Sérgio Ricardo

Por Maria do Rosário Caetano

O rapaz nascido na interiorana Marília, numa família de origem sírio-libanesa e batizado com o nome de João Mansur Lufti, era muito bonito. E queria ser artista. Mudou de cidade (São Paulo, Santos, Rio de Janeiro) e de nome. Virou Sérgio Ricardo. Sua bela estampa resultou em papeis de galã em telenovelas, mas a música e o cinema tornaram-se seus principais ofícios.

Sérgio Ricardo morreu nesta quarta-feira, 23 de julho, aos 88 anos. Deixa grande acervo musical registrado em disco e sucessos como “Zelão”, “Calabouço” e “Zé Tulão”, muitos filmes como trilheiro (destaque especial para “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha) e diretor (“O Menino da Calça Branca”, “Esse Mundo é Meu”, “A Noite do Espantalho”), alguns livros e quadros. Gostava de pintar.

A vida do instrumentista (tocava piano e violão), cantor e compositor foi marcada por três episódios.

Primeiro: ele teria entrado na “condição de bicão” (escorado em seu sex appeal) no famoso Concerto da Bossa Nova, no Carnegie Hall, em Nova York.

Segundo: o sucesso da parceria com Glauber (musicou os arrebatadores versos “Se entrega Corisco/ eu não me entrego não/ só me entrego não, só me entrego na morte, de parabelo na mão”) foi de tal forma intenso, que Sérgio não podia fazer show sem entoar a saga do cangaceiro loiro. Era cobrado pela plateia, que cantava junto.

Terceiro, e o mais complicado: a “violada” no III Festival da TV Record. Em ato intempestivo, depois de vaias vigorosas do público insatisfeito com a quilométrica “Beto Bom de Bola”, uma das concorrentes, ele quebrou o próprio violão e arremessou os restos sobre a plateia.

Para exorcizar o que acontecera naquele fatídico dia de 1967, auge da febre festivaleira, Sérgio Ricardo até escreveu um livro, “Quem Quebrou o meu Violão” (1991). Seus desafetos responderam: “Foi ele mesmo!”. Outros, como a dupla de cineastas Renato Terra e Ricardo Calil o ouviram, com serenidade e respeito, em excelente longa documental, “Uma Noite em 67” (2010). Obrigatório.

A turma da Bossa Nova, em especial a do “sol, sal, sul” – Ronaldo Boscoli à frente – não o tinha como um par. Mas os jovens compositores que viriam a seguir (a geração de Chico Buarque) manteve com Sérgio Ricardo relação de harmonia e de respeito. O Cinema Novo, que tinha em Glauber Rocha o seu profeta, o acolheu de braços abertos. Tanto que, além de “Deus e o Diabo”, ele fez trilha para “Terra em Transe” (1967) e “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (1969).

Antes de tornar-se trilheiro requisitado, Sérgio irmanou-se com o braço cinematográfico do CPC-UNE (Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes) e dirigiu um média-metragem muito festejado – “O Menino da Calça Branca”, com Ziraldo no elenco. Foi ao Oriente Médio em busca de suas raízes e lá realizou outro média-metragem, “O Pássaro da Aldeia”. E estreou no longa-metragem com “Esse Mundo É Meu”, com o glauberiano Antônio Pitanga no elenco. O filme, baseado na peça teatral de Francisco de Assis, “Aventuras de Ripió Lacraia”, foi montado por Ruy Guerra.

Em todos os seus trabalhos como cineasta, Sérgio Ricardo fez questão de contar com a colaboração do irmão, o craque Dib Lutfi (1936-2016). Dib, conhecido como o “homem tripé” (sem conotação sexual) tornou-se um dos mais inventivos fotógrafos da história do cinema brasileiro. Fez a câmera de “Terra em Transe” (fotografia de Luiz Carlos Barreto). E, a partir dali, faria da câmera na mão, de leveza única, a força de filmes inventivos como “A Lira do Delírio” (Walter Lima Jr, 1976). A genialidade do irmão de Sérgio Ricardo está registrada no belíssimo “Dib” (1997), documentário de Márcia Derraik e Simplício Neto.

Sérgio Ricardo e o irmão fotógrafo Dib Lutfi

Sérgio Ricardo morreu com muitos projetos na gaveta. O incansável produtor Cavi Borges conseguiu viabilizar um deles, “Bandeira de Retalhos”, com Antônio Pitanga, Osmar Prado e atores da trupe Nós do Morro, no elenco. Um filme de baixíssimo orçamento, que foi exibido na Mostra de Tiradentes e chegou ao circuito on-line, por esforço do mesmo Cavi. Dos projetos não realizados, o que mais apaixonava o ator-compositor-cineasta era uma ópera popular (“Estória de João-Joana”) inspirada em Carlos Drummond de Andrade. O músico compôs a trilha sonora e a transformou em matéria de concerto da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro. Mas o filme não saiu do papel.

O poeta bem que ajudou. Em maio de 1985, ao ouvir o disco-cordel com a trilha de “Estória de João-Joana”, Drummond escreveu bilhete dos mais amorosos, que Sérgio guardou como um tesouro: “Passei parte da noite de ontem e vou varando o frio deste sábado ouvindo o LP, sem me cansar de ouvi-lo. Sigo embalado pelo poder mágico de sua voz e de sua música, combinados de forma tão patética que, ao autor do velho poema, já meio desligado ao seu trabalho, causa arrepios. É a funda, indisfarçável emoção que despertam em nós as criações mais puras e generosas do espírito artístico. Você me inspirou essa emoção profunda, que confraterniza as criaturas sob um signo poderoso. A gravação está esplêndida, e o trabalho de orquestração do mestre Radamés deu uma riqueza fabulosa de ressonâncias íntimas ao fino lavor inicial do cordel. Obrigado, meu caro Sérgio, de todo coração pela esmagadora sensação de beleza e de humanidade que você me deu”.

Quem prestou atenção na vigorosa trilha sonora de “Bacurau” (Kleber Mendonça e Juliano Dornelles, 2019) ouviu, além de “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Geraldo Vandré, a instigante “Bichos da Noite”, de lavra ricardiana.

 

FILMOGRAFIA
Sérgio Ricardo
(Marília-SP, 18 de junho de 1932)

COMO DIRETOR

1961 – “O Menino da Calça Branca” (média-metragem)
1963 – “O Pássaro da Aldeia” (média)
1963 – “Esse Mundo É Meu” (longa)
1970 – “Juliana do Amor Perdido” (longa)
1974 – “A Noite do Espantalho” (longa)
2014 – “Pé Sem Chão” (curta)
2018/2020 – “Bandeira de Retalho” (longa)

COMO AUTOR DA TRILHA

1964 – “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber)
1967 – “Terra em Transe” (Glauber)
1969 – “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro” (Glauber)
1969 – “A Compadecida”, George Jonas
1970 – “Juliana do Amor Perdido” (em parceria com Luiz Roberto Oliveira)
1971 – “A Guerra dos Pelados” (Sylvio Back)
1973 – “A Noite do Espantalho”

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