Público da Mostra de Gostoso consagra “Pacarrete” e o curta “A Parteira”
Premiação de "Pacarrete" © Maria do Rosário Caetano

Por Maria do Rosário Caetano, de São Miguel do Gostoso (RN)

O Troféu Luís da Câmara Cascudo, atribuído pelo público da Mostra de Cinema de Gostoso, coube a “Pacarrete”, de Allan Deberton, eleito o melhor longa-metragem do festival, e ao curta potiguar “A Parteira”, de Catarina Doolan.

A escolha era mais que esperada, pois estes foram, entre os filmes em competição, os que mais aplausos receberam e maior plateia mobilizaram. A estes dois fatores, somaram-se as notas altas recebidas nas cédulas de votação.

Para receber os prêmios de “Pacarrete” (o segundo foi dado pela Imprensa) subiram ao palco a atriz-protagonista Marcélia Cartaxo e a produtora executiva Ariadne Mazzetti. O diretor Allan Deberton teve que deixar São Miguel do Gostoso para atender a outros convites, já que o filme continua sendo requisitado por festivais nacionais e internacionais. Seu próximo compromisso é apresentar “Pacarrette” no Festival de Kerala, na Índia. De lá, ele seguirá para a China, onde seu primeiro longa-metragem fez sua première mundial (no Festival de Xangai). Agora, Deberton vai mostrar a aventura humana de sua personagem, uma bailarina inspirada em personagem real, em seis cidades chinesas (Pequim, Macau, Shenzhen, Guagzhou, Chongquing e, mais uma vez, em Xangai). No Brasil, o longa cearense estreou no Festival de Gramado, do qual saiu com oito troféus Kikito, incluindo o de melhor filme e melhor atriz.

“Pacarrete” conta a história de Maria Araújo Lima (1912-2004), nascida em Russas, no interior do Ceará. Ela foi bailarina e professora de ballet em Fortaleza. Ao aposentar-se, regressou à sua Russas natal. Sexagenária e tida como louca, desdobra-se para apresentar um número de ballet clássico na festa dos 200 anos do município. Só que a Prefeitura prefere bandas do chamado “forró de plástico”.

O filme, nascido como um Edital B.O. (Filmes de Baixo Orçamento), acabou transformando-se em um pequeno milagre. Caiu no gosto de plateias populares e cinéfilas. Até março de 2020, quando se dará sua estreia nos cinemas, deve participar de mais quinze festivais brasileiros e internacionais (em especial nos EUA). Muito de seu sucesso deve-se ao diálogo que mantém com os musicais da Metro (vide a abertura arrebatadora, ao som de “Ay, Ay, Ay”, com a Orquestra de Paul Muriat) e com clássicos do cinema (em especial “Crepúsculo dos Deuses”), sem falar nas cores vibrantes de Pedro Almodóvar. Para ampliar seu encanto, o filme tem uma das melhores trilhas sonoras da história do cinema brasileiro. Muito de seu reduzido orçamento foi gasto com a aquisição de direitos de hits da canção francesa (“Douce France”, de Charles Trenet) ao megahit de Tina Turner (“We Don’t Need Another Hero”, da trilha de “Mad Max”) passando por Belchior (“Coração Selvagem”), por “Ritmo da Chuva”, na voz da francesa Sylvie Vartan, e chegando a peças eruditas de Tchaikowsky e Saint-Saëns.

Diálogos com o cinema e trilha arrebatadora não seriam, porém, suficientes, se o filme não tivesse uma bela história para contar e uma atriz em estado de graça, a iluminada Marcélia Cartaxo. E elenco de apoio com atores do calibre do baiano João Miguel, das paraibanas Zezita Matos e Soia Lira, e da cearense Samya de Lavor. Sem esquecer o humor, marca de muitos de seus saborosos diálogos, e a relação de Pacarette com um cachorro abandonado, que ela adotou e batizou como o nome de He-Man.

O longa potiguar “Fendas”, de Carlos Segundo, que ganhou menção honrosa, acompanha as andanças de Catarina, professora universitária, pela cidade de Natal, onde radicou-se há pouco tempo. Ela desenvolve pesquisas no Instituto Internacional de Física. Seu campo de ação, a Física Quântica, a motiva a pesquisar os espaços sonoros da imagem.

O curta “A Parteira” encantou a plateia que a Mostra de Cinema de Gostoso acolhe em cinema ao ar livre, instalado nas areias da Praia do Maceió. Primeiro, pelo carisma de sua protagonista, a potiguar Donana, oriunda de família pobre de São Gonçalo do Amarante e parteira desde os 15 anos. Ela aprendeu o ofício com a mãe, e o pratica, em sua versão doméstica e humanizada, até hoje, já sexagenária. Para completar o interesse do público pela personagem, que realizou o parto de um dos filhos da cineasta Catarina Doolan, há o relato de momentos complicados de sua vida, feitos sem nenhuma choradeira. Ela foi mãe solteira, amante de homem casado e pescadora. No momento mais tocante do filme, Donana entra na água para pescar. Ela conta que foi a fome que a levou à pescaria. Sem ter o que comer, buscava peixes onde pudesse. Apaixonou-se pela atividade. Hoje, pode comprar carne bovina ou suína, mas dedica longos momentos à pesca e à água, fontes de imenso prazer. E, para completar o encanto do público festivaleiro, a constatação de que ela é dona de ideias progressistas. Defende, com ênfase, o direito de cada pessoa fazer o que quiser com sua sexualidade. “Ninguém tem nada a ver com a vida privada de ninguém”.

Dois outros filmes de grande valor estético e político receberam prêmios especiais. A Imprensa laureou o média-metragem “Sete Anos em Maio”, de Affonso Uchoa (o mesmo de “A Vingança do Tigre” e “Arábia”), que vem causando forte impacto por onde passa. O filme registra o relato de um jovem mineiro, preso numa noite de maio, sete anos atrás, e submetido a violências brutais. Quando sai da prisão, Rafael Santos, o Fael, perambula por subempregos na Grande São Paulo até ser preso novamente. Solto, resolve regressar a BH e Contagem.

Na primeira sequência do filme, de 42 minutos, vemos jovens, entre eles Fael, reconstituindo a violenta detenção, que mudaria sua vida. Depois, ele rememorará, de forma pungente e dura, aquele encarceramento arbitrário, o vício em crack e o afastamento da família. Fael conversará, ainda, com um amigo (Wederson Neguinho, com participação nos dois longas e neste média de Uchôa). Por fim, um jogo — “Morto! Vivo!” — dará dimensão alegórica à trágica história de um rapaz de pele parda, nascido numa periferia brasileira.

“Quebramar”, de Cris Lyra, que representará o Brasil no Festival de Documentários de Amsterdã, o maior do mundo, mostra um grupo de jovens lésbicas comemorando o Ano Novo no litoral paulista. Entre elas, estão as integrantes do Obinrin Trio, que cantam e compõem, acompanhadas de violão e pandeiro, e conversam sobre temas os mais diversos. Num dos melhores momentos do filme, duas jovens negras relembram desejo de suas infâncias: alisar os fios crespos. Uma o fez, a outra não, pois a mãe, fã de Mano Brown e Racionais MC’s, tinha orgulho dos cabelos black e dissuadiu a filha.

“Plano Controle”, de Juliana Antunes, é uma ficção científica recheada de humor. De início, pensamos estar num drama social feminino. Mas logo veremos que não é nada disso. A protagonista Marcela, desanimada com o golpe parlamentar que derrubou a presidenta do país, resolve imigrar para Nova York. Para atingir seu objetivo, ela usa o serviço de teletransporte, disponibilizado por seu celular. Mas seus planos a transportarão para um bairro de sua cidade e, até, para outro momento histórico (a década de 1980). Com humor satírico, a festejada diretora do longa “Baronesa”, constrói narrativa surpreendente e muito divertida. O filme foi selecionado para o Festival de Mar del Plata.

O documentário “Júlia Porrada” mostra personagem muito conhecida na pequena cidade de São Miguel do Gostoso, a faz-tudo Júlia Porrada, nome que ela adotou e nada tem a ver com o de seu registro civil. Ela teve vida das mais difíceis, apanhava do marido alcoólatra, que destruía os poucos utensílios domésticos de que dispunham. Hoje, com a vida mais assentada, Júlia ocupa suas prateleiras com mais de 40 panelas de pressão e com uma coleção de bonecas. Ou seja, desfruta dos objetos que não pôde ter em momentos passados.

O curta “Em Reforma”, ficção da potiguar Diana Coelho, que será lançado pela Elo Company, mostra uma mulher já próxima da aposentadoria, que, para receber a filha que estudava fora, resolve retomar obra inacabada na laje de sua modesta residência.

Confira os vencedores:

LONGA-METRAGEM

. “Pacarrete”, de Allan Deberton (Ceará) – Troféu Luís da Câmara Cascudo de melhor filme pelo júri popular, Prêmio da Imprensa, Prêmio DotCine

. “Fendas”, de Carlos Segundo (Rio Grande do Norte) – Menção honrosa

CURTA E MÉDIA-METRAGEM

. “A Parteira”, de Carolina Doolan (Rio Grande do Norte) – Troféu Luís da Câmara Cascudo de melhor filme pelo júri popular, Prêmio DotCine

. “Sete Anos em Maio”, de Affonso Uchôa (Minas Gerais) – Prêmio da Imprensa

. “Quebramar”, de Cris Lyra (São Paulo) – Prêmio Mystika de serviços de pós-produção

. “Júlia Porrada”, de Igor Ribeiro (Rio Grande do Norte) – Prêmio Laces de Apoio Financeiro ao Coletivo Nós do Audiovisual de São Miguel do Gostoso

. “Plano Controle”, de Juliana Antunes (Minas Gerais) – Prêmio Acessibilidade VideoShack

. “Em Reforma”, de Diana Coelho (Rio Grande do Norte) – Prêmio Aquisição Elo Company

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