México perde Paul Leduc

Por Maria do Rosário Caetano

O México dá adeus a um de seus maiores cineastas. Paul Leduc – diretor de “Frida, Natureza Viva” e “Reed, México Insurgente” – faleceu em sua cidade natal, a capital mexicana, na terça-feira, 21 de outubro. Tinha 78 anos. Deixa imenso legado: 13 longas-metragens, ficcionais ou documentais, textos reflexivos sobre seu ofício e defesa apaixonada do “cinema calado”. Ou seja, de filmes avessos à retórica.

O maior sucesso de Paul Leduc Rosensweig (seu nome civil) – uma transgressora e pioneira cinebiografia da pintora Frida Kahlo –consagrou a atriz Ofélia Medina, revelou ao grande público o affair amoroso por ela vivido com Trotsky (1879-1940) e colocou ênfase na bissexualidade da pintora. Companheira ardente do muralista Diego Rivera, Frida (1907-1954) amou muitos homens e muitas mulheres. ‘Dieguito’ era muito ciumento. Isso ocorria quando o parceiro da mulher era masculino. Se fosse feminino, o criador dos mais belos copos-de-leite do mundo não se importava. Até estimulava. Afinal, ele era, também, um homem de muitos amores extra-conjugais.

Paul Leduc narrou a apaixonante e acidentada vida de Frida com imagens poderosas (belíssima fotografia de Angelo Godet) e poucos diálogos. Inscreveu seu filme mais famoso na lista dos maiores filmes mexicanos de todos os tempos.

Ao exibir “Frida, Natureza Viva” no Brasil, ainda em cópia 16 milímetros, durante a Jornada de Cinema da Bahia (setembro de 1985), perguntamos a Leduc por que a opção por tão poucos e tão sintéticos diálogos, em se tratando de um filme histórico-político. A resposta veio acompanhada de sua mordaz inteligência: “as palavras, em meu país, vivem desgaste brutal”. E exemplificou: “somos governados há mais de 70 anos por um partido, o PRI, que se chama Partido Revolucionário Institucional. Há uso mais impróprio que esse atribuído ao qualificativo revolucionário?”

Três meses depois, em dezembro de 1985, “Frida” seria eleito o vencedor do Gran Coral Negro, o prêmio máximo do Festival de Havana, láurea dividida com “Tangos, o Exílio de Gardel”, de Fernando “Pino” Solanas. No júri, estava o brasileiro Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), que não escondeu seu entusiasmo com os longas mexicano e argentino.

Frida, Natureza Viva

Leduc se tornaria, dali em diante, um dos nomes mais importantes do cinema latino-americano. Formado pelo IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos de Paris, hoje Femis), manteria relações profundas com Cuba e outros países da América Hispânica. Filmou em Porto Rico e na Venezuela. E estreitou relações profundas com o Brasil, parte lusitana da América. A ponto de filmar, sob o nome de “O Cobrador – In God We Trust”, alguns contos de Rubens Fonseca. À frente do elenco, o baiano Lázaro Ramos e o estadunidense Peter Fonda.

Em 2007, o realizador mexicano recebeu, na capital paulista, o Prêmio Memorial da América Latina, pelo conjunto de sua obra. A solenidade, que ocorreu dentro de uma das melhores edições do Festival do Cinema Latino-Americano de São Paulo, criado por João Batista de Andrade e Francisco César Filho, lotou o Grande Auditório Simon Bolívar. E ele foi aplaudido de pé.

Paul Leduc participou, na ocasião, do programa Roda Viva, da TV Cultura. Foi sabatinado, sob o comando de Paulo Markum, por jornalistas e críticos de cinema, falou de seus filmes, das transformações trazidas pelas tecnologias digitais, de suas ilusões e desilusões (artísticas e políticas). Com a ironia costumeira.

Aos amigos – brasileiros inclusive – Leduc encaminhava, via internet, textos e manifestos com os quais defendia duas de suas maiores causas: o petróleo mexicano (a Pemex) e o cinema (a Pelmex – Películas Mexicanas).

O Prêmio Ariel, o Oscar azteca, o homenageou, também, com grande festa, por sua trajetória. Eterno rebelde, Leduc proferiu discurso inteligente, mas duro, que causou alguns constrangimentos. Sem condições de filmar – depois de “Reed” e “Frida” não conseguiu emplacar nenhum sucesso comercial, nem com “O Cobrador” –, Leduc se exercitava realizando curtas animados (“pequeños dibujos”), com os quais reverenciava canções populares mexicanas, “animalitos” e personagens infantis. Os mais conhecidos integram a série “Los Animales” e “La Flauta de Bartolo”.

A obra do autor de “Frida, Naturaleza Viva” deve ser preservada por sua filha, a cineasta Valentina Leduc. E, no campo da criação cinematográfica, ele deixa instigante divisa: “A obrigação de todo cineasta consiste em comprometer-se com um tema, qualquer que seja e, então, ter uma visão crítica e política dele”. Foi sob esse lema que ele realizou 25 filmes de curta, média ou longa duração.

 

FILMOGRAFIA

1970-72 – “Reed, México Insurgente” (ficção)
1978 – “Etnocídio – Notas Sobre el Mezquitalo” (doc)
1979 – “Puebla Hoy” (doc)
1980 – “Historias Proíbidas del Purgacito” (doc)
1981 – “A Conspiração do Petróleo (doc)
1985 – “Frida, Natureza Viva” (ficção)
1986 – “Como Vés?”
1989 – “Barroco” (ficção)
1991 – “Latino Bar” (ficção)
1993 – “Mambo Dollar” (ficção)
2003 – “Bartolo y a Musica”
2006 – “O Cobrador: In God We trust”
2010 – “Caos” (doc)

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