“Pele Negra, Máscaras Brancas” narra trajetória do Frantz Fanon

Por Maria do Rosário Caetano

“Frantz Fanon: Pele Negra, Máscaras Brancas”, produção britânica dirigida por Isaac Julien, chega, finalmente, ao público brasileiro. Depois de exibições esporádicas em canais a cabo, o documentário, com inserções ficcionais, foi agregado ao acervo da plataforma Supo Mungan Plus.

A filósofa e ativista Angela Davis foi uma das primeiras vozes a se fazer ouvir ao enaltecer as qualidades da cinebiografia do psiquiatra martinicano, nome de primeira grandeza na luta anticolonial. Diz ela: “visualmente deslumbrante e intelectualmente provocante, o filme de Isaac Julien é uma exploração eloquente e complexa da vida e do legado do mais poderoso teórico do racismo e do colonialismo no século XX”. A cópia que chega ao Brasil foi restaurada pelo Instituto Britânico e chega com sons equalizador e cores originais.

Frantz Omar Fanon nasceu em uma família de classe média, em Fort-en-France, na Martinica, em junho de 1925. Morreria em dezembro de 1961, com apenas 36 anos. Deixaria, porém, dois livros que se transformariam em bíblias das lutas contra o racismo e o colonialismo: “Pele Negra, Máscaras Brancas”, de 1952, e “Os Condenados da Terra”, de 1961, este prefaciado por Jean-Paul Sartre.

O filme de Julien, cineasta oriundo das artes plásticas, foi realizado em 1995, ano do centenário do cinema. Além do diretor, dois nomes foram essenciais no processo criativo de “Pele Negra, Máscaras Brancas” – o ator britânico Colin Salmon e o corroteirista e produtor Mark Nash.

Salmon dedicou-se a incorporar Fanon com intensa devoção, mesmo que o filme tenha estrutura documental e some uma dezena de depoimentos (de intelectuais, estudiosos da vida de Fanon e parentes próximos). Como há poucas imagens em movimento do psiquiatra negro, Isaac Julien convocou uma criança para representá-lo em seus tempos de menino curioso e estudioso. E Colin Salmon para a fase adulta e mais importante.

O menino Frantz cresceu no seio de uma família que se julgava francesa, pois falava francês e nascera nas Antilha francesas. Em casa ouvia-se música francesa e lia-se a grande literatura da pátria de Proust. O menino mantinha os ouvidos ligados na emissora radiofônica, que programava chansons francaises e ignorava os sons dos negros martinicanos, aqueles que ele ouvia na rua. Os costumes “brancos” da casa o impeliam a sentir-se um francês. Ele estudou e, sendo bom aluno, foi fazer o curso de Medicina (Psiquiatria) na Universidade de Lyon. Mas descobriu que, em solo francês, ele não era “um francês”, mas sim um martinicano, um antilhano, “um negro”.

Ainda na universidade, Fanon escreveu “Pele Negra, Máscaras Brancas”, que apresentou como tese de finalização de curso. Suas relexões sobre a condição do negro no mundo dos brancos não foram aceitas. Foram, isto sim, percebidas como pouco científicas, “raivosas” até. O formando teve que providenciar outro trabalho acadêmico, em tempo recorde.

O texto rejeitado deu origem ao livro que consagraria seu jovem autor (de apenas 27 anos). Depois de clinicar na França, Fanon decidiu que era hora de assumir novos desafios. A Guerra da Argélia (novembro de 1954 a março de 1962) o mobilizou. Identificou-se com os argelinos, que enfrentavam o poder colonial francês. Partiu para a cidade de Argel e passou a ser conhecido com Ibrahim Frantz Fanon. Teve participação ativa nas lutas de libertação e buscou uma nova psiquiatria em clínica montada no Blida-Joinville Psychiatric Hospital.

Foi nos anos de luta contra o colonialismo que Fanon elaborou suas reflexões mais profundas. Mas a necessidade de tratamento para um câncer (leucemia) o levaria à França e, depois, aos EUA, onde morreria sem comemorar o fim da Guerra da Argélia (o reconhecimento da autonomia do país africano só seria lavrado três meses depois de seu enterro).

Como a década de 1960 colocaria os jovens do mundo em pé de guerra com autoridades (e velhos costumes), o nome de Frantz Fanon ganhou vulto. O filme lembra que, no Maio de 1968, sua história, militância e livros fariam dele uma espécie de “Anjo Vingador”. Afinal, fora amigo de Simone de Beauvoir e de Sartre, fizera conferências plenas de vibração e ideias transformadoras, lutara na Guerra da Argélia.

Intelectuais e escritores como Stuart Hall, Françoise Verger, Homi K. Bhabha, Maryse Condé, Alice Cherki, Raphaël Confiant, Daniel Boukman e Mohammed Harbi darão ricas contribuições ao documentário de Julien, ajudando a iluminar a trajetória intelectual de Fanon.

Que ninguém espere por uma hagiografia. O filme abre espaço à controvérsia. Em especial àquelas despertadas por críticos a algumas ideias (e ideais) de Fanon, como a escritora antilhana Mayotte Capécia e, principalmente, o argelino Mouhammed Harbi, militante desde a juventude na FLN (Frente de Libertação Nacional), que lutou pela emancipação da Argélia.

Cabe a Harbi analisar a compreensão que Fanon tinha do véu islâmico, aquele que cobria (ainda cobre) o corpo das mulheres argelinas. Para o autor de “Pele Negra, Máscaras Brancas” e “Os Condenados da Terra”, o véu servira (fora muito útil) à luta anticolonial. Muitas guerrilheiras da FLN esconderam bombas e armas sob suas túnicas largas e rostos cobertos pelos véus. Quando truculentos soldados franceses tentavam revistá-las, elas gritavam. Não aceitavam que homens tocassem seus corpos. Para Harbi, havia algo de “conservador” nas ideias de Fanon sobre aqueles “corpos velados”.

Além de intelectuais, o filme ouve depoimentos emocionados de parentes do psiquiatra martinicano. Um irmão, a cunhada, uma sobrinha. E, com fotografia muito elaborada (na parte encenada) constroi as imagens que intercalam-se, sem destoar, os testemunhos. Isaac Julien buscou, ainda e com empenho, imagens de arquivo, muitas delas no INA (Instituto Nacional da Imagem Audiovisual, da França). E recorreu — infelizmente com parcimônia — a trechos de “A Batalha de Argel”, o épico revolucionário de Gillo Pontecorvo (Itália, 1965).

Depois dos sintéticos 70 minutos de “Pele Negra, Máscaras Brancas”, o espectador concluirá que fruiu de boa introdução às ideias de Fanon, em especial as relativas aos efeitos psicológicos do colonialismo sobre a subjetividade de pessoas negras. Negras como ele, nascido numa colônia (a Martinica) e que lutou pela libertação de outra (a Argélia).

Quem quiser conhecer mais sobre a obra do psiquiatra pode, além de ler seus livros, assistir ao documentário “Frantz Fanon, Uma Vida, Um Combate, Uma Obra”, de Cheik Djemai (Argélia, França e Tunísia, 52 minutos, 2001), feito para televisão. Mas em canais internacionais, pois este documentário segue inédito no Brasil.

 

Frantz Fanon: Pele Negra, Máscaras Brancas
Grã-Bretanha, 70 minutos, 1995
Documentário com inserções ficionais
Direção: Isaac Julien
Fotografia: Ahmed Bennys (na Tunísia), Conor Connoly, Niuna Kellgren e Kyce Kibbe
Elenco: Colin Salmon, Halima Daoud, Noirin Ni Dybhgaill, Rachida Rahal, Amir M. Korangy, Lavane Carlos e Ana Ramalho
Disponível na plataforma Supo Mungan Play

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