“Piedade” abre festival de pré-estreias on-line em homenagem ao Dia do Cinema Brasileiro
"Piedade", de Cláudio Assis

Por Maria do Rosário Caetano

“Piedade”, o quinto longa-metragem de Cláudio Assis, é a atração inaugural do Festival de Pré-Estreias, promovido pelo Espaço Itaú de Cinema. A mostra, que acontece on-line, será aberta nesta sexta-feira, 19, Dia do Cinema Brasileiro, e prosseguirá até 29 de junho. O público poderá assistir ao filme pernambucano, protagonizado por Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele e Cauã Reymond, gratuitamente, na plataforma do Espaço Itaú Play.

O festival exibirá, ao longo de dez dias, mais 18 filmes, sendo dez brasileiros e oito internacionais. O interessado pagará dez reais por cada título escolhido (disponível por período de 48 horas).

O cardápio é dos mais variados e estimulantes. Há filmes de grande e feminina beleza, como o turco “O Conto das Três Irmãs”, de Emin Alper, e obras de geografias distantes, como o afegão “O Orfanato”, no qual um adolescente pobre enfrenta a vida como se ela fosse um dançante e colorido filme de Bollywood. Da Alemanha, chega “O Chão sob os meus Pés”, de Maria Kreutzer. Da China, dois títulos – “Viver para Cantar”, de Johnny Mo, e “Suk, Suk”, de Ray Yeung. Da França, outros dois: “Deerskin, a Jaqueta de Couro do Servo”, de Quentin Dupieux (com o oscarizado Jean Dujardin), e o drama erótico “Liberté”, do catalão Albert Serra, baseado no Marquês de Sade. Este filme é recomendado aos que gostam de narrativas transgressores e com muitas cenas de sexo (inclusive explícito).

A presença feminina nas produções que compõem o festival é das mais significativas. Há personagens fortes no “Conto das Três Irmãs” e “O Chão sob os meus Pés”. Sem esquecer as brasileiras “Pacarrete” (Marcélia Cartaxo) e Madá (Regina Casé), governanta que comanda casa de patrão envolvido em suspeitas transações (“Três Verões”).

Um filme, em especial, simboliza, como nenhum outro, a força feminina do cinema contemporâneo: o documentário norte-americano “Alice Guy-Blaché – A História Não Contada da Primeira Cineasta do Mundo”, de Pamela B. Green. Ao longo de 103 minutos, a documentarista revisita a singular trajetória de uma jovem francesa, nascida em 1873, em Saint-Mandé, que escolheu o cinema como ofício. Aos 21 anos, ela tornou-se nome festejado na poderosa Gaumont. Um de seus filmes, realizado em 1906, intitulava-se “As Consequências do Feminismo”. Quando o marido de Alice, Herbert Blaché, foi enviado aos EUA, como representante comercial da Gaumont, ela partiu com ele, disposta a sequenciar sua vida de cineasta pioneira. Fundou sua própria empresa, a Solax, e deu seguimento à sua bem-sucedida carreira. Mas acabaria indo trabalhar na empresa do marido. Em 1918, ele separou-se dela (oficialmente, em 1922). A diretora regressou à França natal, mas já fora esquecida pelos conterrâneos.

Calcula-se que Alice Guy-Blaché tenha dirigido quase mil títulos (nos primórdios do cinematógrafo, os filmes eram bem curtos). Mas a história audiovisual seria dominada pelos homens e a trajetória da realizadora eclipsada. Só agora, o que restou de sua obra vem sendo resgatado em mostras, livros e filmes como este que o Festival de Pré-Estreias exibirá. A cineasta franco-estadunidense morreu em Nova Jersey, em 1968, aos 94 anos.

A presença de realizadoras brasileiras no festival on-line é notável. Dos onze filmes programados, quatro têm mulheres em seu comando. A começar por “Três Verões”, da carioca Sandra Kogut, que fez de Regina Casé sua protagonista absoluta. A gaúcha Ana Luiza Azevedo mostra “Aos Olhos de Ernesto”, um drama banhado pelo minimalismo melancólico uruguaio, protagonizado por um grande ator platino, Jorge Bolani, e por uma jovem portalegrense, Gabriela Poester.

A atriz e cineasta carioca Ana Maria Magalhães mostra seu quinto longa-metragem, o documentário “Mangueira em Dois Tempos”. Maya Dá-Rin, filha de dois cineastas, Sandra Werneck (“Cazuza”) e Silvio Dá-Rin (“Hércules 56”), apresenta o festejado “A Febre”, vencedor do Festival de Brasília, ano passado. O baiano “Guerra do Algodão”, terceiro longa-metragem da dupla Marília Hughes e Cláudio Marques, tem como protagonista a jovem Dora (Dora Goritzi).

Completam a representação brasileira, além de “Piedade”, de Cláudio Assis, realizado em Recife, o cearense “Pacarrete”, de Allan Deberton, o mineiro “Querência”, de Helvécio Marins, e os paulistas “Dora e Gabriel”, de Ugo Giorgetti, e “Música para Morrer de Amor”, de Rafael Gomes. O décimo-primeiro título, “Boni Bonita”, de Daniel Barosa, é uma coprodução entre Argentina e Brasil. No elenco, a adolescente Ailín Salas, Caco Ciocler, Ghillerme Lobo e os cantores-atores Ney Matogrosso e Otto.

“Pacarrete” foi o grande vencedor do Festival de Gramado, em agosto do ano passado. Tinha estreia programada para março, mas a pandemia do coronavírus fechou os cinemas. Por isso, a história da bailarina que sonhava homenagear o bicentenário de sua cidade natal com memorável ballet foi adiada. Um filme de alma feminina, no qual os atores (João Miguel à frente) são apenas coadjuvantes. Quem domina a narrativa e imanta nosso olhar é Marcélia Cartaxo, iluminada como outrora (tempos da Macabeia de “A Hora da Estrela”), sua sofrida irmã (Zezita Mattos), sua doméstica irreverente (Soia Lira) e uma fugidia secretária municipal de Cultura (Samya de Lavor). Um filme que tem tudo para dialogar com público mais amplo, a começar pelo embalo de sua trilha musical, fruto de envenenada e eclética engenharia sonora.

Entre as atrações estrangeiras, duas chamam atenção. Quem encantou-se com os densos filmes de Nuri Bilge Ceylan (“3 Macacos”, “Sono de Inverno”, “Árvore dos Frutos Selvagens”) e com a beleza rochosa da Anatólia turca vai gostar de “Conto das Três Irmãs”. Imagens de beleza arrebatadora, um mundo dominado por homens, jovens mulheres com a sexualidade à flor da pele, papeis sociais pré-definidos e humilhantes. Adolescentes e moças pobres devem ser babás ou domésticas em casa de patrões ricos. A primeira delas volta grávida, a do meio é rejeitada e devolvida e a caçula prepara-se para ir à sonhada cidade grande cumprir sua sina.

“O Orfanato”, apesar do título pouco atrativo, traz história curiosa e envolvente. No final dos anos 1980, Gorbachov presidia a URSS e mantinha relações estreitas com o Afeganistão. Quodrat, um adolescente pobre (o carismático Quodratollah Quadiri) vive, pelas ruas de Cabul, de pequenos expedientes. Um deles consiste em vender, por preço infinitamente maior, ingressos para a sala de cinema do bairro, onde são exibidos dançantes e exóticos filmes de Bollywood. Pego pela polícia, Quodrat será internado num orfanato.

Que ninguém espere aquelas sagas de meninos maltratados por inspetores brutais. O filme desenvolve-se em tom lúdico e amoroso. Até viagem coletiva dos órfãos a Moscou, quando visitarão a múmia de Lênin (recriada em estúdio cenográfico), será marcada por alegre euforia. Os rumos da grande história – o triunfo talibã – colocará tudo a perder. Ou não? Se depender da imaginação “bollywoodense” de Quodrat, pode ser que não.

Shahrbanoo Sadat, o diretor, realizou seu longa-metragem a partir de livro de conterrâneo afegão que trilhou os mesmos caminhos de Quodrat. E o fez com produtores franceses, alemães e dinamarqueses na retaguarda. Não filmou em seu país, que segue sob comando talibã.

Festival Espaço Itaú de Pré-Estreias On-line
Data: desta sexta-feira, 19, até 29 de junho
Local: plataforma Espaço Itaú Play/Looke
Programação: serão exibidos 19 filmes (onze brasileiros e oito internacionais). Cada filme ficará disponível por 48 horas. Acesso a R$ 10,00 (cada título). 20% do valor será destinado à APRO (Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais), que auxiliará profissionais do setor afetados pela pandemia.
Mais informações no site: www.itaucinemas.com.br

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