Paulo Miklos
© Acervo Paulo Miklos

Por Maria do Rosário Caetano

O cinema, a TV e o teatro estão ocupando cada vez mais espaço na vida de Paulo Miklos, ex-integrante da banda Titãs. Mês passado, ele recebeu, em Gramado, o Kikito de melhor ator protagonista por “O Homem Cordial”, novo longa-metragem do brasiliense Iberê Carvalho. Não pôde receber o troféu no badalado palco do Palácio dos Festivais, pois participava – também como protagonista – das filmagens de “Jesus Kid”, de Aly Muritiba, recriação de livro de Lourenço Mutarelli.

Miklos tinha, ainda, compromisso no teatro, pois vem desenvolvendo temporada com “Chet Baker, Apenas um Sopro”, no qual interpreta o grande jazzista norte-americano (1929-1988). Tem feito, na TV, novelas e séries (as mais recentes são “Assédio” e “Filhos da Pátria”, ambas na Rede Globo).

O ator tem convite para mais dois filmes: “Estômago 2”, de Marcos Jorge, e “Quando Eu Parei de me Preocupar com Canalhas”, versão longa de premiadíssimo (e muito bem-humorado) curta-metragem dirigido pelo jovem Tiago Vieira.

Em Gramado, onde passou apenas uma noite e uma manhã, tempo necessário para apresentar e, no dia seguinte, debater “O Homem Cordial”, Paulo Miklos admitiu que a carreira de ator está (quase) superando a de músico. Mas seguirá dedicando-se, com igual paixão, às duas linguagens.

A banda Titãs, criada em São Paulo, em 1982, teve Miklos como um de seus fundadores. A vida de ator começou de forma inesperada, inusitada até. Em 2001, Beto Brant, para espanto de Marçal Aquino, autor da novela que daria origem ao filme, convidou Paulo Miklos para interpretar “O Invasor”. Ou seja, o personagem Anísio, um matador de aluguel contratado pelos engenheiros Gilberto (Alexandre Borges) e Ivan (Marco Ricca) para assassinar Estevão, sócio-majoritário em empresa de construção civil, comandada pelos três, colegas desde o tempo de faculdade.

Em debate sobre o filme, realizado na quarta-feira, 18 de setembro, no Cine Petra Belas Artes, em São Paulo, Marçal Aquino lembrou sua apreensão: “chamar um roqueiro para interpretar Anísio? A ideia me pareceu temerária, pois o cara não tinha feito nem teatro na escola”.

Paulo Miklos protesta: “também não avacalha, fiz sim teatro no colégio”. Beto Brant lembrou, até, que o roqueiro tinha parente que fora grande atriz. O ex-Titã esclareceu: “era minha bisavó, húngara, realmente uma grande atriz, que se suicidou, mas não por causa de sua carreira, e sim por angústias advindas de estar num país estranho, do qual desconhecia a língua, desconhecia tudo”.

Paulo Miklos entre Marçal Aquino e Beto Brant, em evento do filme "O Invasor", no Cine Petra Belas Artes © Maria do Rosário Caetano

Quando viu “O Invasor” pronto, o escritor e roteirista não teve dúvida. “Beto Brant fizera a escolha certa”. Anísio causara sensação no Festival de Brasília, que reconheceu Brant como o melhor diretor e Miklos como “ator revelação”. Depois, o filme seria premiado como o melhor longa latino-americano no Sundance Festival, nos EUA.

Marçal lembrou que, recentemente, assistira ao filme “Persona Non Grata”, do francês (de origem marroquina) Roschdy Zem, uma refilmagem de “O Invasor”. Há que se registrar que Roschdy é um dos atores de “Indigènes” (no Brasil, “Dias de Glória”), filme que causou sensação ao participar, em 2006, da competição oficial do Festival de Cannes.

“O longa de Zem” – constata Marçal Aquino – “é muito fiel ao nosso roteiro”. São poucas as modificações: “ele ampliou o papel das esposas dos dois empresários da construção civil, que são bem pequenos no nosso filme”. Maiores, em “O Invasor”, são os papeis de Malu Mader, uma garota de programa, e de Mariana Ximenes, a jovem filha de Estevão, o sócio assassinado, junto com a esposa, pelo matador de aluguel. Um matador que se negará a sair de cena. Ele não só se envolverá com a jovem órfã, como continuará presente no dia-a-dia dos dois empresários.

Anísio será capaz de, na sequência mais impressionante e lembrada do filme, levar um rapper (Sabotage, interpretando a si mesmo) até a sede da construtora, para exigir que os dois engenheiros banquem a gravação do CD dele. Afinal, o cara tem muito talento. Juntos, Sabotage e Miklos apresentarão, para deleite do público, incrementado rap aos dois atordoados empresários. A vida deles fôra, afinal e literalmente, invadida pelo matador.

“O Invasor”, lançado em 2002, fez imenso sucesso de crítica e foi bem recebido pelo público (105 mil espectadores). Para Marçal Aquino, “Marco Ricca, o empresário atormentado pelo crime encomendado, tem o melhor de todos os seus desempenhos cinematográficos”. E Paulo Miklos fez por merecer todo o sucesso que viria a seguir. “Ele tem um desempenho notável, me convenceu”.

Alexandre Borges, Sabotage, Paulo Miklos e Marco Ricca, em cena de "O Invasor"

“Um dia” – lembrou o músico-ator, no debate do Cine Petra Belas Artes – “recebi um telefonema do cineasta Marcos Jorge me convidando para participar do filme ‘Estômago’. Sabe o que ele me disse? Você vai interpretar o Anísio, só que algum tempo depois do “Invasor”, pois ele estará preso. Achei tudo muito estranho, mas aceitei. Agora, tenho convite para o ‘Estômago 2′”.

Miklos participou de “Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos”, de Ugo Giorgetti, e fez “um cantor de churrascaria” – diverte-se – no festejado (e premiado) “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert. Interpretou, também, o vilão Gonzalez, em “Carrossel, o Filme”, e na sequência “Carrossel – O Sumiço de Maria Joaquina”. Confessa, feliz, ter se divertido muito, pois “Gonzalez é um vilão típico de histórias em quadrinho”.

Depois, Miklos fez participação na sensível (e injustiçada) comédia “Como É Cruel Viver Assim”, de Júlia Rezende, e atuou nos curtas “Dá Licença de Contar”, interpretando o compositor Adoniran Barbosa, e deu vida a um taxista (malufista, o que é quase uma redundância) em “Quando Parei de me Preocupar com Canalhas”. E marcou presença em vários documentários.

Como Paulo Miklos foi parar no elenco de “O Invasor”? Beto Brant contou, no debate do Belas Artes, que dirigira três videoclips para a banda Titãs. Ao que Miklos agregou: “eram videoclips muito vistos, premiados pela MTV. Num deles, escolhido o videoclip do ano, o Sérgio Brito cantava e eu ficava ali, no coro, fazendo umas estripulias. O Beto notou que eu tinha atitude, era bem agressivo no palco (risos). Decerto, ali, naquele momento, ele concluiu que eu podia interpretar o Anísio”.

Foi então que, “numa noite, no Olímpia, na Pompeia, casa onde os Titãs mais tocaram, depois de apoteótica estreia de novo show, o Beto foi ao camarim. Estava uma loucura, as pessoas te pegando, puxando, abraçando”. Ali, “naquela loucura, recebi o convite. Lógico, lógico que aceito, respondi, pensando que no dia seguinte ele nem se lembraria mais. Mas torcendo para que ele se lembrasse, pois eu tinha visto os longas dele (“Os Matadores” e “Ação entre Amigos”) e gostado muito”. Pois Beto Brant se lembrou e formalizou o convite.

“Uma loucura” – lembra o cineasta – “pois Miklos tinha uma agenda apertadíssima, fazia centenas de shows. E todo mundo sabe que, depois que ele sobe no palco, não quer mais descer. Um show de 90 minutos pode durar horas”. Então, “ele chegava nas horas mais loucas para os ensaios. E para as filmagens”.

Marçal dá outro testemunho: “eu continuava com um pé atrás. Marco Ricca e Alexandre Borges, atores muito técnicos, chegavam (para as leituras de mesa) com os roteiros cheios de dobras, marcas, anotações, discutiam cada aspecto, cada detalhe”. Já o Miklos, nem sabia onde estava o roteiro dele”.

O músico-ator se defende: “é que o Beto disse que Sabotage e eu poderíamos recriar as falas, do jeito que quiséssemos, com as marcas que o rapper trazia da periferia”. Por isto, “nos agarramos um ao outro e assumimos o linguajar da quebrada. O linguajar que o poeta Sabotage, um cara incrível, uma máquina fantástica de criação de versos e expressões, trazia de suas vivências. Colocamos aquilo tudo a serviço do filme”.

Sabotage (1973-2003) chegou à equipe de “O Invasor” por sugestão de uma amiga do produtor (e sócio de Beto Brant) Renato Ciasca. “Ela nos ajudava na escolha de locações”, lembra o cineasta, “e sugeriu a favela do Canão, Água Espraiada”. Os Racionais MC’s “chamavam imensa atenção naquele momento e o rap ganhava força e presença. Fomos ao encontro do Sabotage, entreguei o roteiro a ele, que anotava tudo que eu falava num caderno espiral, daqueles grandes. Ele ficou muito motivado”.

“Quando já íamos embora” – relembra Beto Brant, com saudades do músico, assassinado aos 29 anos, menos de um ano depois do lançamento do filme – “ele me chamou e disse: ‘Betão, o bagulho é louco’. O humor dele, um cara muito engraçado, irônico e criativo, foi essencial ao filme”. Para desespero – admitem Beto e Marçal – de “Marco Ricca e Alexandre Borges, que tinham seus diálogos decorados e incorporados e recebiam coisas estapafúrdias, ditas no calor da hora, por seus parceiros de cena”. O diretor completa: “nossas reuniões com Miklos e Sabota contavam também com a presença de Jack Daniels (o uísque), era uma loucura”.

Marçal acrescenta: “terminou tudo bem, fizemos um filme que resistiu ao tempo e segue muito forte”. E mais: “o livro não estava pronto quando fizemos o roteiro do filme. Terminei-o depois e ele saiu em bela edição (da Geração Editorial, de Luiz Fernando Emediato). Somamos a novela e o roteiro a muitas fotos de cena do filme”. Para dar originalidade ao texto literário, Marçal resolveu reconstruir o que escrevera, adotando procedimento similar ao de Machado de Assis em ‘ Memórias Póstumas de Brás Cubas”: quem narra a história de ‘O Invasor’ é um morto”.

Hoje, o escritor, parceiro de Beto Brant em muitos de seus filmes, tem trabalhado em séries da Rede Globo. Ele confessa-se muito satisfeito com a experiência. Afinal, “fizemos ‘O Invasor’ como um B.O. (filme de Baixo Orçamento), numa pobreza franciscana”. E recorre a exemplo ilustrativo: “se você escreve, para um filme brasileiro, uma cena com dois camelos, o produtor logo pergunta: não dá para ser um só? Já na Globo, você pede dois e o produtor sugere dezessete”. Então, “você tem o prazer de ver sua ideia realizada em sua plenitude”.

Que planos têm os três artistas? Voltarão a trabalhar juntos? Marçal Aquino seguirá escrevendo roteiros para a Rede Globo (que o emprega há onze anos) e tem dois ou três romances estruturados. Um deles, “Baixo Esplendor”, o trará de volta à novela policial. Outro, “de caráter satírico e (até) misógino”, está na gaveta. “Se publicá-lo”, brinca, “posso ir parar na barra dos tribunais. Vou deixá-lo com minha filha, que o editará depois que eu morrer” (risos).

Beto Brant, que vem dedicando-se ao documentário (“todo ano, no Carnaval, filmo o grupo Ilu Obá De Min”), acabou de dirigir piloto de série para TV (“La Planta”) sobre o uso medicinal da cannabis sativa. O primeiro documentário foi realizado no Uruguai, onde a maconha é legalizada. “Gostaria de filmar em outros países”, confessa, enquanto aguarda o interesse de uma emissora de TV.

Paulo Miklos seguirá trabalhando como músico (em carreira solo), ator de teatro (“Chet Baker, Apenas um Sopro”), na TV e no cinema. Agora, orgulhoso por seu Kikito de melhor ator (protagonista, não coadjuvante).

Marçal provoca: “como eu tinha dúvidas se daria conta do Anísio, ele tirou sarro, me dizendo que virara o protagonista do filme”. Modesto, Miklos corrige: “não, eu disse apenas que eu me transformara no personagem-título, O Invasor”.

 

FILMOGRAFIA

PAULO MIKLOS
(São Paulo, 1959)

. 2002 – “O Invasor”, de Beto Brant
. 2006 – “Boleiros 2″, de Ugo Giorgetti
. 2007 – “Estômago”, de Marcos Jorge
. 2008 – “Titãs, a Vida Até Parece uma Festa”, de Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves (doc)
. 2009 – “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert
. 2011 – “A Alma Roqueira de Noel”, de Alex Miranda (doc)
. 2014 – “Democracia em Preto e Branco”, de Pedro Asbeg (doc)
. 2015 – “Sabotage, o Maestro do Canão”, de Ivan 13P (doc)
. 2015 – “Carrossel, o Filme”, de Alexandre Boury e Maurício Eça
. 2016 – “Carrossel 2 – Sumiço de Maria Joaquina”, de Maurício Eça
. 2017 – “Como É Cruel Viver Assim”, de Júlia Rezende
. 2019 – O Homem Cordial, de Iberê Carvalho
. 2020 – “Jesus Kid”, de Aly Muritiba (em montagem)
. 2020 – “Estômago 2″, de Marcos Jorge (pré-produção)
. 2020 – “Quando Parei de me Preocupar com Canalhas”, de Tiago Vieira (em campanha de crowdfunding)

BETO BRANT
(Jundiaí-SP, 1964)

. 1997 – “Os Matadores” (fic)
. 1998 – “Ação entre Amigos” (fic)
. 2002 – “O Invasor” (fic)
. 2005 – “Crime Delicado” (fic)
. 2006 – “Cão sem Dono”, codireção de Renato Ciasca (fic)
. 2009 – “O Amor Segundo B. Schianberg” (híbrido)
. 2011 – “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”, codireção de Renato Ciasca (fic)
. 2012 – “Mundo Invisível” (doc)
. 2016 – “Pitanga”, codireção de Camila Pitanga (doc)
. 2017 – “Ilu Obá De Min” (doc)

BIBLIOGRAFIA

MARÇAL AQUINO
(Amparo-SP, 1958)

. 1984 – “A Depilação da Noiva no Dia do Casamento” (poemas)
. 1991 – “As Fomes de Setembro” (contos)
. 1994 – “Miss Danúbio” (contos)
. 2001 – “O Amor e Outros Objetos Pontiagudos”
. 2002 – “O Invasor”
. 2003 – “Cabeça a Prêmio”
. 2003 – “Famílias Terrivelmente Felizes”
. 2005 – “Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios”
. Literatura juvenil: “A Turma da Rua Quinze”, “O Mistério da Cidade-Fantasma”, “O Jogo do Camaleão”, “O Primeiro Amor e Outros Perigos” (livros infanto-juvenis para a Coleção Vagalume)

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