Belchior terá sua trajetória contada em cinco filmes e uma série de TV

Por Maria do Rosário Caetano

Os admiradores do cantor e compositor cearense Belchior, que morreu peregrinando por obscuros caminhos e esconderijos gaúcho-uruguaios, não perdem por esperar. Ainda este ano, dois documentários sobre o “rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes” chegarão ao público.

O primeiro, “Belchior, Apenas um Coração Selvagem”, de Natália Dias e Camilo Cavalcanti, já está em fase adiantada de finalização. A dupla detalha o momento exato: “nosso documentário encontra-se em pós-produção, fase de licenciamento de imagens e de composições musicais e finalização do corte”. No filme, o ator cearense dirá poemas de Belchior.

O outro filme, inspirado no livro “Belchior, Apenas um Rapaz Latino-Americano”, de Jotabê Medeiros, terá direção de Eduardo Albergaria e será lançado no final do ano, pelo Canal Brasil.

Medeiros, que lançou seu livro pela Editora Todavia em 2017, adianta que a produtora carioca Urca Filmes realizará, ainda, uma minissérie e um longa-metragem, ambos ficcionais, sobre a trajetória do artista cearense. Belchior morreu aos 70 anos, longe dos palcos e dos fãs, em abril de 2017 .

O produtor Leonardo Eddes, um dos proprietários da Urca Filmes, está em Sobral, cidade natal do compositor. Lá, ele cuida da pré-produção do primeiro dos três projetos belchiorianos que mobilizam a produtora carioca.

Jotabê Medeiros atua, ainda, como consultor do documentário, que conta com pesquisa dos jornalistas Cristina Fuscaldo e Marcelo Bortolotti, autores de livro sobre os últimos anos de Belchior. Justo os menos conhecidos e os mais enigmáticos. E aqueles em que ele tornou-se uma espécie de “foragido”. Da justiça e, por extensão, dos fãs.

A série para TV, que também será assinada por Eduardo Albergaria, vai focar os primeiros anos da vida do artista, sua passagem de três anos pelo Mosteiro de Guaramiranga (o adolescente chegou a pensar em ser padre), a dedicação à música e os anos mais produtivos de sua carreira. A base será o livro de Jotabê Medeiros.

Belchior (3º da esq. para dir.) e sua turma na Ordem Menor dos Capuchinhos recebem visita do presidente Castelo Branco (centro)

Já o longa ficcional retratará Belchior de forma indireta. Ou seja, a partir de um personagem obcecado pelo cantor sobralense.

Para completar o quadro de produções dedicadas à vida incomum de Antônio Carlos Belchior, nascido em 26 de outubro de 1946, há que se lembrar o documentário do cearense, radicado em Brasília, Nirton Venâncio, e o longa-metragem com o qual Renato Terra, diretor de “Uma Noite em 67” (parceria com Ricardo Calil), recortará trecho muito especial da vida artística do bardo nordestino.

Nirton Venâncio vem trabalhando, há vários anos, na documentação do grupo de músicos que emergiu na década de 1970, em moldes semelhantes ao Tropicalismo baiano e ao Clube da Esquina mineiro. O chamado “Pessoal do Ceará”. Entre eles, estava Belchior. A trupe mobilizou Ednardo, Fausto Nilo, Fagner, Téti, Rodger Rogério e o poeta Chico Pontes. Este, que se tornaria professor no curso de Comunicação da UnB (Universidade de Brasília), era a cabeça “pensante e teorizante” do grupo poético-musical cearense.

Renato Terra vai registrar o período de criação, gravação e lançamento do disco “Alucinação”, que veio a público em junho de 1976, pela PolyGram. Nele estavam algumas das mais famosas composições do artista (“Apenas um Rapaz Latino-Americano”, “Velha Roupa Colorida”, “Como nossos Pais”, “Sujeito de Sorte”, “A Palo Seco”). Mas o elepê não fez o sucesso esperado. Quem estourou nas rádios e vendeu milhares de cópias foi Elis Regina, que no mesmo ano registrou, em apenas dois dias, as dez faixas de seu “Falso Brilhante”. Duas delas eram de Belchior “Como nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida”.

O documentário de Renato Terra terá codireção de Marcos e Léo Caetano e será fruto de parceria da Inquietutde Filmes com a Globonews, Canal Brasil e Globo Filmes. O título do filme será, claro, “Alucinação”, em homenagem a uma das faixas do disco. Faixa, aliás, parte do lado mais misterioso daquele elepê que não estourou no hit-parade, mas hoje é disputado, com preço médio de R$150 reais, nos sebos digitais.

O documentário de Nirton Venâncio está chegando, como diria Odorico Paraguaçu, a seus finalmente. O diretor acredita que terá mais dois meses de filmagens no Ceará (agosto e setembro) e, nos meses seguintes, o documentário entrará em processo de montagem e finalização. O cineasta desembarca em Fortaleza no próximo dia 27 de julho.

Para provar que Belchior tornou-se, pela qualidade de suas canções e por seus misteriosos e derradeiros anos, objeto de culto, vale lembrar que Ana Cañas acaba de dedicar um disco inteiro a ele, com faixas já disponibilizadas na internet.

“Apenas um Coração Selvagem” marca a estreia de Natália Dias e Camilo Cavalcanti no longa-metragem

A fluminense Natália Dias, de 35 anos, nascida em Belfort Roxo, e o mineiro Camilo Cavalcanti, de 39, nascido em Belo Horizonte, fazem sua estreia no longa-metragem com “Apenas um Coração Selvagem”.

Os dois uniram forças para “apresentar Belchior, o eterno rapaz latino-americano, em um autorretrato que mergulha no coração selvagem do poeta, cantor e compositor cearense”. E o fizeram por, além de serem admiradores do artista, ver sua obra como “atemporal” e fertilizada por “ideias cortantes”, um “marco na história da música popular brasileira”.

Natália, antes de sua estreia como diretora e roteirista, iniciou carreira como produtora no mercado independente. Organizou oficinas de roteiros com Robert McKee e Marta Kauffman e atuou como produtora e produtora executiva ao longo de seis anos em diferentes canais do Grupo Globo (destaque para três edições do projeto musical “Globo de Ouro”, pelo Canal Viva). Atualmente, trabalha como especialista em Desenvolvimento de Conteúdo Original de Ficção para o serviço de streaming da Globoplay.

Camilo Cavalcanti (com “i”, o que diferencia seu nome do pernambucano Camilo Cavalcante), é produtor criativo, executivo e documentarista. Ele assinou a produção-executiva do longa “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, premiado na mostra Un Certain Regard, em Cannes, e por três anos (2014 a 2017) foi produtor executivo na LC Barreto, empresa da família de Lucy e Luiz Carlos Barreto.

Camilo Cavalcanti e Natália Dias

O parceiro de Natália em “Apenas um Coração Selvagem” tem seu nome nos créditos de produções recentes realizadas para a HBO Latin America: “Escravidão Século XXI” e “Em Busca de Anselmo” (esta ainda inédita). E mais: assina a produção executiva dos longas “Tia Virgínia”, de Fabio Meira, e “Vovó Ninja”, de Bruno Barreto, ambos em pós-produção.

Camilo foi coprodutor de “Barretão”, documentário de Marcelo Santiago, e nesse momento produz as séries “Sobrepostas” (Canal Brasil) e “As Seguidoras” (Paramount+). Além do longa documental “Copan”, uma coprodução internacional.

A Revista de CINEMA conversou com Natália e Camilo sobre o lançamento de “Apenas um Coração Selvagem”, que deve ser o primeiro dos projetos dedicados à trajetória de Belchior a chegar ao público.

Vocês pretendem estrear em algum festival? Gramado (13 a 21 de agosto), Cine Ceará (27 de novembro a 3 de dezembro)?

Temos, sim, a intenção de que o filme seja exibido em festivais. A gente acredita muito na força da palavra e poesia de Belchior e na necessidade de que essa potência viaje por festivais no Brasil e no mundo. Por razões óbvias, desejamos que o filme tenha uma de suas primeiras exibições no Ceará. Gramado e todos os outros grandes festivais do Brasil são, sem dúvida, possibilidades lindas para o filme.

Depois dos festivais, o filme irá direto para a programação do canal Curta!?

O Curta! é um grande parceiro nessa construção. Abraçou o projeto em seu início e o impulsionou, trazendo a gente até esse momento. O filme possui licenciamento de dois anos com o canal Curta!. A data de estreia ainda não está definida.

Então o filme poderá passar, antes, pelas salas de cinema?

O cinema é a nossa casa e o nosso templo. Mas, no caso do “Apenas um Coração Selvagem” temos uma obrigação contratual, junto ao FSA (Fundo Setorial do Audiovisual), de estrear na TV fechada (por assinatura). A carreira do filme após essa estreia ainda está em planejamento.

Foi fácil acessar arquivos de imagens do artista cearense?

O trabalho de pesquisa é absolutamente protagonista em nosso filme. Isabela Mota é uma das grandes pesquisadoras audiovisuais do país. Ela fez um trabalho minucioso e dedicado para que a gente pudesse ter acesso a arquivos preciosos. Muito do que Belchior disse está disponível na internet. Mas existem pérolas escondidas nos acervos que a Isabela nos apresentou e que hoje são fundamentais na construção narrativa do nosso documentário. No corte contamos com diversas fontes como as TVs Globo, Cultura, Bandeirantes e a TV Ceará. Contamos, também, com o Arquivo Nacional e com fotos do acervo familiar de Belchior. Mergulhar nesses acervos nos mostrou a imensa necessidade de aprofundarmos o compromisso com a preservação de nossa memória audiovisual.

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