Meio Irmão

Por Maria do Rosário Caetano

“Meio Irmão”, promissora estreia da paulistana Eliane Coster, rendeu à realizadora o prêmio de melhor longa brasileiro, por escolha do Júri Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). O colegiado, reunido pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2018, avaliou uma dezena de produções realizadas por jovens diretores. Finalmente, chegou a hora da estreia no circuito comercial brasileiro, nesta quinta-feira, 5 de março, com distribuição da O2 Play.

Quem for conferir a primeira ficção em longa-metragem de Eliane – mestre e doutora em imagens por prestigiosas universidades brasileiras – verá em cena adolescentes de baixa classe média, que vivem lá pelos lados da Vila Ré, na Zona Leste, longe da miséria dos despossuídos de tudo (emprego, moradia digna, alimentação etc). São balconistas de shopping-center, técnicos em eletrônica, pequenos comerciantes, tatuadores, funcionários de postos de saúde. Ou cobradores, sem piedade, de dívidas.

Os personagens de “Meio Irmão” trabalham, estudam (nem que seja para ser dublê, quem sabe de cinema), se divertem. Mesmo que seus trabalhos sejam de ganhos reduzidos e suas diversões modestas. Os protagonistas são os meios-irmãos Sandra e Jorge.

A adolescente Sandra (Natália Molina), 16 anos, estuda, sem interessar-se muito pela escola, e Jorge (Diego Avelino), já maior de 18 anos, trabalha com o pai, na instalação de câmeras de vigilância, seja em supermercados, motéis ou farmácias.

A jovem será tomada por imensa angústia quando a mãe, com quem vive numa casa de alvenaria, desaparecer. Ela irá atrás do pai, que não demonstrará o menor interesse nem pela filha, nem pelo destino da ex-mulher. Sandra procurará amigas da mãe, consultará o celular infinitas vezes e nada.

Jorge, em fase de definição de sua sexualidade, registrará, num certo dia, com seu celular, jovem casal homoafetivo fazendo sexo em canto obscuro e sendo agredido por motoqueiros. Por isto, pela posse de tais imagens, ele será ameaçado pelos agressores homofóbicos.

Desesperada e sem ter a quem recorrer, Sandra irá procurar o meio-irmão. O filme cuidará, com delicadeza, diálogos sintéticos e poucas reviravoltas, da aproximação destes dois jovens, que de início se estranham.

Com sensibilidade, a diretora irá desenhando, de forma lacunar, um surpreendente registro das gentes dos subúrbios, com suas vidas pequenas, sentimentos desencontrados, pequenos sonhos (Sandra gosta de compor rap e leva jeito). Jorge sonha com uma vida melhor, mas é cético. Quando o pai, Wilson (o ótimo Francisco Gomes) faz planos de montar firma eletrônica própria, deixando de ser empregado, o filho retruca, cortante: “ninguém vai contratar empresa de preto”.

A mãe de Sandra teve o primeiro filho (Jorge) com Wilson, que é negro, e Sandra, com outro companheiro, branco. Os personagens afro-brasileiros ocupam espaço essencial na narrativa. E o que valoriza o filme: têm sua subjetividade elaborada com acuidade.

Eliane Coster convocou, para ajudá-la na direção de elenco, um craque, o ator (e preparador) Roberto Audi (oriundo de montagens de Antunes Filho e do Teatro da Vertigem, e do elenco de “Riocorrente” , filme de Paulo Sacramento). O resultado é digno de registro, pois todos, mesmos os coadjuvantes, mantêm o tom minimalista do roteiro e a pegada que a cineasta imprimiu ao seu instigante filme de estreia.

“Meio Irmão” é uma realização de baixo orçamento, com atores pouco conhecidos, incorporados em personagens que transitam por paisagens comuns, todas distantes dos grandes cartões postais paulistanos. A câmara de Cleisson Vidal (diretor de “Dino Cazzola” e “Milton – Pelo Mundo”) registra o casario da Zona Leste, com ênfase nas grades que escondem fachadas, as obras inacabadas do Monotrilho, as ruas de asfalto precário.

Dois momentos, em especial, chamam atenção. Num, presenciamos inusitado (e franco) diálogo entre Jorge e a balconista Giovana (Eduarda Andrade), amiga de Sandra, colocados num viaduto. No outro, uma “cena de amor” (se assim puder ser definida) entre Sandra e Filé, o galã da escola (André Andrade), sentados num lugar inóspito, sem nenhum romantismo. Ambas enriquecem o filme.

Eliane Coster, que assina também o roteiro de “Meio Irmão”, no qual trabalhou por alguns anos, costuma lembrar que “ele surgiu de uma suspeita: a mudança verificada no comportamento dos jovens da última década”. Que mudanças são essas? Pelo que bate na tela, nos deparamos hoje com uma juventude sem ilusões, nada romântica. Uma juventude, enfim, que não acredita nas instituições (seja a escola, a polícia ou os governantes).

Meio Irmão
Brasil, 98 minutos, 2020
Direção: Eliane Coster
Elenco: Natália Molina, Diego Avelino, Francisco Gomes, André Andrade, Cris Lopes, Dico Oliveira, Eduarda Andrade
Fotografia: Cleisson Vidal
Montagem: Fernando Coster
Produção: Rogério Zagallo
Trilha sonora: Satélite Audio
Distribuição: O2 Play

FILMOGRAFIA
Eliane Coster (São Paulo/03/08/1968) é professora da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com mestrado e doutorado em Imagem (dissertação sobre “Fotografia e Candomblé – Modernidade Incorporada?” e tese “Os Homens Com as Câmeras”). É irmã do cineasta e montador Fernando Coster (“Amassa Que Elas Gostam”)

2020 – “Meio Irmão” (longa-metragem ficcional)
2016 – “Super Oldboy” (curta-metragem de animação)
2011 – “São Paulo Além das Horas” (curta-metragem)
2010 – “Retrovisor” (curta-metragem ficcional)
2010 – “A Boca do Mundo – Exu no Candomblé” (curta documental)
2009 – “Preciosa” (curta-metragem ficcional, baseado em conto de Clarice Lispector)

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