Mostra Ecofalante comemora Semana do Meio-Ambiente
Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra

Por Maria do Rosário Caetano

A Mostra Ecofalante de Cinema teve sua nona edição adiada para o segundo semestre deste ano. Mas, para marcar a Semana do Meio-Ambiente, seus organizadores providenciaram compacta versão digital, que começa nesta quarta-feira, 3 de junho, e vai até terça, 9. Foram selecionados dois filmes brasileiros e três internacionais, todos com temática urgente e sintonizada com estes tempos de conturbação.

O Brasil se faz representar por títulos de grande importância no campo do “cinema verde”: “Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra”, de Jorge Bodanzky, e “Amazônia Sociedade Anônima”, de Estêvão Ciavatta, produzido em parceria com a Videofilmes, dos irmãos João e Walter Salles.

O Brasil marca presença, também, em “A Grande Muralha Verde”, filmado na África pelo britânico Jared P. Scott, e que teve Fernando Meirelles como entusiasmado e atuante produtor executivo. Completam a lista “O Golpe Corporativo” de Fred Peabody, e o oportuno “Ebola: Sobreviventes”, de Arthur Pratt.

Além da exibição gratuita dos filmes, a Ecofalante promoverá série de debates online (pelo Youtube e Facebook), com os cineastas Jorge Bodanzky, João Moreira Salles, Fernando Meirelles, Estêvão Ciavatta e o educador Ladislaw Dowbar. Eles refletirão, em parceria com importantes jornalistas especializados, sobre “o papel do cinema na comunicação socioambiental”.

Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra” é um documentário de 43 minutos, que o incansável Jorge Bodanzky realizou no Pantanal matogrossense, em parceria com o fotógrafo João Farkas. As primeiras imagens nos colocam em contato com paisagem de beleza arrebatadora, documentada pelo fotógráfo João, herdeiro do imenso talento do pai, Thomaz Farkas, assim como o irmão, o diretor de fotografia Pedro Farkas (“Inocência”, “A Ostra e o Vento”, “O Sol do Meio-Dia”). Num barco, em águas pantaneiras, João Farkas fala do registro de imagens daquele Brasil matogrossense, qualificando-o como “o mais necessário e urgente dos meus trabalhos”, pois o que acontece ali é muito preocupante. O filme nos apresentará, então, de forma lacunar, o simpático fazendeiro Ruivaldo, pantaneiro convicto, defensor juramentado daquelas terras molhadas, que correm o risco de virar um pântano. E por que?, nos perguntamos. Com vagar, saberemos o que se passa naquela região de beleza única e equilíbrio frágil. Por causa do assoreamento (acúmulo de areia nos rios), a cada ano mais avassalador, e da ocupação do cerrado pelas grandes plantações do agronegócio, o ecossistema pantaneiro sofre modificações brutais e constantes. O que fazer?

Ruivaldo Nery de Andrade, tal qual um Dom Quixote pantaneiro, faz o que pode, trabalha sem descanso. Seu sonho-missão é manter a região como um Pantanal e não um pântano cheio de “paliteiros” (árvores secas, mortas). Como os filmes anteriores – de “Iracema, uma Transa Amazônica”, passando por “O Terceiro Milênio”, até desaguar em “Transamazônica, uma Estrada para o Passado” –, Bodanzky esparrama seu olhar reflexivo sobre a paisagem natural, atento às árvores, águas e bichos. Sem esquecer o homem.

“A Grande Muralha” faz parte do projeto de militância verde de Fernando Meirelles. Quem conhece o produtor (dono da poderosa O2) e cineasta consagrado pelo filme “Cidade de Deus”, sabe que a defesa do meio-ambiente é a única causa (além do audiovisual) que o mobiliza.

Foi, portanto, com imensa dedicação que ele abraçou o projeto da grande muralha verde. Um projeto – como o de Ruivaldo no Pantanal – de imensa urgência e situado em território em desequilíbrio. O Sahel africano, assolado, muitas vezes, pela seca e pela fome. O plantio de milhões de árvores, do Senegal à Etiópia, em linha horizontal, é um gigantesco desafio planetário.

O Sahel fica abaixo do deserto do Saara e sua vegetação vem sofrendo devastação que já se aproxima da calamidade. O projeto “A Grande Muralha Verde” foi concebido para buscar solução para esta tragédia anunciada (e em grande parte já concretizada): a desertificação de 8 mil km no território africano.

Os ambientalistas conceberam a criação de gigantesca faixa verde, com o plantio de várias espécies vegetais (árvores, em especial) para impedir que o Sahel seja tomado pelos bancos de areia. Uma cantora, a ativista malinesa Inna Modja também abraçou o projeto. Ao longo do filme, a vemos em sua África natal, fazendo shows e preparando disco capaz de incentivar as novas gerações a lutar pelo equilíbrio ecológico em seus países de origem e, em especial, pela muralha verde.

O filme enriquece sua narrativa com muita música e recorre a poucas, mas essenciais, imagens de arquivo. A mais potente delas mostra a fome na Etiópia, em 1984, quando o mundo conheceu a palavra “Biafra”, ao deparar-se com imagens de corpos em pele e osso, cobertos de moscas, mortos por inanição e sede. Naquele momento trágico, morreram 400 mil africanos.

O filme desenha, para nossa informação e reflexão, quadro dos mais preocupantes: apenas 15% do projeto de “A Grande Muralha Verde” tornou-se realidade. O desafio é conseguir recursos e empenho governamental para reflorestar os 85% restantes. Quem abraçará este desafio? A ONU? Os países ricos em parceria com os governos africanos?

“Amazônia Sociedade Anônima” é o terceiro longa-metragem de Estêvão Ciavatta, realizador com grande folha de serviços prestados ao cinema e à TV brasileiros (“Brasil Legal”, “Central da Periferia”, as séries “Preamar” e “Santos Dumont”). O filme documenta a “união inédita entre índios e ribeirinhos para salvar a floresta de máfias, que se apropriam de terras e promovem desmatamento ilegal”. Neste momento em que a Amazônia é vítima de queimadas criminosas e o Governo inibe a fiscalização, o filme vê sua importância e urgência ganharem relevo.

Ciavatta, que realizou com Regina Casé, sua companheira, a série “Um Pé de quê?” (156 episódios de 30 minutos cada), registra “a resistência às invasões na Terra Indígena Sawré Muybu, situada entre os municípios de Itaituba e Trairão, no Pará, onde vivem cerca de 200 indígenas, além de populações ribeirinhas”.

“Ebola: Sobreviventes”, quarta atração da Ecofalante, é o filme certo, na hora certa. Em tempo de epidemia do coronavírus, nada mais apropriado que assistir a um filme que tem como tema outra tragédia sanitária: aquela provocada pelo ebola, que matou milhares de africanos. O documentário, uma produção norte-americana dirigida por Arthur Pratt, capta, através das lentes de colaboradores africanos, a ação de profissionais de saúde, que, a partir de Serra Leoa, enfrentaram o vírus, durante uma das mais graves emergências de saúde pública do mundo contemporâneo.

“O Golpe Corporativo”, de Fred Peabody, coprodução entre Canadá e EUA, venceu o Emmy, o Oscar da TV. O longa documental, que lembra os filmes marcados pela urgência de Oliver Stone e Michael Moore, busca revelar o que está por trás de “golpes corporativos”. Para o cineasta, a origem de muitos dos problemas das democracias atuais, está na ação de lobistas a serviço de grandes corporações. Emblemática, para o filme, é a ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA. Ela seria “resultado de políticas globalistas neoliberais fracassadas e desinteressadas da questão ambiental”. Líderes populistas (alguns deles bilionários, caso de Trump), que juram combater as corporações, são eleitos com decisivo apoio delas.

 

FILMOGRAFIAS SELECIONADAS
Jorge Bodanzky
(São Paulo, 22-12-1942)

1974 – “Iracema, uma Transa Amazônia” (com Orlando Senna)
1975 – “Gitirana” (com Orlando Senna)
1979 – “Os Mucker” (com Wolf Gauer)
1979 – “Jari” (média-metragem)
1980 – “O Terceiro Milênio” (média-metragem)
1982 – “Amazônia, o Último Eldorado”
1985 – “Igreja dos Oprimidos”
1995 – “Série Ecovídeo”
2005 – “Navegaramazônia – Uma Viagem com Jorge Mautner”
2005 – “Era uma vez Iracema”
2009 – “No Meio do Rio, Entre as Árvores”
2019 – “Transamazônica, uma Estrada para o Passado”
2020 – “Ruivaldo, o Homem Que Salvou a Terra”

Estêvão Ciavatta
(Rio de Janeiro, 09-04-1968)

1992 – “Perdi a Cabeça na Linha do Trem “ (curta)
1997 – “Nelson Sargento” (curta)
2010 – “Programa Casé” (longa documental)
2014 – “Made in China” (longa ficcional)
2020 – “Amazônia S.A. (longa documental)

PROGRAMAÇÃO

Mostra Videofalante disponibiliza, gratuitamente, acesso a cinco filmes pela plataforma Videocamp (www.videocamp.com).

. Quarta-feira (dia 3)
19h00 - Abertura com Chico Guariba e Laís Bodanzky
19h30 - “Ruivaldo, o Homem que Salvou a Terra” (43 minutos, disponibilizado até a terça-feira, 9)

. Quinta-feira (dia 4)
17h00 - “Golpe Corporativo” (90 minutos) e “Ebola: Sobreviventes” (83 minutos, disponibilizados, ambos, até terça-feira, 9)
19h00: d
ebate com Jorge Bodanzky e João Farkas

. Sexta-feira (dia 5) – Dia Mundial do Meio-Ambiente
15h00 – Debate ”O Papel do Cinema na Comunicação de Questões Socioambientais” com Fernando Meirelles, Jorge Bodanzky, Estêvão Ciavatta e João Moreira Salles
17h00 - “Amazônia Sociedade Anônima” (72 minutos, disponibilizado por 24 horas, até às 17h00 do sábado, dia 6)
19h00 – debate “Conservação: Ataque ao Meio Ambiente e aos Povos Tradicionais”, com Adriana Ramos (ISA), Daniel Azeredo (procurador do Ministério Público Federal do Pará)

. Sábado (dia 6)
17h00 - “A Grande Muralha Verde” (92 minutos, disponibilizado por 24 horas, até às 17h00 do domingo, 7)
19h00 – debate “Mudanças Climáticas: Desertificação, Conflitos, Migrações e Outros Impactos Imediatos”, com Fernando Meirelles e Paulo Artaxo

. Domingo (dia 7)
19h00 – debate “System Error: como o Atual Sistema Econômico leva à Destruição Ambiental, ao Fim do Trabalho Digno e ao Abalo da Própria Democracia”, com Ladislau Dowbor e Silvio Caccia Bava

. Segunda-feira (dia 8)
19h00 – debate “Saúde – Como Comunicar-se em Tempos de Crise Sanitária e Fake News?”, com Douglas Rodrigues, Átila Iamarino e Mariluce Moura

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