Animação brasileira triunfa no Festival de Havana

Por Maria do Rosário Caetano

O Brasil participou da 41ª edição do Festival do Novo Cinema Latino-Americano de Havana, com 64 entre os 546 filmes selecionados, para compor mais de 30 segmentos competitivos ou informativos. Perdeu o prêmio principal, o Gran Coral Negro, para a Argentina, que triunfou na categoria ficção com “Los Sonámbulos”, de Paula Hernández. O Prêmio Especial do Júri coube ao guatemalteco “La Llorona”, de Jairo Bustamante.

Na categoria animação, porém, o Brasil arrasou. Ganhou os três prêmios principais – melhor longa-metragem para “A Cidade dos Piratas”, de Otto Guerra, melhor curta para “Carne”, de Camila Kater, e Prêmio Especial do Júri para “Sangro”, de Thiago Minamisawa, Bruno H. e Guto BR.

O filme do gaúcho Otto Guerra, baseado na obra homônima da cartunista Laerte, compõe-se com trama anárquica e corrosiva. Um cineasta (o próprio Otto) realiza, com paixão e fúria, um filme inspirado em tiras laertianas (“Piratas do Tietê”). No meio do processo, o grande cartunista paulistano assumiu-se como corpo trans e renegou os piratas das poluídas águas do rio que corta a cidade de São Paulo. Tachou-os de machistas e superados. Otto, que enfrentara um câncer, resolveu transformar tudo que se passava com (a) Laerte e com ele mesmo num dos filmes mais alucinados já feitos em nosso país. Por sorte, a animação é um gênero que ama a liberdade, o delírio, a anarquia, enfim. Assim sendo, o gaúcho e sua equipe nadaram de braçada. Havana reconheceu a ousadia do inquieto Otto e de sua trupe.

“Carne” é uma pequena obra-prima, um híbrido de animação e documentário, que dá voz a cinco mulheres, representantes de cinco fases (ou situações) de suas vidas, do nascimento à velhice. A atriz Helena Ignez empresta parte de sua história (e sua aliciante voz) a este filme raro e muito inventivo. Camila Kater empreende, com histórias reais, ousada viagem pelo universo feminino (o quanto é difícil ser uma criança gorda, a chegada da menstruação, o ser mulher transexual, o climatério e o envelhecimento).

A potência do curta premiado em Havana foi reconhecida pelo Festival de Documentários de Amsterdã, na Holanda, a maior competição do gênero, no mundo, que o selecionou para sua última edição (mês passado). Quem acompanha os grandes festivais dedicados ao cinema documental, sabe que o diálogo com a animação vem rendendo filmes notáveis. Caso de “Carne”.

“Sangro” já passou por uma dezenas de festivais brasileiros e acumula diversos prêmios. Todos justos, por reconhecerem suas ousadias formais e a importância de sua narrativa, estruturada, em sintéticos sete minutos, pela leitura de carta de um jovem que, ao descobrir-se portador do vírus da Aids, expõe-se com coragem e dolorosa poesia. A parte visual do filme compõe-se com desenhos, colagens, as mais diversas, e pinturas (inclusive do flamengo Bosch).

No terreno do longa documental, o Brasil perdeu o prêmio principal para Cuba, que viu “A Media Voz”, de Patrícia Pérez Fernández e Heidi Hassan, sagrar-se o grande vencedor. Dez dias antes, este filme conquistara o prêmio máximo do poderoso Festival de Amsterdã.

“A Media Voz” é, na verdade, uma produção internacional que somou esforços da Espanha, Suíça, França e Cuba. O documentário registra os desencontros (e encontros por intermédio de cartas videográficas) de duas amigas cubanas que vivem na Espanha (Patrícia, na Galícia) e Suíça (Heidi, em Genebra). São, portanto, duas “desterradas”. Emigraram da ilha onde nasceram e viveram a infância e adolescência. A amizade foi, portanto, interrompida por razões políticas e pela distância que separa os dois países que as acolheram. Mas Patrícia e Heidi não desistiram. Retomaram o contato e trocaram cartas feitas de palavras e imagens. Cartas sobre maternidade, amor ao cinema, exílio, liberdade, saudades e, acima de tudo, a amizade.

Já o Prêmio Especial do Júri, coube a “Diz a Ela que me Viu Chorar”, da paulistana Maíra Bühler. Vencedor do Olhar de Cinema, em Curitiba, em junho último, “Diz a Ela” vem comovendo (e perturbando) público sensível a experiência empreendida pela gestão Fernando Haddad, quando prefeito de São Paulo. O gestor municipal e sua equipe social alojaram, em hotelzinho no centro paulistano, usuários de droga oriundos em maioria da Cracolândia. Sem nenhum proselitismo político, Maíra registra vivências destes homens e mulheres tratados (mesmo que por curto tempo) como seres humanos e não como a escória do mundo. Com a derrota de Haddad, o projeto sofreu solução de continuidade.

“Los Sonámbulos”, a ficção argentina que venceu 19 concorrentes – entre eles os brasileiros “Bacurau”, de Mendonça e Dornelles, “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, “Três Verões”, de Sandra Kogut, e “Divino Amor”, de Gabriel Mascaro – é o quarto longa-metragem de Paula Hernández, de 50 anos. O filme conta a história de uma mulher (Érica Rivas) e sua filha sonâmbula. A mãe vive crise conjugal silenciosa. Tudo dentro de uma família ritualista e endogâmica.

O Brasil, que teve a mais numerosa representação de sua história no festival habanero, ganhou quatro prêmios na categoria ficção: melhor fotografia (para a francesa Hélene Louvart) e direção de arte (para Rodrigo Martirena), ambos por “A Vida Invisível”, melhor montagem para Sérgio Mekler e Laura Marques (“Três Verões”), e melhor trilha sonora (para Mateus Alves e Tomáz Alvez, por “Bacurau”).

Confira os premiados:

LONGAS-METRAGENS (FICÇÃO)

. “Los Sonámbulos” (Argentina) – Melhor filme, atriz (Érica Rivas) e roteiro (Paula Hernández)

. “Algunas Bestias” (Chile) – Prêmio Especial do Júri ex-aqueo, melhor direção (Jorge Riquelme Serrano).

. “La Llorona” (Guatemala) – Prêmio Especial do Júri ex-aqueo, melhor som (Eduardo Cáceres).

. “A Grande Dama do Cinema” (Argentina) – Melhor ator (Luis Brandoni, também por “A Odisseia dos Tontos”), Prêmio do Júri Popular

. “Agosto” (Cuba) – melhor “ópera prima” (filme de diretor estreante, Armando Capo)

. “Blanco en Blanco” (Chile, de Theo Court) – Prêmio Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema)

. “Los Lobos” (México, de Samuel Kishi Leopo) – Prêmio Signis (do Ofício Católico de Cinema)

LONGAS-METRAGENS (DOCUMENTÁRIO)

. “A Media Voz” (Cuba e parceiros) – melhor filme

. “Diz a Ela que me Viu Chorar” (Brasil) – Prêmio Especial do Júri

ANIMAÇÃO (LONGA E CURTA-METRAGEM)

. “A Cidade dos Piratas” (Brasil) – melhor longa-metragem

. “Carne” (Brasil) – melhor curta-metragem

. “Sangro” (Brasil) – Prêmio Especial do Júri

CURTA-METRAGEM

. “Flying Pigeon” (Cuba, de Daniel Santoyo Hernández) – melhor curta de ficção

. “El Tamaño de las Cosas” (Colômbia, de Carlos Felipe Montoya) – Prêmio Especial do Júri para curta de ficção

. “Arde la Tierra” (Colômbia, de Juan Olmos Feris) – melhor curta documental

. “Romance de la Ternura Tardía” (Argentina, de Ana Bugni) – Prêmio Especial do Júri para curta documental

OUTROS PRÊMIOS

. “Olga” (Cuba) – melhor cartaz de cinema (criação de Diana Carmenate)

. “Anos Cortos, Días Eternos”, de Silvina Estevez (Argentina) – Prêmio Coral de Pós-Produção

. “Desde el Apocalipsis”, de Sebastián Dietsch (Argentina) – melhor roteiro inédito

.”Una Noche con los Rolling Stones” – menção honrosa para a roteirista Patrícia Ramos (Cuba)

. “El Príncipe”, de Sebastián Muñoz (Chile) – Prêmio Coral de Contribuição Artística (Categoria Ópera Prima)

. “Nuestras Madres”, de Cesar Díaz (Guatemala) – Menção Honrosa (Categoria Ópera Prima)

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(1) Reader Comment

  1. Ver o cinema brasileiro ganhando prêmios sabendo o quanto é difícil o reconhecimento dentro do nosso país, da um animo em continuar escrevendo e não desistir.

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