Zuza Homem de Jazz

Por Maria do Rosário Caetano

Com a morte do pesquisador, produtor musical, engenheiro de som e contrabaixista Zuza Homem de Mello, aos 87 anos, em sua São Paulo natal, permanecem, além de seus muitos livros e significativas participações em filmes e séries de TV, um documento especial, o longa-metragem “Zuza Homem de Jazz”, dedicado a ele e a sua trajetória musical, pela cineasta Janaína Dalri.

Filmado no Brasil e nos EUA, o longa foi lançado há dois anos, no Instituto Cultural Itaú, e seguiu por circuito de festivais e várias exibições no Canal Curta!, que agora deve ganhar bis. Os oito livros publicados por Zuza (o nono, uma biografia de João Gilberto, está no prelo) lhe renderam assento na Academia Paulista de Letras.

Entre os muitos filmes que contaram com efusivos e consistentes depoimentos de Zuza Homem de Mello, há que se destacar documentários de realizadores como Rubens Rewald (no recente “Jair Rodrigues – Deixa que Digam”, ele fala de “Disparada”, sucesso na voz do sambista) e Renato Terra e Ricardo Calil (“Uma Noite em 67”).

Renato Terra conta que, além de ter dado depoimento substantivo ao filme, “Zuza foi nosso consultor, nos ajudou muito nos bastidores, fazíamos as pautas com as perguntas e mandávamos para ele avaliar”. E, o que foi fundamental ao longa documental sobre o famoso Festival da Canção de 1967, “sem Zuza, nós não teríamos conseguido entrevistar Roberto Carlos e Paulo Machado de Carvalho”. Enfim, “sem o livro ‘A Era dos Festivais – Uma Parábola’, não teríamos nenhuma base para o filme”.

Ao saber da morte do musicólogo, Tárik de Souza externou sua dor: “perder Zuza numa época tão devastada constitui terrível lástima”. Para, em seguida, relembrar: “lá se foi o enciclopédico Zuza Homem de Mello, amigo e ídolo, com quem tive a honra de trabalhar, quando editei a série de livros de música da Editora 34. Um deles foi ‘A Canção no Tempo’, que ele escreveu em parceria com o grande Jairo Severiano, cujos dois volumes são campeões de vendas da coleção até hoje”. Tárik editou, também, livro que considera definitivo, “A Era dos Festivais – Uma Parábola”, guia completo deste período efervescente da MPB. Justo o livro que serviu de bíblia para Terra & Calil.

“Recentemente” – arremata Tárik, um dos críticos musicais mais importantes do país e apresentador do programa MPBamba –, “dei meu depoimento a Zuza para livro que ele, felizmente, conseguiu terminar sobre o João Gilberto. Tenho certeza que será mais uma obra fundamental sobre personagem tão complexo e denso”.

A cineasta Janaína Dalri fugiu, em “Zuza Homem de Jazz”, da biografia convencional do músico (formado na Juliard School of Music), que deixou o instrumento de lado para dedicar-se à pesquisa e à difusão do jazz, da Bossa Nova e, com paixão imensa, da era dos festivais. Afinal, ele foi um dos artífices da febre festivaleira que varreu o país na segunda metade dos anos 1960 e no começo dos anos 1970. Como engenheiro de som, gravou instrumentos e vozes que levaram, via TV, a MPB às multidões.

O dispositivo adotado pela cineasta mostra Zuza, aos 85 anos, em encontros com músicos (e alguns críticos) brasileiros e norte-americanos. Tudo começa com o musicólogo fazendo sua caminhada matinal em espaço cercado de verde. Depois, ele aparece no estúdio da Rádio USP, onde gravava seu programa semanal, “Play List”, dedicado à música de alta qualidade.

Ao longo de “Zuza Homem de Jazz”, os encontros vão se multiplicando. Começa com o baiano Letieres Leite, criador da Orkestra Rumpilezz e prossegue com Mário Adnet e Zé Nogueira, responsáveis pelo CD “Ouro Negro”, tributo à obra do grande compositor pernambucano Moacir Santos (1926-2006). Novo encontro, na elegante Sala São Paulo, com o pianista André Mehmari. Outro pianista, Nelson Ayres, relembra a volta de Zuza dos EUA. E a colaboração valiosa que ele deu ao Free Jazz Festival, no qual Ayres se apresentou com sua big band. Monique Gardenberg, uma das diretoras do Free Jazz, soma sua voz à de Roberto Muylaert, então diretor da TV Cultura, para relembrar o impacto do evento para artistas brasileiros, que puderam trocar experiências com grandes nomes do jazz internacional.

Zuza lembrará, então, em seu filme, e com o humor costumeiro, que uma de suas tarefas, no Free Jazz, era das mais insólitas: avisar ao pessoal da segurança que os músicos norte-americanos “puxavam fumo” na maior sem-cerimônia e não poderiam ser detidos por tal prática. Pediu tolerância e foi atendido. Nenhum jazzista foi em cana por causa da marijuana.

Zuza manterá, também, fértil encontro com Egberto Gismonti, e apresentará trecho do show “Copacabana”, que ilustrou com histórias e canções presentes em seu oitavo livro, dedicado ao Samba Canção. Numa cena privada, ele é visto em seu sítio, tomando café com a esposa, Ercília, para em seguida preparar viagem a Nova York, onde encontrará colegas e amigos dos tempos em que estudou na Julliard School.

Os pais de Zuza, ao perceberem a inclinação do rapaz pela música, exigiram que se formasse em Medicina, Direito ou Engenharia, profissões respeitadas na época. Depois de um curso capaz de garantir seu sustento, ele poderia estudar Música e em escola de ponta. O jovem optou pela Engenharia. E, depois, cuidou de sua sólida formação musical. Zuza lembra que aprendeu a tocar e, principalmente, a “escutar” música.

Nos EUA, além de estudar, Zuza frequentou casas de jazz e iniciou-se no jornalismo musical, assinando a coluna “Nova York (Via Varig)”, já que a empresa aérea transportava seus textos para variadas redações brasileiras. No primeiro encontro em solo novaiorquino, Zuza conversa com a compositora Maria Schneider. Depois, com o trompetista Winton Marsalis. Ambos falam maravilhas da música brasileira.

O crítico de jazz Gary Giddins mantém com Zuza, conversa surpreendente e aliciadora, ao lembrar que, no final dos anos 1950, início dos 60, o rock tomou conta dos EUA. Passadas as décadas de ouro (de 1925 a 1955), os músicos de jazz perdiam seus empregos e contratos com gravadoras. Os espaços nos meios de comunicação e nas casas noturnas se fechavam. Foi aí que, na década de 1960, os grandes músicos norte-americanos descobriram que, no Brasil, havia um tipo de jazz, a Bossa Nova. E que o país contava com seu “próprio Gershwin e ele se chamava Tom Jobim”.

A paixão bela Bossa Nova tomou conta dos grandes músicos norte-americanos. Em mais um encontro promovido pelo filme, Zuza revisita o Village Vanguard, bar que frequentava sempre que podia (ou seja, tinha uma graninha no bolso). Razão para conversar com Debora Gordon, filha do proprietário, já falecido, que não mede esforços para preservar a tradição herdada do pai.

Os anos de estudante na Julliard School são revisitados em conversa de Zuza com um colega de classe, o pianista e cantor Bob Dorough. Os dois folheiam álbuns de fotos preservadas pelo brasileiro. Em sintéticos 72 minutos, “Zuza Homem de Jazz” registra, para o futuro, a trajetória de um engenheiro que fez da música sua razão de viver.

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