que ele abriu não se impôs na demorada (e sem ritmo) noite de entrega dos troféus Mucuripe. Mas o público recebeu com muitos aplausos a maioria das decisões dos vários júris. Do curtíssimo “Olho d’Água” ao triunfo de “Greta”. Aplaudiu, também, com veemência, a decisão do festival de reservar 30% de suas vagas a produções (longas e curtas) dirigidas por mulheres.

“Pacarrete”, o filme cearense que Gramado consagrou, foi então exibido em caráter hors concours. O diretor Allan Deberton e sua protagonista, Marcélia Cartaxo, subiram ao palco com quase 30 integrantes da equipe. Foram recebidos com palmas entusiásticas. E as imagens do filme, ao baterem na imensa tela do São Luiz, motivou saborosas e sonoras risadas. E não só de fortalezenses e russanos (nascidos em Russas, cidade onde nasceu a Pacarrete real, um bailarina e professora de balé). A fruição do filme se deu entre todos. Os aplausos no final foram intensos e longos, embora a plateia não soubesse se curtia a música que acompanhava os créditos (a trilha sonora do filme é descoladíssima — de “Ritmo da Chuva”, com Sylvie Vartan, a Tina Turner e a badalada “We Don’t Need Another Heroi”, passando por “Douce France”, com Charles Trenet).

Perto da meia-noite, quando a longa festa cinematográfica terminou, o público dirigiu-se à Praça do Ferreira, onde o belo Cine São Luiz tenta vencer o abandono. E, com música ao vivo, festejou os premiados e o melhor momento da história do audiovisual cearense. Ano que vem, o Cine Ceará realizará sua trigésima edição.

Confira a lista dos premiados:

LONGAS IBERO-AMERICANOS

. “Greta” (Brasil) – melhor filme, diretor (Armando Praça), ator (Marco Nanini)
. “Canção sem Nome”(Peru) – Prêmio da Crítica (Abraccine), melhor fotografia (Inti Briones), trilha sonora (Pauchi Sasaki), Prêmio Olhar Universitário
. “A Viagem Extraordinária de Celeste García” (Cuba) – melhor atriz (María Isabel Díaz), roteiro (Arturo Infante), montagem (Joanna Montero)
. “Notícias do Fim do Mundo” (Brasil) – melhor direção de arte (Sérgio Silveira)
. “Ressaca”(Brasil) – melhor som (Romain Huonnic)

MOSTRA OLHAR DO CEARÁ

. “Currais”- melhor longa
. “Aqueles Dois”- melhor curta

MOSTRA DE CURTAS NACIONAIS

. “Marie” (PE-CE) – melhor filme
. “Livro e Meio” – melhor direção (Giu Nishiyama e Pedro Nishi), Prêmio da Crítica
. “O Grande Amor do Lobo”(RN) – melhor roteiro (Kennel Rogis e Adrianderson Barbosa), Prêmio Canal Brasil
. “Pop Ritual” (CE) – melhor produção cearense, Prêmio Olhar Universitário
. “Rua Augusta 1029” (SP) – Troféu Samburá (melhor direção, para Mirrah Iañez)
. “Ilhas de Calor” (AL) – Troféu Samburá (melhor curta)

MOSTRA ÁGUA E FUTURO

. “Olho d’Água”, de Anália Alencar – Prêmio Cagece de melhor curta ambiental

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